sábado, 12 de novembro de 2016

Trump: insurgência identitária?



Enquanto assistimos à busca de "explicações" para a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA pelos media e os analistas ditos "de referência", o artigo de Filipe Faria "Trump, o Futuro da América e a Política de Identidade" refere um ponto essencial que tem sido (propositadamente?) desprezado ou ignorado. Será a "insurgência Trumpeana" o protesto do grupo dos euro-americanos no conflito identitário que se vive nos EUA? Tudo indica que sim. Ora veja-se o seguinte excerto:

"Grande parte dos analistas tenta explicar esta “insurgência” Trumpeana como sendo um protesto dos euro-americanos contra a globalização económica devido à perda de empregos e de riqueza geral. No entanto, uma análise mais cuidada revela que os apoiantes de Trump estão muito longe de serem pobres. Os outros grupos (latinos e afro-americanos) que tendem a apoiar o partido democrata com a sua visão globalizante são bastante mais empobrecidos. Este historicismo materialista dos analistas não consegue explicar o fenómeno Trump em toda a sua dimensão.
Tal como vários estudos académicos revelam, o que está na origem desta insurgência é a ascensão da identidade europeia em solo americano. A evidência empírica dos psicólogos sociais Eric Knowles e Linda Tropp mostra que o contacto massivo com “o outro” no próprio país fez com que muitos euro-americanos se tenham consciencializado da sua identidade europeia. Por outras palavras, a abertura de fronteiras e as alterações radicais demográficas e culturais nos EUA provocaram uma ameaça existencial. Tal como aprendemos com a psicologia política evolutiva, é nestes momentos que os grupos tendem a escolher líderes fortes e combativos que defendam a sobrevivência do colectivo."

A este propósito, leia-se, também, a entrevista de Kathy Cramer, The Politics of Resentment (A Política do Ressentimento, não traduzido para português) ao "Público" sobre Donald Trump e sobre o futuro da política de identidade branca.


Nas inúmeras entrevistas que fez no Wisconsin rural, chegou à conclusão que nos "três elementos do ressentimento – não tenho poder, bens nem respeito – a raça e a economia interligam-se".

No entanto, sobre o "racismo" dos apoiastes de Trump, afirma: "O argumento de que o movimento de Donald Trump equivale a racismo não me parece ser verdade, e isto porque o racismo não põe comida na mesa. Não se pode ganhar a vida com o racismo. Não nego que os estudos mostrem que há muito ressentimento racial entre o eleitorado de Donald Trump mas muitas vezes o argumento termina aí. “Eles são racistas.” Parece-me ser uma forma muito redutora de olhar para a questão. É claramente racista pensar que os negros não trabalham tanto como os brancos. E então? Declaramos que uma grande parte da população é racista e, como tal, os seus problemas não são merecedores da nossa atenção?"

Dizendo que resiste muito à "caracterização dos apoiantes de Donald Trump como sendo ignorantes", Kathy Cramer afirma que "cada vez mais há provas de que a política para as pessoas não é – e eu sei que isto vai soar de forma horrível – sobre os factos e as políticas. É sobre identidades, sobre a formação de ideias, sobre o tipo de pessoas que nós somos e o tipo de pessoas que os outros são. Quem sou eu e quem está contra mim?"

Sem comentários:

Enviar um comentário