quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Voz escrita


«Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento, gentes remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido.»

in "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O culto dos 'chefs'


Há um texto genial de Arturo Pérez-Reverte sobre o pós-modernismo gastronómico que se tornou uma referência para mim e se chama, muito apropriadamente, "Desconstruyendo pinchos de tortilla". É uma (re)leitura salutar nestes tempos em que nos querem enfiar goela abaixo, literalmente, as mixórdias mais escabrosas, sob o manto invisível da chamada "cozinha de autor".

Um dos que diz, sem papas (gourmet) na língua, que "o chef vai nu" é o meu caro Amigo Bruno Oliveira Santos, que não vai em cantigas, muito menos em cozinhados da moda. Por isso, enquanto a malta anda deslumbrada com as estrelas pneumáticas da gastronomia, escreve: "Não aprecio comida de autor, com os seus experimentalismos, texturas, fusões e condimentos despachados pela FedEx para o tacho. Gosto de comida portuguesa, do nosso peixe, da vitela, do leitão, do cabrito, dos molhos dos assados e de outros temperos que agoniam os senhores da Organização Mundial de Saúde e põem os cabelos em pé aos comissários europeus. Infelizmente, damos passos seguros em direcção à gastronomia molecular. Mais anos menos ano, os nossos cozinheiros, além de estrelas Michelin, hão-de acumular Nobéis da Física. Português rude e antigo, de trato difícil, pergunto sempre de mim para mim ao contemplar estes chefs modernos de avental, à volta de emulsões, copinhos e pipetas: se gostam tanto de cozinhar, por que não aprendem?"

Dir-me-ão os do costume que não passa de uma posição "retrógrada" ou "reaccionária"... Pouco importa. A avalanche de concursos televisivos de cozinha, verdadeiras correrias em pistas de obstáculos que nada têm que ver com a arte culinária, mostram bem ao ponto a que se chegou.

Destes espectáculos de ilusionismo acelerado à elevação dos chefs ao estatuto de "celebridades" foi um instante. O culto do Chefe é algo impensável nestes tempos politicamente correctos, mas o culto dos chefs já é bom e recomenda-se. Tornou-se mesmo o prato do dia!

Que é feito dos cozinheiros?...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Thorgal e a saga dos vikings


A revista francesa "Historia" publicou um excelente número especial sobre Thorgal, com destaque para as influências dos vikings e da mitologia nórdica nesta óptima saga da Sétima Arte. A não perder!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O selo de Ernst Jünger


Há tantos anos que o meu saudoso Amigo Roberto de Moraes me falou no selo de Jünger, que tanto o irritou e sobre o qual escreveu na revista "Futuro Presente", em 1999. Agora, a minha mulher fez-me uma óptima surpresa e ofereceu-mo. Muito obrigado!

Aqui fica o texto para memória futura:

O selo de Jünger

A figura de Ernst Jünger é incontornável. Por várias vezes, só para falar no fim da longa vda do escritor, reuniu à sua volta o então Presidente francês, o socialista Mitterand, e o chanceler alemão ao tempo, o cristão-democrata Helmut Kohl, numa simbiose de significado histórico e cultural.
A consagração, no seu centenário, e, sobretudo, no seu funeral, congregou forças vivas que há muito não se viam à luz do dia, juntas. Foi uma grande figura, actor e testemunha, interventor e pensador, de um século de história, não só da Alemanha, como da Europa. A guerra o forjou. Nela se fez homem. Essa a matriz, essa a grande iniciação que lhe permitiu alcançar outras esferas da maneira como o fez. Está bem claro em "A Guerra como Experiência Interior" e, também, nas "Tempestades de Aço". Há que lê-lo. É pena que neste belo selo agora lançado na República Federal da Alemanha não se tenha atendido a esta marca. Assim, face a uma história de dominante militar, olhada como comprometedora e incómoda, preferiu-se prudentemente a imagem etérea do aluno de liceu de 1913, com o seu colarinho médio burguês, à sóbria gola cinzenta encimando a cruz "Pour le Mérite", do soldado e guerreiro de 1918.
Contrária ao cunho aristocrático da sua vida e da sua obra, traindo a matriz, a imagem de fundo torna-se anódina; pelo mesmo preço também podiam ter mostrado o bebé de cueiros de três meses, ou então o rapazinho de sete anos, de fato à maruja, como era costume no seu meio, naquela época. Apesar disto, fica-nos esta imagem indelével, em primeiro plano, granítica e esfíngica, sardónica e voluntariosa, a desafiar o tempo, a fitar o século XXI. E estou em crer que não são apenas os Titãs que ele está a ver.

