quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Epistolário rilkeano

As “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, são uma obra intemporal cujo nascimento não foi previsto pelo autor. Felizmente, as missivas enviadas ao jovem Franz Xaver Kappus foram publicadas por este já depois da morte do poeta de “As elegias de Duino” e tornaram-se uma referência. É pois de saudar uma nova edição da tradução feita por Vasco Graça Moura, que também prefaciou e anotou, pela Modo de Ler, bem ilustrada com fotografias e retratos de Rilke.

Em 1902, Franz Xaver Kappus estava na Academia Militar em Wiener Neustadt a ler os poemas de Rainer Maria Rilke, quando soube pelo capelão da Academia que Rilke havia sido aluno da Escola Militar até os pais o terem mudado para outro estabelecimento de ensino devido à sua falta de resistência física. Kappus, que duvidada da sua vocação militar e aspirava a ser poeta, decidiu que Rilke era a pessoa indicada para pedir conselhos literários e não só.

Percebemos pela primeira carta, escrita por Rilke em Paris, no dia 17 de Fevereiro de 1903, que Kappus lhe enviou os seus versos, pedindo-lhe opinião. Na resposta de Rilke antevê-se uma série de conselhos e reflexões sobre a vida que ultrapassam a mera crítica literária, exercício prontamente recusado. Diz o poeta: “Pergunta-me se os seus versos são bons. É a mim que pergunta. Já antes perguntou a outros. Envia-os às revistas. Compara-os com outros poemas e fica inquieto se algumas redacções recusam as suas tentativas. Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever? Escave em si mesmo em busca de uma resposta profunda. E se esta soar afirmativamente, se o senhor tiver de enfrentar esta questão séria com um forte e simples ‘Sim, tenho’, então construa a sua vida em função dessa necessidade; a sua vida terá de ser um sinal e um testemunho desse impulso até nas horas mais indiferentes e insignificantes. Então aproxime-se da Natureza. Então tente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê e vive e ama e perde.”

A partir desta primeira resposta, inicia-se um diálogo espaçado no tempo e variado no espaço, já que Rilke escreve de diferentes cidades, dadas as suas viagens. Mas é um diálogo do qual temos que imaginar, pelo sentido, uma das partes. Como afirma Vasco Graça Moura no prefácio, “As ‘cartas a um jovem poeta’ não são, pois, uma obra escrita e estruturada pelo seu autor com vista à edição em livro. São uma colectânea de peças irregularmente intervaladas no tempo, organizadas por Franz Xaver Kappus muito depois de as ter recebido. E Kappus viveu até 1966, sem nunca ter esclarecido que outras cartas lhe teriam sido enviadas pelo autor das ‘Elegias de Duino’. Face aos critérios que, hoje em dia, costumam orientar a publicação póstuma das correspondências de escritores, teria sido bem interessante conhecermos não só as restantes cartas de Rilke, mas também as que Kappus lhe enviou...”

É sem dúvida uma questão pertinente e que nos aviva a curiosidade. No entanto, para além do interesse natural de uma edição completa (hoje impossível) para os estudos literários, temos que reconhecer que as “Cartas a um jovem poeta” se tornaram uma obra de Rilke, póstuma e imprevista, à qual não podemos ficar indiferentes.

Por fim, há uma nota especial a fazer à excelente tradução de Graça Moura, que traduz ‘Sehnsucht’, o desejo ou anseio que significa também uma falta imensa, por ‘Saudade’, esse sentimento tão português que em Rilke faz todo o sentido.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As músicas das Presidenciais

Alguns instantâneos da noite eleitoral das Presidenciais e as músicas que os devem acompanhar. Porque a política nacional deve ser encarada a rir, para não chorar...


Para ver ao som de "Karma Chameleon", dos Culture Club.



Para ver ao som de "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso.



Para ver ao som de "Esta balada que te dou", de Armando Gama.



Para ver ao som do clássico infantil "Eu vi um sapo...", cantado pela Maria Armanda.



Para ver ao som de "E depois do adeus...", de Paulo de Carvalho.



Para ver ao som de "Satisfaction", dos Rolling Stones.


