quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Justiça contra as pessoas


O género do ‘true crime’ é muito apreciado nos EUA e o êxito da série documental da Netflix “Making a murderer” é disso prova. Mas este relato de uma injustiça perpetrada pelo sistema é mais do que um documentário, é uma tomada de posição em defesa de quem é condenado pelos crimes que não cometeu ou, pelo menos, pelos que não é possível provar. O caso que esta série conta, apesar de verdadeiro, é simplesmente inacreditável. A realidade ultrapassa mesmo a ficção.

O título da série, “fazendo um assassino”, denuncia a tomada de posição de Laura Ricciardi e Moira Demos, que depois de saberem do caso pela Imprensa decidiram fazer este trabalho monumental de pesquisa e dar-lhe uma forma que capta a atenção do espectador comum, num registo empolgante que nos faz ver todos os episódios de seguida.

Em 1985, Steven Avery foi condenado por violação, mas depois de passar dezoito anos na prisão por esse crime que não cometeu foi libertado graças às provas científicas dadas por testes de ADN. Steven e os Avery eram mal vistos pela comunidade da pequena localidade de Monitowoc, no Estado norte-americano do Wisconsin, e esse conflito é notório na perseguição que lhe foi feita judicialmente. Mas será que essa inimizade justifica que o próprio Estado infrinja a lei? No entanto, depois de libertado e prestes a ser indemnizado, vê-se novamente acusado de um crime, desta vez de homicídio, que garante que não cometeu.

Na série, muito bem construída, são apresentados vídeos dos interrogatórios, das audiências em tribunal, bem como gravações dos telefonemas e entrevistas actuais. Perante tamanha quantidade de informação, apenas podemos concluir que o sistema judicial falhou – ou, pior, agiu contra um cidadão concreto –, condenando alguém sem provas suficientes.

Para além de Steven, também o seu sobrinho foi condenado a uma pena de prisão brutal sem provas claras. Ambos continuam presos e por isso esta é uma história real que ainda não terminou.

Por muito que não se concorde com a teoria defendida pelas autoras da série, há uma pergunta que não nos sai da cabeça: e se fossemos nós?

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