sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A memória nunca no mundo viu tão grã vitória

A Batalha do Salado ilustrada por Roque Gameiro.

Eis as lanças e espadas retiniam
Por cima dos arneses: bravo estrago!
Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
Uns Mafamede, e os outros Santiago.
Os feridos com grita o Céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros meios mortos se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.

Com esforço tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
De alcançar tal vitória tão barata
Inda não bem contente o forte braço,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando está co'o Mauritano.

Já se ia o Sol ardente recolhendo
Para a casa de Tethys, e inclinado
Para o Ponente, o Véspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande e horrendo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortandade, que a memória
Nunca no mundo viu tão grã vitória.

Camões
"Os Lusíadas" (III, 113-115).

Erro certeiro


Não resisto a partilhar esta imagem, porque vale mais que mil palavras (erradas). Diz o Eduardo Cintra Torres que este é o "melhor erro de português de sempre". E explica: "A TVI fez uma peça sobre os erros de português com um erro básico no título. A coincidência mostra a habitual arrogância da televisão: é o médio que mais erra, mas só menciona as falhas dos outros, as suas, que são muitas, nunca as reconhece."

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quanto pior, melhor

O “interesse nacional” é um palavrão com que muitos candidatos enchem a boca durante o período de campanha eleitoral, mas no jogo político-partidário as prioridades são bem diferentes. Os interesses, sejam pessoais, do partido, ou outros, valem mais que Portugal.

Assim, não é de estranhar que haja uma máxima que interessa a muitos: quanto pior, melhor. Ou seja, a instabilidade pode dar créditos e alterar a correlação de forças, permitindo alterações de fundo.

Perante o imbróglio actual, eis-nos chegados a um ponto em que o desejo de que tudo piore é transversal a vários grupos, por diferentes motivos. Do lado da coligação, há quem veja numa situação desastrosa um regresso a 1987, quando Cavaco Silva conseguiu uma maioria absoluta depois de o seu governo minoritário ter sido derrubado no Parlamento. No PS, por seu lado, há uma ala que espera que tudo piore para que António Costa seja de novo derrotado, desta vez como primeiro-ministro, para vencer nas eternas lutas intestinas. Já o actual secretário-geral do PS deseja que o estado caótico em que nos encontramos lhe dê a vitória que não conseguiu nas urnas.

Quanto aos putativos aliados dos socialistas à extrema-esquerda, esta é a situação ideal para prosperarem. Mesmo apoiando um desastroso governo minoritário do PS, podem sempre atirar-lhe as culpas e fazer o estafado discurso da auto-proclamada “superioridade moral”.

Parece que, depois de tantos anos de “centrismo virtuoso”, a Assembleia da República se dividiu e que, afinal, há esquerda e direita. Assim sendo, quem é o centro? Só se for o estreante PAN, mas apenas por localização geográfica da cadeira...

Não nos iludamos. Assistimos apenas à crispação das habituais quadrilhas políticas que se digladiam como sempre. Desta crise não surgirá a tão necessária alternativa nacional. Por agora, quanto pior, pior.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A história de Pablo Escobar


O serviço de ‘streaming’ Netflix chegou a Portugal, mas os espectadores estranharão certamente a reduzida oferta de conteúdos, nomeadamente a ausência de séries de sucesso como “House of Cards” e “True Detective”, ou ainda de vários filmes, o que se deve à venda dos direitos de transmissão. Das séries disponíveis, a que mais tem dado que falar é “Narcos”, que nos conta a história de Pablo Escobar, talvez o traficante de droga mais conhecido do mundo.

Criada por Chris Brancato, Carlo Bernard e Doug Miro, “Narcos” conta com José Padilha, que revelou um talento extraordinário no filme “Tropa de Elite” (2007) e na sua sequela, na realização dos dois primeiros episódios, algo que se nota positivamente. Mas não é apenas este o único brasileiro que salta à vista, já que o papel principal cabe a Wagner Moura, que interpretou o Capitão Nascimento nos dois filmes de Padilha referidos.

A série é uma viagem aos anos 80 do século passado e conta a história de como Pablo Escobar construiu um verdadeiro império com os lucros do tráfico de cocaína para os EUA, com o qual conseguiu uma fortuna incalculável. O colombiano tinha como mote “plata o plomo” (dinheiro ou chumbo), isto é, corrupção ou intimidação. A sua influência estendia-se a políticos, juízes, militares, polícias, jornalistas, entre tantos outros, e a sua popularidade foi tal que, depois de contribuir com muito dinheiro para obras sociais de apoio aos mais desfavorecidos, chegou a ser conhecido como o “Robin dos Bosques dos pobres”.

A tentação da política levá-lo-ia a declarar guerra ao Estado colombiano e o terrorismo tornou-se prática comum. Mas a vida de um traficante está sempre marcada pelas infidelidades, sejam conjugais ou dos membros do grupo. Para piorar a situação, o ambiente político que se vivia na Colômbia naquele tempo era altamente instável.