Para ver ao som de "Papel Principal", de Adelaide Ferreira.



Para ver ao som de "A Anita não é Bonita", de José Cid.



Para ver ao som do clássico 'pimba' do Quinzinho de Portugal, "Apitadelas".



Para ver ao som do "Bailinho da Madeira"
(que levou, comparado ao resultado de José Manuel Coelho em 2011).



Para ver ao som do clássico 'pimba' da Ágata, "Abandonada".

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

De Gaulle e os americanos

No ano em que se completarão 50 anos da saída da França da OTAN (que em Portugal continua a ser mais conhecida pela sigla anglo-saxónica NATO), a primeira edição deste ano da revista de referência “La Nouvelle Revue d’Histoire”, dirigida por Philippe Conrad, dedica um excelente ‘dossier’ à relação entre o Presidente De Gaulle e os norte-americanos.

É um momento histórico de grande importância ainda que pouco recordado, mas decisão de De Gaulle em afirmar a França como potência independente foi uma demonstração de força que hoje julgaríamos impensável. A construção de uma força nuclear francesa autónoma, a crítica da intervenção norte-americana no Vietname, a tentativa de abertura a Leste, a retirada da OTAN ou a questão do padrão-ouro confirmaram as divergências entre Paris e Washington. Diferendo que só se acalmaria com a chegada de Richard Nixon à Casa Branca, em 1969. Meio século depois, como nos diz o texto de apresentação do ‘dossier’ desta edição, a França é membro da OTAN há muitos anos e a ameaça que a motivou deixou de existir. No entanto, a “preparação mais ou menos clandestina do futuro tratado transatlântico que quer completar a integração no ‘bloco ocidental’ deve incitar a uma reflexão salutar a propósito da decisão tomada em 1966”. Assim, o excelente ‘dossier’ tem artigos sobre o duelo entre De Gaulle e Roosevelt entre 1940 e 1945, Giraud e os americanos, a França como potência nuclear e a saída da OTAN, as relações entre De Gaulle e a URSS e a Roménia, bem como a posição contra o “dólar-rei”.

De destacar também nesta edição é a entrevista com o africanista Bernard Lugan, essencial para compreender o actual caos na Líbia, por ocasião da publicação do seu novo livro “História e Geopolítica da Líbia das origens aos nossos dias”.

Ainda neste número, nota para os artigos sobre o desastre grego, o martírio e renascimento do exército sérvio, os militares e a música e entrevista com historiador especialista no mundo germânico Thierry Buron sobre a nova Alemanha.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Mau vento

Mesmo aqui ao lado, a extrema-esquerda ganha força e demonstra-o sem qualquer pudor ou respeito pelas instituições. Para o Podemos, o partido espanhol congénere do Bloco de Esquerda, o parlamento não passa de um circo onde os deputados podem fazer o que querem e lhes apetece. Da deputada Carolina Bescansa, que decidiu levar o seu bebé de meses e amamentá-lo enquanto assistia ao plenário, às rastas usadas pelo deputado Alberto Rodriguez, que se orgulha de usar “há quatro anos”, vale tudo! Até alterar a fórmula do juramento da Constituição, que os deputados do Podemos mudaram para “Prometo acatar esta Constituição e trabalhar para mudá-la. Nunca mais um país sem a sua gente e sem os seus povos”. Nesse juramento, onde se ouviam os protestos das bancadas, Pablo Iglesias, o líder que veio a Lisboa apoiar a candidata Marisa Matias, não hesitou em erguer o punho direito fechado. É caso para dizer que, desta Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Messias


À esquerda muitos acreditam que é da névoa das presidenciais que vem o messias. Aquele que anuncia um “tempo novo”, tal e qual como antes se anunciava o “homem novo”. Propostas concretas não interessam, porque Sampaio da Nóvoa sente-se sempre como estando acima de tudo e todos. Desconhecido dos portugueses, foi apresentado como grande pedagogo, mas não se livrou de ser alvo de suspeitas sobre o seu percurso académico. Ainda assim, nada parece afectá-lo. Se o regime não fosse republicano, seria D. Sampaio II, o messiânico.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os inimigos dos livros atacam


A Livraria Il Bargello, em Florença, foi atacada pelos intolerantes do costume que, discordando de ideias, não hesitaram em destruir livros e agredir quem lá estava. Uma intolerância intolerável.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Rede de interesses


A segunda temporada da série televisiva da HBO “True Detective”, transmitida em Portugal pelo canal TV Séries, mudou a acção do Louisiana para a Califórnia, as personagens, o tema de fundo, mas manteve o tom ‘noir’. É quase outra série, e ainda bem.