Roberto de Moraes
in "Futuro Presente" n.º 49 (Primavera de 1999)

domingo, 13 de novembro de 2016

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 87


O último número de «La Nouvelle Revue d'Histoire», revista de referência que habitualmente recomendo e se vende nos quiosques portugueses, tem como tema central a "indomável Hungria" e num óptimo dossier podemos ler artigos sobre a História húngara, das origens aos nossos dias, passando pela revolução de 1848 e a revolta de 1956 contra o comunismo, bem como as entrevistas com o historiador Geza Palffy, sobre a Santa Coroa da Hungria, ou com o historiador Pal Fodor, sobre a Hungria face aos turcos. Nota especial para o artigo de Jean-François Gautier, "A música é a alma de um povo" e um destaque natural para a entrevista sobre o Outubro de 1956 com o anterior director da revista, Dominique Venner, publicada originalmente em 2010 na revista húngara "Magyar Jelen", e a entrevista com o actual primeiro-ministro, Viktor Orbán. No editorial sobre o espírito de resistência e resiliência húngaro, Philippe Conrad conclui que "o segredo desta resistência reside talvez simplesmente no facto de os húngaros serem os herdeiros de uma longa e rica História da qual conservaram a memória, fonte indispensável para a manutenção da sua identidade, a melhor das defesas contra o niveamente mortífero engendrado pelo mundanismo liberal".

Para além do dossier, destaque para a entrevista com Jean-François Gautier, que faz o "diagnóstico para uma Europa em crise", o artigo sobre a depuração na Haute-Vienne no Verão de 1944, de Xavier Laroudie, e o retrato de Sulla feito por Emma Demester, ao qual se segue um questionário para testarmos os nossos conhecimentos, bem como as secções habituais.

sábado, 12 de novembro de 2016

Trump: insurgência identitária?



Enquanto assistimos à busca de "explicações" para a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA pelos media e os analistas ditos "de referência", o artigo de Filipe Faria "Trump, o Futuro da América e a Política de Identidade" refere um ponto essencial que tem sido (propositadamente?) desprezado ou ignorado. Será a "insurgência Trumpeana" o protesto do grupo dos euro-americanos no conflito identitário que se vive nos EUA? Tudo indica que sim. Ora veja-se o seguinte excerto:

"Grande parte dos analistas tenta explicar esta “insurgência” Trumpeana como sendo um protesto dos euro-americanos contra a globalização económica devido à perda de empregos e de riqueza geral. No entanto, uma análise mais cuidada revela que os apoiantes de Trump estão muito longe de serem pobres. Os outros grupos (latinos e afro-americanos) que tendem a apoiar o partido democrata com a sua visão globalizante são bastante mais empobrecidos. Este historicismo materialista dos analistas não consegue explicar o fenómeno Trump em toda a sua dimensão.
Tal como vários estudos académicos revelam, o que está na origem desta insurgência é a ascensão da identidade europeia em solo americano. A evidência empírica dos psicólogos sociais Eric Knowles e Linda Tropp mostra que o contacto massivo com “o outro” no próprio país fez com que muitos euro-americanos se tenham consciencializado da sua identidade europeia. Por outras palavras, a abertura de fronteiras e as alterações radicais demográficas e culturais nos EUA provocaram uma ameaça existencial. Tal como aprendemos com a psicologia política evolutiva, é nestes momentos que os grupos tendem a escolher líderes fortes e combativos que defendam a sobrevivência do colectivo."

A este propósito, leia-se, também, a entrevista de Kathy Cramer, The Politics of Resentment (A Política do Ressentimento, não traduzido para português) ao "Público" sobre Donald Trump e sobre o futuro da política de identidade branca.


Nas inúmeras entrevistas que fez no Wisconsin rural, chegou à conclusão que nos "três elementos do ressentimento – não tenho poder, bens nem respeito – a raça e a economia interligam-se".

