sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os alhos e os bugalhos


No final da sua mensagem de ano novo, Cavaco Silva, em tom de despedida, decidiu recordar a tragédia dos portugueses que regressaram à Metrópole com fim do Império. Mas fê-lo mal e com as piores intenções.

Afirmou o Presidente da República que “há quarenta anos, Portugal acolheu muitos milhares de portugueses vindos das antigas colónias de África. Regressaram ao nosso país em condições difíceis, por vezes trágicas, e aqui prosperaram com o valor do seu trabalho e do seu esforço.”

Esta lembrança enviesada serviu para justificar o injustificável, pelo disse logo de seguida: “Temos, assim, o dever de acolher aqueles que nos procuram para se integrarem na nossa sociedade, partilhando connosco os valores e princípios de que nunca abdicaremos: a democracia e a liberdade, a tolerância e a dignidade da pessoa humana, o respeito pela nossa cultura e pelas nossas tradições.”

Confundir os que foram forçados a deixar as Províncias Ultramarinas e a regressar à Pátria com a vaga imigratória que atinge actualmente a Europa, pior do que ignorância, é má fé. Os portugueses que então “retornaram” eram – nunca é demais recordá-lo – portugueses. Mesmo assim, aqui enfrentaram um sentimento hostil alimentado pelas esquerdas.

Não há qualquer comparação possível com o que se passa nos nossos dias, muito menos um “dever” de acolhimento. Portugal deu “novos mundos ao mundo”, mas com uma política de portas escancaradas, ainda que em nome de bonitos ideais, transformar-se-á num “novo mundo” – uma terra pronta a ser colonizada por outros.

Cavaco, que tanto se gaba de conhecer o “País real”, devia saber que não se deve misturar alhos com bugalhos, especialmente no refere à História e ao futuro dos portugueses. Portugal merece muito melhor.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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