Nestes tempos em que as séries televisivas se repetem em temporadas excessivas até se esgotarem por completo, Nic Pizzolatto optou por fazer outro “True Detective”. Escreveu todos os episódios, garantindo uma solidez que se nota, e abandonou a tentação mística da primeira temporada, que impressionou pela positiva até a decepção da conclusão.

Desta vez, a história cruza polícias vendidos com aqueles que sonham cumprir a lei, para além de bandidos com coração e políticos sem escrúpulos, numa intrincada rede de interesses onde as negociatas e o lucro máximo justificam tudo.

Mas, ou não estivéssemos a ver “True Detective”, todas as personagens, na sua veracidade, estão longe de serem castas e têm passados que as atormentam. Nestas, o destaque vai para o vilão principal, o implacável e irónico Frank Semyon, papel que assenta a Vince Vaughn que nem uma luva, e a sua relação com o detective Ray Velcoro (Colin Farrell). Já Rachel McAdams, no papel da máscula sargento Ani Bezzerides, cumpre sem deslumbrar.

Nos diálogos, bem escritos, impõe-se uma nota para as recorrentes referências politicamente incorrectas, dos comentários de índole racial e sexual às críticas aos cigarros electrónicos, que são uma lufada de ar fresco no mundo actual em que tantos preferem evitar “temas sensíveis”.
Outro pormenor interessante é o do regresso dos chamados ‘contractors’, soldados profissionais cada vez mais presentes nos teatros de guerra actuais, e a sua ocupação, das forças policiais às empresas de segurança privada.

Podíamos esperar melhor desta temporada de “True Detective”, mas como desabafa Ray Velcoro num dos poucos momentos “filosóficos” na série, “tenho a forte suspeita de que temos o mundo que merecemos”...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O caminho para Belém

Depois de uma verdadeira maratona de debates, que se caracterizaram pela vacuidade, a campanha para as eleições presidenciais arrancou e os candidatos fizeram-se à estrada, aquela que é suposto conduzi-los ao “país real”.

Os eleitores já perceberam que o excesso de candidatos não significa uma maior escolha. Muitos destes pretendentes a Belém serão pura e simplesmente ignorados nesta eleição onde a tentação é dividir o País entre “esquerda” e “direita”. Apesar de podermos facilmente desmontar esta partição em termos ideológicos, a verdade é que ela é real na percepção popular e no discurso utilizado.

Assim, devemos ter em conta a actual mudança política e a forma como esta pode influenciar a eleição do próximo Presidente. Por um lado, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem a esquerda chama o “candidato da direita”, afasta-se dessa classificação e do apoio do PSD e do CDS-PP, afirmando-se como independente. É o preço a pagar pela “conquista do centro”, mas será que é esta a via para ganhar à primeira volta? Por outro lado, António Costa aconselha os socialistas a votarem em dois candidatos, apostando num novo entendimento à esquerda na segunda volta. As presidenciais podem ser uma reedição das legislativas?

Como escreveu Vasco Pulido Valente, “a manobra de Costa mudou unilateralmente o sistema partidário e com isso a natureza do regime” e, segundo o comentador, “um pequeno solavanco basta para estabelecer o caos”.

Talvez ajude os eleitores recordar que não vão votar para escolher o “Presidente de todos os portugueses”, mas o Presidente da República Portuguesa. Até porque a procissão ainda vai no adro e o vencedor mais provável da primeira volta será a abstenção.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sábado, 9 de janeiro de 2016

Frase do dia

«Isto é a espécie de fantochada com que as democracias normalmente morrem.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os alhos e os bugalhos


No final da sua mensagem de ano novo, Cavaco Silva, em tom de despedida, decidiu recordar a tragédia dos portugueses que regressaram à Metrópole com fim do Império. Mas fê-lo mal e com as piores intenções.