No entanto, sobre o "racismo" dos apoiastes de Trump, afirma: "O argumento de que o movimento de Donald Trump equivale a racismo não me parece ser verdade, e isto porque o racismo não põe comida na mesa. Não se pode ganhar a vida com o racismo. Não nego que os estudos mostrem que há muito ressentimento racial entre o eleitorado de Donald Trump mas muitas vezes o argumento termina aí. “Eles são racistas.” Parece-me ser uma forma muito redutora de olhar para a questão. É claramente racista pensar que os negros não trabalham tanto como os brancos. E então? Declaramos que uma grande parte da população é racista e, como tal, os seus problemas não são merecedores da nossa atenção?"

Dizendo que resiste muito à "caracterização dos apoiantes de Donald Trump como sendo ignorantes", Kathy Cramer afirma que "cada vez mais há provas de que a política para as pessoas não é – e eu sei que isto vai soar de forma horrível – sobre os factos e as políticas. É sobre identidades, sobre a formação de ideias, sobre o tipo de pessoas que nós somos e o tipo de pessoas que os outros são. Quem sou eu e quem está contra mim?"

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Just ride...


No monólogo final desta música, Lana Del Rey diz uma frase marcante - "I believe in the country America used to be." - que recorda o slogan de campanha de Trump: "Make America Great Again". Alguém quer juntar esta coincidência às "explicações" da vitória que deixou tanta gente de cabelos no ar?

Carlos Martins na SIC Notícias, a propósito do seu livro "Trump Desafiar o Status Quo"


O Carlos Martins foi entrevistado ontem no programa Edição da Noite, da SIC Notícias, sobre a eleição de Donald Trump e a propósito do livro "Trump, Desafiar o Status Quo", da sua autoria, onde analisa a campanha, as medidas, a oposição do establishment e a conquista do eleitorado por parte do novo presidente da Casa Branca. A ver.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um título revelador


A "diretora" (escrito assim mesmo, sem o "c" de carácter) da «Visão», revoltada com a vitória de Donald Trump, reagiu desta forma, que indignou muito boa gente. Por mim, ao contrário das intenções da "angelical" jornaleira, considero que o título está correctíssimo. Ora vejamos: "Trump Presidente?" revela espanto perante a constatação de um facto inesperado; "Merda, merda, merda!" é a admissão do péssimo trabalho de cobertura, análise e prognóstico das eleições presidenciais nos EUA feito pela revista que dirige.

Mais propagandas


Uma autarquia com um presidente que não foi eleito decidiu dar uma lição de democracia em inglês, sem saber escrever nem verificar a ortografia, esquecendo (ou ignorando) que o "muro" que critica existe há décadas e tem sido aumentado pelas sucessivas administrações norte-americanas. Tudo pago com dinheiros públicos, claro! Deve ser para desviar a atenção das falhas de wi-fi...

Nota: O título deste post é uma referência a outras propagandas da mesma câmara municipal, em 2010.

Explicadores


Os que falharam todas as sondagens e erraram todas previsões são os que agora nos "explicam" a vitória de Trump...

Esclarecedores


Felizmente, os "campeões da tolerância" deram lições de democracia (da verdadeira, claro) em várias cidades do EUA, apesar de a polícia ter tentado impedir estas sessões de esclarecimento público.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Desafiar o 'Status Quo'


Há dois meses tive um almoço com o meu amigo Carlos Martins em que me disse estar convicto na vitória de Trump. Disse-lhe que tinha as minhas reservas mas gabei-lhe a confiança. A afirmação dele não era um mero palpite de apostador, tratava-se de uma posição fundamentada e documentada. Foi quando me disse que estava a preparar um livro sobre o assunto. Há dias vi o livro, que aconselho, à venda na Fnac e hoje devo-lhe um reconhecimento público. Ao contrário dos repetidores do costume, preocupados em ser politicamente correctos, acertou em cheio na sua análise. Parabéns, Carlos!

A vitória anunciada que não o foi...


Jornaleiros a soldo e comentaristas de serviço, analistas de dados viciados e opinantes de vistas curtas, para além dos habituais propagandistas do politicamente correcto, acreditaram na ilusão da sua certeza e anunciaram uma vitória segura da candidata dos obamitas. Era uma certeza "matemática", segundo um dos muitos disparates "científicos" que li, mas a história foi outra...

Como escrevi em tempos, em política não há vitórias anunciadas. Pelo contrário, é normalmente quem as anuncia – tão seguro de si próprio – que acaba em maus lençóis.