terça-feira, 29 de novembro de 2016

O culto dos 'chefs'


Há um texto genial de Arturo Pérez-Reverte sobre o pós-modernismo gastronómico que se tornou uma referência para mim e se chama, muito apropriadamente, "Desconstruyendo pinchos de tortilla". É uma (re)leitura salutar nestes tempos em que nos querem enfiar goela abaixo, literalmente, as mixórdias mais escabrosas, sob o manto invisível da chamada "cozinha de autor".

Um dos que diz, sem papas (gourmet) na língua, que "o chef vai nu" é o meu caro Amigo Bruno Oliveira Santos, que não vai em cantigas, muito menos em cozinhados da moda. Por isso, enquanto a malta anda deslumbrada com as estrelas pneumáticas da gastronomia, escreve: "Não aprecio comida de autor, com os seus experimentalismos, texturas, fusões e condimentos despachados pela FedEx para o tacho. Gosto de comida portuguesa, do nosso peixe, da vitela, do leitão, do cabrito, dos molhos dos assados e de outros temperos que agoniam os senhores da Organização Mundial de Saúde e põem os cabelos em pé aos comissários europeus. Infelizmente, damos passos seguros em direcção à gastronomia molecular. Mais anos menos ano, os nossos cozinheiros, além de estrelas Michelin, hão-de acumular Nobéis da Física. Português rude e antigo, de trato difícil, pergunto sempre de mim para mim ao contemplar estes chefs modernos de avental, à volta de emulsões, copinhos e pipetas: se gostam tanto de cozinhar, por que não aprendem?"

Dir-me-ão os do costume que não passa de uma posição "retrógrada" ou "reaccionária"... Pouco importa. A avalanche de concursos televisivos de cozinha, verdadeiras correrias em pistas de obstáculos que nada têm que ver com a arte culinária, mostram bem ao ponto a que se chegou.

Destes espectáculos de ilusionismo acelerado à elevação dos chefs ao estatuto de "celebridades" foi um instante. O culto do Chefe é algo impensável nestes tempos politicamente correctos, mas o culto dos chefs já é bom e recomenda-se. Tornou-se mesmo o prato do dia!

Que é feito dos cozinheiros?...

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