quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Rede de interesses


A segunda temporada da série televisiva da HBO “True Detective”, transmitida em Portugal pelo canal TV Séries, mudou a acção do Louisiana para a Califórnia, as personagens, o tema de fundo, mas manteve o tom ‘noir’. É quase outra série, e ainda bem.

Nestes tempos em que as séries televisivas se repetem em temporadas excessivas até se esgotarem por completo, Nic Pizzolatto optou por fazer outro “True Detective”. Escreveu todos os episódios, garantindo uma solidez que se nota, e abandonou a tentação mística da primeira temporada, que impressionou pela positiva até a decepção da conclusão.

Desta vez, a história cruza polícias vendidos com aqueles que sonham cumprir a lei, para além de bandidos com coração e políticos sem escrúpulos, numa intrincada rede de interesses onde as negociatas e o lucro máximo justificam tudo.

Mas, ou não estivéssemos a ver “True Detective”, todas as personagens, na sua veracidade, estão longe de serem castas e têm passados que as atormentam. Nestas, o destaque vai para o vilão principal, o implacável e irónico Frank Semyon, papel que assenta a Vince Vaughn que nem uma luva, e a sua relação com o detective Ray Velcoro (Colin Farrell). Já Rachel McAdams, no papel da máscula sargento Ani Bezzerides, cumpre sem deslumbrar.

Nos diálogos, bem escritos, impõe-se uma nota para as recorrentes referências politicamente incorrectas, dos comentários de índole racial e sexual às críticas aos cigarros electrónicos, que são uma lufada de ar fresco no mundo actual em que tantos preferem evitar “temas sensíveis”.
Outro pormenor interessante é o do regresso dos chamados ‘contractors’, soldados profissionais cada vez mais presentes nos teatros de guerra actuais, e a sua ocupação, das forças policiais às empresas de segurança privada.

Podíamos esperar melhor desta temporada de “True Detective”, mas como desabafa Ray Velcoro num dos poucos momentos “filosóficos” na série, “tenho a forte suspeita de que temos o mundo que merecemos”...

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