segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Livro para hoje


Com um sorriso que guardo para meu...


Tenho diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua inclinação na carteira velha, com os olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos. Para além do nada que isto representa, o armazém, até à Rua dos Douradores, enfileira as prateleiras regulares, os empregados regulares, a ordem humana e o sossego do vulgar. Na vidraça há o ruído do diverso, e o ruído diverso é vulgar, como o sossego que está ao pé das prateleiras.

Baixo olhos novos sobre as duas páginas brancas, em que os meus números cuidadosos puseram resultados da sociedade. E, com um sorriso que guardo para meu, lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços à régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.

No próprio registo de um tecido que não sei o que seja se me abrem as portas do Indo e de Samarcanda, e a poesia da Pérsia, que não é de um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.

in "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares.

domingo, 15 de novembro de 2015

Em casa do mestre da luz

O magnífico “Paseo a orillas de mar”,
a obra mais conhecida do museu.

Descobrir a Casa-Museu Sorolla entre os prédios do Paseo General Martínez Campos, em Madrid, é entrar num pedaço de paraíso que resiste à pressa e agitação do mundo contemporâneo. Temos a honra de ser convidados em casa de um dos pintores que melhor soube registar a luz. Sorolla é um talentoso mestre que se tornou intemporal e a sua obra deve ser visitada e revisitada.

Joaquín Sorolla (1863-1923), pintor pós-impressionista, foi o mais importante do chamado luminismo valenciano e as suas obras mais conhecidas captam a luz de uma forma envolvente, que se mistura com o movimento do vento, e revelam expressões que nos prendem. No aparente realismo dos seus quadros há um mistério que nos intriga e que nos leva a olhar mais fundo, numa descoberta pessoal.

É assim um privilégio ver as suas obras naquela que foi a sua casa de família e onde pintava, construída entre 1910 e 1911 segundo o projecto do arquitecto Enrique María Repullés, a quem Sorolla deu indicações preciosas para as entradas de luz. Em 1925, a viúva do pintor, Clotilde García del Castillo, deixou em testamento os seus bens ao Estado espanhol para a criação de um museu em homenagem ao seu marido. A Casa-Museu Sorolla foi assim fundada em 1933 e teve como primeiro director o filho do pintor, Joaquín Sorolla García.

Aqui podemos encontrar uma extensa colecção de obras, que cobrem todas as fases da vida de Sorolla, bem como os seus objectos pessoais e de trabalho. No ‘atelier’ podemos ver a sua secretária e o local onde pintava. As paredes estão repletas de quadros, mas há ainda estantes com variados objectos. No interior da cama coberta por grossas cortinas que aí se encontra, descobrimos uma prateleira com livros e, entre os clássicos, vemos um volume do nosso Eça de Queirós. As divisões térreas têm uma fotografia antiga que mostra o seu estado original e, no irresistível exercício comparativo, confirmamos com agrado que as semelhanças ultrapassam as diferenças.

Sorolla era um homem de família, o que se sente nos vários quadros onde retrata a sua mulher e os seus filhos. A sua obra tem ainda um lado etnográfico, ao registar os trajes e os costumes da sua Valência natal. Foi também retratista e paisagista. Um pintor completo e excepcional que nos abriu portas...

sábado, 14 de novembro de 2015

Nada de novo


Os intolerantes da tolerância, "humanitaristas" de salão, pregadores das portas abertas, chantres do politicamente correcto e auto-intitulados senhores da verdade universal vão explicar e justificar. Os que alertaram são "alarmistas", porque o "verdadeiro perigo" está naqueles que insistem em defender a sua pátria, o seu povo e a sua civilização. As novas "marchas pela paz" vão solucionar tudo. Como dizia o Ministério da Verdade na distopia orwelliana "1984", "guerra é paz". Neste caso, é submissão.

Geopolítica da Índia e da China


A revista francesa de Geopolítica “Conflits”, dirigida por Pascal Gauchon, tem vindo a afirmar-se como publicação de referência para quem quer compreender melhor os desafios do mundo em que vivemos. A edição n.º 7, referente ao último trimestre deste ano, tem como tema central a Índia e a China e a forma como se podem desenvolver as relações entre estas duas potências asiáticas. Um número a não perder, que está à venda no nosso país.

Será que os gigantes indiano e chinês serão as peças de um entendimento anti-hegemónico, ou as rivalidades e divisões entre as duas potências as manterão de costas voltadas? É uma questão de difícil resposta, ainda que muito importante para o futuro. O excelente ‘dossier’ deste número da “Conflits” dá-nos preciosas informações para uma análise fundamentada. De entre os vários artigos, destacam-se a introdução feita pelo director da revista, bem como a comparação de forças entre os dois países e a sua rivalidade geopolítica e económica ilustrada em mapas. A seguir são analisadas por vários autores as relações económicas e militares entre a Índia e a China, sem esquecer o Paquistão, o Oceano Índico, a presença de ambos os países em África, e as relações com o Japão, os EUA e a Rússia. Ainda ligado ao tema central, é de referir a entrevista ao sinólogo francês François Godement sobre o expansionismo chinês.

Nos restantes artigos, são de referir o retrato de Henry Kissinger, a análise dos paraísos fiscais e da forma como as grandes potencias necessitam deles, bem como a história da estratégia do império azteca. Nota ainda para a entrevista com o General François Lecointre que fala sobre o papel do exército francês face ao terrorismo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

X Jornadas da Dissidência


De regresso às Jornadas da Dissidência, organizadas pelas Ediciones Fides, subornidadas ao tema "Quixotes do século XXI", para representar Portugal.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tirar a G3 do baú...


Leio no «Público» de hoje o “desabafo” de um dirigente socialista que, quando confrontado com a possibilidade de Cavaco Silva não dar posse a António Costa como primeiro-ministro, afirmou: “O que é que a gente fazia, recuperávamos a G3?

Para além do erro de concordância da segunda forma verbal, note-se como não é apenas na extrema-esquerda que o discurso do PREC continua vivo. Como já escrevi, há ainda no Largo do Rato quem acredite nos “amanhãs que cantam” e, como se vê, cantam ao som das rajadas da velha G3...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O maior poeta pagão neste mundo


Na introdução à sua tradução de "Os Cantos", publicada em Portugal pela Assírio & Alvim, José Lino Grünewald afirma que «Ezra Pound é - com todas as honras - o maior poeta pagão neste mundo "cristão e ocidental". Ele é também o maior poeta "participante" dentro deste mesmo mundo "cristão e ocidental" - o maior poeta anticapitalista».

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dia d'O Diabo

Em linha...


Para votar a moção de rejeição ao Governo, os deputados não conseguiram usar a aplicação electrónica, como se expulsassem um participante de um reality show, antes tiveram que perfilar-se, fila por fila, como se estivessem numa linha de identificação policial.

Em brasa...


No fim-de-semana passado, houve pancadaria num supermercado por causa das promoções nos brinquedos. Hoje, as manifestações em frente à Assembleia da República são pacíficas. As prioridades mudaram... A violência política tem agora lugar nas redes ditas sociais. Já não se incendeiam sedes partidárias, mas o Facebook está em brasa...

Indigestão


Leio que os acordos do PS com a extrema-esquerda serão assinados, em privado, à hora de almoço. Faz sentido. Depois de tanto encherem o peito, convém encher a barriga. O pior vai ser a digestão...