Afirmou o Presidente da República que “há quarenta anos, Portugal acolheu muitos milhares de portugueses vindos das antigas colónias de África. Regressaram ao nosso país em condições difíceis, por vezes trágicas, e aqui prosperaram com o valor do seu trabalho e do seu esforço.”

Esta lembrança enviesada serviu para justificar o injustificável, pelo disse logo de seguida: “Temos, assim, o dever de acolher aqueles que nos procuram para se integrarem na nossa sociedade, partilhando connosco os valores e princípios de que nunca abdicaremos: a democracia e a liberdade, a tolerância e a dignidade da pessoa humana, o respeito pela nossa cultura e pelas nossas tradições.”

Confundir os que foram forçados a deixar as Províncias Ultramarinas e a regressar à Pátria com a vaga imigratória que atinge actualmente a Europa, pior do que ignorância, é má fé. Os portugueses que então “retornaram” eram – nunca é demais recordá-lo – portugueses. Mesmo assim, aqui enfrentaram um sentimento hostil alimentado pelas esquerdas.

Não há qualquer comparação possível com o que se passa nos nossos dias, muito menos um “dever” de acolhimento. Portugal deu “novos mundos ao mundo”, mas com uma política de portas escancaradas, ainda que em nome de bonitos ideais, transformar-se-á num “novo mundo” – uma terra pronta a ser colonizada por outros.

Cavaco, que tanto se gaba de conhecer o “País real”, devia saber que não se deve misturar alhos com bugalhos, especialmente no refere à História e ao futuro dos portugueses. Portugal merece muito melhor.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Justiça contra as pessoas


O género do ‘true crime’ é muito apreciado nos EUA e o êxito da série documental da Netflix “Making a murderer” é disso prova. Mas este relato de uma injustiça perpetrada pelo sistema é mais do que um documentário, é uma tomada de posição em defesa de quem é condenado pelos crimes que não cometeu ou, pelo menos, pelos que não é possível provar. O caso que esta série conta, apesar de verdadeiro, é simplesmente inacreditável. A realidade ultrapassa mesmo a ficção.

O título da série, “fazendo um assassino”, denuncia a tomada de posição de Laura Ricciardi e Moira Demos, que depois de saberem do caso pela Imprensa decidiram fazer este trabalho monumental de pesquisa e dar-lhe uma forma que capta a atenção do espectador comum, num registo empolgante que nos faz ver todos os episódios de seguida.

Em 1985, Steven Avery foi condenado por violação, mas depois de passar dezoito anos na prisão por esse crime que não cometeu foi libertado graças às provas científicas dadas por testes de ADN. Steven e os Avery eram mal vistos pela comunidade da pequena localidade de Monitowoc, no Estado norte-americano do Wisconsin, e esse conflito é notório na perseguição que lhe foi feita judicialmente. Mas será que essa inimizade justifica que o próprio Estado infrinja a lei? No entanto, depois de libertado e prestes a ser indemnizado, vê-se novamente acusado de um crime, desta vez de homicídio, que garante que não cometeu.

Na série, muito bem construída, são apresentados vídeos dos interrogatórios, das audiências em tribunal, bem como gravações dos telefonemas e entrevistas actuais. Perante tamanha quantidade de informação, apenas podemos concluir que o sistema judicial falhou – ou, pior, agiu contra um cidadão concreto –, condenando alguém sem provas suficientes.

Para além de Steven, também o seu sobrinho foi condenado a uma pena de prisão brutal sem provas claras. Ambos continuam presos e por isso esta é uma história real que ainda não terminou.

