sábado, 20 de agosto de 2011

Entrevista com Miguel Gomes Martins

Miguel Gomes Martins, historiador especializado em História militar e da Idade Média, publicou recentemente o excelente livro “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média”. Com uma óptima base científica e escrita num estilo acessível, é uma obra de divulgação destinada ao crescente público interessado na História do período em que Portugal nasceu e se afirmou. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia de fazer este livro?
Foi uma proposta da Esfera dos Livros, que foi justamente fazer um livro que fosse perceptível por boa parte dos leitores e não apenas pelos habituais especialistas. Vemos a profusão de romances históricos que começam a aparecer, alguns até de autores portugueses, a tratar questões e temas relacionados com a Idade Média, o que significa que há um público interessado. A ideia foi tentar alcançar esse público.

Os seus trabalhos têm incidido especialmente sobre a História Militar Medieval. Porquê o interesse na guerra?
Talvez tenha lido cedo demais, muito novo, as aventuras do Ivanhoe e seguido de forma muito intensa as séries do Robin Hood. Juntamente com outro tipo de leituras e de influências, nomeadamente dos meus avôs, com gostos diferentes, um mais virado para a História da guerra, porque era militar, e o outro para a História propriamente dita.

Acha que hoje se perdeu a ideia que a guerra é algo que faz parte da relação entre os povos?
Eu creio na ideia de que o objectivo da humanidade deverá sempre tentar alcançar a paz. Quando estudo a guerra procuro tentar conhecê-la. Como dizia o general Themudo Barata, nós não podemos combater um mal, sem o estudarmos. Acho que o conhecimento da guerra pode permitir-nos ajudar a alcançar a paz. Ainda que seja uma situação de paz transitória.

Tem surgido um crescente interesse do público no tema da guerra. Será que as pessoas procuram algo que pensam que já não existe?
Não me parece. Acho que tem que ver, sobretudo, com a influência que o cinema tem tido ultimamente na população, se virmos a espectacularidade que a guerra tem. Porque a guerra é um fenómeno espectacular, independentemente de todas as suas consequências nefastas.

Para além do espectáculo, não lhe parece que as pessoas procuram os valores que aí são exaltados?
Não sei. Acho que, se as pessoas procuram esse tipo de ideais, procuram-nos quase como uma relíquia, que está perdida no tempo. Analisam-nos e observam-nos com uma grande distância.

Também a curiosidade pela Idade Média tem vindo a aumentar. Como comenta?
Não consigo encontrar uma explicação. Durante vários anos, porque interessava ao regime, o período de excelência da História de Portugal foi o dos Descobrimentos. Isso levou a que os outros períodos fossem um pouco preteridos em termos de estudo e de divulgação. Creio que esta recuperação da Idade Média tem que ver com algum cansaço em relação a outros períodos.

Acha que já saímos da ideia de que foi uma “idade das trevas”?
Acho que sim. Estamos já a passar ao patamar seguinte, em que se trata de um período histórico como qualquer outro. Também o papel das Universidades tem sido fundamental.

Acha que os portugueses procuram aí uma identidade?
Em termos exclusivamente territoriais, sim. Portugal tem as suas fronteiras praticamente definidas e com os mesmos limites que tem hoje desde finais do século XIII. Com o Tratado de Alcanices, as fronteiras ficam praticamente definidas e são, para todos os efeitos, as fronteiras mais antigas da Europa. Se quisermos ir procurar aí algum elemento de identidade, vamos encontrá-lo na Idade Média. Se quisermos encontrar a formação de Portugal enquanto reino, é aí que vamos encontrar. Também a afirmação do português e a sua institucionalização como língua oficial ocorre em finais do século XIII, com D. Dinis. Há aí, portanto, elementos identitários que surgem, que se afirmam e se consolidam.

Diz na nota prévia que as balizas históricas deste seu trabalho – a Batalha de Ourique e a de Aljubarrota – lhe surgiram de forma “natural”. Porquê?
Pela carga simbólica e porque têm uma importância prática de definir momentos históricos na Idade Média. Ourique é a batalha que faz um rei. Aljubarrota fecha um ciclo. É, talvez, o início de Portugal em guerra e o fim de Portugal em guerra na Península Ibérica.

Como foi o processo de selecção das batalhas?
Não foi fácil. Tinha um leque de vinte e tal episódios para os quais havia estudos, documentação e fontes. Tinha, obviamente, que analisar episódios que estivessem suficientemente documentados para não entrar na área da especulação, o que não era o meu objectivo. Esse, foi sempre alicerçar em fontes narrativas e documentais, e nalguns casos arqueológicas, toda a minha análise.

E quanto ao resultado?
A determinada altura, comecei a olhar para o que tinha e só tinha vitórias portuguesas ou semi-empates. Comecei a perceber que as fontes portuguesas estão um pouco inquinadas, pois as derrotas estão escamoteadas. Nesse sentido, a inserção de uma derrota clara, que foi o cerco de Almada, foi quase posta “a ferros”.

Mas deixa antever a possibilidade de um outro livro que trate outras batalhas...
Vai depender da editora. Da minha parte tenho já alguns episódios seleccionados, que me sobraram, digamos assim, deste livro. Gostaria de ter analisado outros, como o cerco de Silves, a batalha de Valverde, ou a batalha de Atoleiros.

Opta pela análise da chamada “guerra total”. O que é?
Estudar apenas as batalhas e numa perspectiva exclusivamente táctica acabou por ser nefasto para a História militar. Actualmente procuramos abranger questões como o político, o social e o económico. Acho que é fundamental para se perceber como era organizada a guerra, perceber questões como o financiamento, a fiscalidade, a organização social do reino, as linhas de penetração, a geografia. É isso que é a História da guerra total, onde se procuram focar todas as questões ligadas directamente à guerra e não apenas as questões de natureza meramente táctica. Cada vez mais os historiadores que fazem História Militar estão conscientes desta necessidade, porque a guerra é um fenómeno dos mais completos, que envolve tudo.

Os exércitos medievais eram provisórios e heterogéneos. É algo que torna a guerra mais fascinante neste período?
Isso obriga-nos a repensar a guerra na Idade Média e pô-la num patamar diferente da guerra no período clássico ou moderno. O facto de não haver exércitos permanentes, um financiamento exclusivamente dirigido para a organização e a prática da guerra, ou rotinas de combate entre os guerreiros, condiciona claramente o tipo de guerra que é praticado. Impossibilita, por exemplo, a condução de campanhas demasiado longas. O tipo de estratégia que é usado na Reconquista é uma estratégia de guerra de desgaste, que vai tentar depauperar os recursos do inimigo. Uma guerra que D. Nuno Álvares Pereira chamava “a guerra guerreada”.

Porque as batalhas não eram habituais...
A fraca ocorrência de batalhas tem que ver com a consciência que os comandantes militares têm de que uma batalha pode ser decisiva e que pode ditar o destino, eventualmente, de um reino. Não são muitas as batalhas decisivas, mas por exemplo no caso de Aljubarrota se a hoste anglo-portuguesa tivesse sido derrotada, provavelmente estaríamos a falar castelhano. Por isso, há sempre relutância em dar batalha quando o inimigo apresenta o desafio, porque este se sente em vantagem. A batalha é assim, por isso mesmo, algo bastante episódico.

Apesar do antecedente clássico do cavalo de Tróia, é nesta época que se vivem verdadeiras “operações especiais”.
Esse tipo de “operações de comandos”, chamemos-lhe assim, era muito frequente. Foi o caso da conquista de Santarém, ou o caso do Geraldo Sem Pavor, que era especialista neste tipo de guerra, fazendo operações durante a noite ou com condições atmosféricas adversas.

E quanto dimensão dos exércitos medievais? Ao nossos olhos parecem muito pequenos...
E são, para todos os efeitos. Por exemplo, em Aljubarrota, são dez mil homens. Às vezes, com os meus alunos, digo-lhes para olharem para o estádio da Luz, por exemplo, e dividirem em quatro ou em cinco para terem a noção. Porque por vezes é difícil imaginarmos o que são dez ou quinze mil homens.

A Reconquista foi uma “aventura nacional”? A génese do país em que nos tornámos?
Não lhe chamaria nacional, porque o conceito de nação não surge nessa altura. Dizer que foi uma aventura que envolveu todo o reino, também seria excessivo, porque envolve diferentes sectores do reino em diferentes momentos. Agora, não me parece que haja uma noção, em todo o espaço do reino português de que há um projecto de Reconquista. Mas, por exemplo, para D. Afonso III, foi um objectivo para reunificar a nobreza desavinda a seguir à guerra civil.

O que levava o homem medieval a combater?
Variava, mas uma coisa é certa: a guerra é uma actividade económica rentável. Há uma economia de guerra que gera grandes fortunas. Não só através da pilhagem e dos resgates, mas também com tudo o que isso envolve, o abastecimento dos exércitos, a manufactura de armamentos, o comércio de cavalos. Mas é óbvio que o dinheiro e a economia não são os únicos motores da guerra na Idade Média. A manutenção da independência é um grande motor, por exemplo.

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