Por muito que não se concorde com a teoria defendida pelas autoras da série, há uma pergunta que não nos sai da cabeça: e se fossemos nós?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Abandono


O desconhecido Cândido Ferreira, um dos dez nomes que constarão do boletim de voto nas próximas eleições presidenciais, marcou a sua participação no debate com Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sequeira e Valentino Silva, que adopta o nome artístico de “Tino de Rans”, pelo abandono do programa em directo transmitido pela TVI24. A razão, conforme expôs pela leitura de um texto, é a “profunda discriminação” no que considera um “combate é muito desigual”. Discordando do modelo adoptado pelos canais televisivos, este candidato não quis poupar os telespectadores, queria antes mais tempo de antena. A solução parece ser bastante simples. O melhor mesmo é criar o “Canal Presidenciais sem parar” e pô-lo no final da grelha de programação e a emitir 24 horas por dia. Uma espécie de canal “televendas” político, que só é visto por quem quer comprar “banha da cobra” ou por quem tem insónias.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Notícias que interessam

Escreve Helena Matos no «Observador» que "as não notícias são tão importantes quanto as notícias. Às vezes ainda mais que as notícias. Porque as não notícias mostram como os jornalistas resistem a desfazer as suas ilusões". Tem toda a razão, mas para quem duvide deixa-nos um excelente artigo onde refere algumas das "não notícias" que têm passado ao lado da Imprensa toldada pelo politicamente correcto. Das centenas de automóveis incendiados em França na passagem de ano, o que reflecte um estado de tensão que não é noticiado, à cega simpatia por Obama que não deixa ver Guantánamo ou a a questão racial nos EUA, passando pelo esquecimento da Grécia, porque "os jornalistas ocidentais deixaram de ver em Tsipras o Che sem espingarda". Um artigo que vale mesmo a pena ler, porque há "Coisas que nunca mudam: as não notícias".

Frase do dia

«A galeria de horrores que ontem nos mostrou a televisão ultrapassa as piores cenas do Constitucionalismo e da República.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

sábado, 2 de janeiro de 2016

Despedida


Na sua última mensagem de ano novo enquanto Presidente da República, Cavaco Silva conseguiu despedir-se de forma a não deixar saudades. Aquele que se caracterizou pela distância, quando não ausência, dos assuntos em que podia – e devia – intervir, deixou dois desafios. O primeiro é o da manutenção do modelo político, económico e social dos últimos quarenta anos. Ou seja, aquele que levou o País ao escabroso estado actual. O segundo é o de que seja renovado “o contrato de confiança entre todos os portugueses”. Palavras vazias de quem sempre se refugiou atrás de generalidades, apesar de insistir que só ele conhece o “País real”, porque o visitou. Adeus!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A ressaca

As épocas festivas caracterizam-se pelos excessos e a da passagem de ano é aquela onde mais se fazem sentir. Depois do exagero consumista no Natal, tempo que deve ser da família e do recolhimento mas que se tornou para muitos uma romaria aos centros comerciais, a chegada do novo ano é celebrada com total desmesura.

Como exemplo extremo das consequências de tal comportamento, veja-se o elevado número de mortos e feridos nas estradas neste período. Pessoas para quem o fim da festa é o fim da vida. Mas tal estado de embriaguez mental não é necessariamente provocado pelo álcool e a euforia atinge também os senhores que actualmente se sentam nas cadeiras do poder.

Aqueles que lá chegaram com um saco cheio de promessas, bem embrulhadas em papel de lustro para cegar com o brilho os menos atentos. Os mesmos que quando dão a palavra ficam sem ela e que exigirão mais sacrifícios aos portugueses com justificações recicladas. Porque o “interesse nacional”, que é agora o chavão partidário que tudo desculpa, assim o exige. É esta a cantiga que nos repetem há anos os que se vão alternando nos governos e que continuamos a ouvir passivamente, entorpecidos pela “conjuntura”, pela “estabilidade”, ou por outras abstracções que nos fazem pesar os braços. Depois de qualquer embriaguez vem a ressaca. O momento depressivo do arrependimento, da memória truncada ou convenientemente selectiva, acompanhado pelo mal-estar físico.

O novo ano político também vai ser de ressaca, o que implica uma recuperação muito mais difícil. Ainda por cima partilhada com os que não participaram na festa irresponsável. Preparemo-nos. Ainda assim, perante um negro cenário, cumpre-me desejar, em nome da Redacção, um próspero ano novo aos leitores e colaboradores de «O Diabo» e às suas famílias. O futuro pode ser diferente se assim o quisermos. Haja esperança e vontade.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».