Os EUA exerciam forte influência para tentar controlar os movimentos comunistas no país, mas o agravar do problema da droga e o poder de Escobar fizeram com que dessem mais atenção ao tráfico. Assim, é a vida do agente da DEA, o órgão de polícia federal norte-americana de combate às drogas, Steve Murphy (Boyd Holbrook) que serve para introduzir todo o enredo. É ele o narrador que explica demasiado o que se passa, chegando ao ponto de recordar aos espectadores que naquele tempo não havia as tecnologias disponíveis hoje em dia ou, pior, dizendo para se prestar atenção a determinado aspecto.

Por fim, a recriação feita é aceitável, mas a utilização de imagens de época – um pormenor que se torna interessante – parece mais querer justificar o realismo que a série não consegue. Ainda assim, os dez episódios da primeira temporada vêem-se com agrado, mas sem deslumbre. Aguardemos pela segunda temporada, mas sem grandes expectativas.

sábado, 24 de outubro de 2015

Paisagens simbólicas


Em entrevista à "Descubrir el Arte", Carter Foster recusa classificar Edward Hopper como pintor realista e afirma: "ele aproveita a liberdade de usar a sua própria imaginação e acredito que há um equilíbrio complexo entre a realidade reconhecível e esse algo mais, algo que chega a uma certa paisagem interior, a uma paisagem simbólica."

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Estamos numa “espécie de purgatório pós-moderno”...

Há pouco mais de um ano entrevistei Jaime Nogueira Pinto para o semanário «O Diabo». Tendo em conta o momento político que atravessamos, recordo uma das perguntas que lhe fiz:

Hoje estamos num “limbo virtual”, uma “espécie de purgatório pós-moderno”, como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

Os derrotados

Os resultados dos votos dos emigrantes deram mais três deputados à coligação “Portugal à Frente”, o que torna ainda maior o número de mandatos alcançados pelo PSD e pelo CDS. Ainda assim, os respectivos líderes estão inseguros e dão uma inexplicável aparência de derrotados, permitindo a António Costa assumir o papel de futuro primeiro-ministro.

O secretário-geral do PS, o grande derrotado, que pedia a maioria absoluta convicto na vitória, mesmo contra todas as sondagens, pavoneia-se agora como “salvador da Pátria” – quando na realidade é um mero salvador da própria pele –, passando a ideia de que a “esquerda” (a eterna ilusão da união...) venceu as eleições e ele é o comandante na batalha contra a “direita”.

Assim, Costa tenta o entendimento historicamente ‘contra-natura’ com os partidos da extrema-esquerda, menosprezando a guerra civil que estala dentro do PS. Já bloquistas e comunistas aproveitam o momento para dar um ar de respeitabilidade, apesar de, como sabemos, continuarem a pôr os interesses dos próprios partidos à frente dos do País. Estes são partidos a quem servem bem as derrotas, isto é, nunca chegarem ao governo e, consequentemente, ficarem sempre no lugar mais confortável da oposição contestatária, que promete mundos e fundos.

A propósito da acção do secretário-geral do PS, escreveu Vasco Pulido Valente que “o papel que Costa pretende equivale a tomar o comando de um grupo de guerrilhas, na esperança de o transformar num exército prussiano”.

É uma comparação bélica adequada, mas, se olharmos para os bastidores, vemos que Costa abriu guerra em todas as frentes – à direita, à esquerda e em casa – e caminha para a derrota final. Estamos num impasse que muito provavelmente atirará o País para novas eleições daqui a seis meses, mas os partidos parecem não se incomodar.

Perante este cenário caótico, que irá agravar a crise, os verdadeiros derrotados são os portugueses – todos nós.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Abandonado


“71”, estreia do francês Yann Demange como realizador no Cinema, é uma descida ao início dos “Troubles” na Irlanda do Norte. O jovem militar britânico Gary Hook (Jack O'Conell) é mobilizado para Belfast e descobre que o conflito que é “em casa” está afinal muito distante. Depois de deixado para trás numa missão de apoio a uma rusga feita pela Royal Ulster Constabulary, inicia uma corrida pela vida onde descobre que o confronto entre católicos e protestantes tem muitos lados e que as fidelidades são flutuantes.

O filme arrasa com qualquer concepção romântica da guerra e da instituição militar, mas é o lado adolescente que mais se evidencia nesta dura lição de vida. A tenra idade de tantos combatentes, a sua proximidade pela vizinhança e a ingenuidade que se perde abruptamente, são um espelho da própria vida de Hook. Ele é um homem sozinho contra todos e, no fim de contas, o que interessa verdadeiramente é o seu irmão mais novo Darren. Uma criança que é toda a sua família e pela qual vale a pena lutar. O único motivo pelo qual tem que sobreviver.

domingo, 18 de outubro de 2015

Raul Lino em Cascais


Foi na Casa de Santa Maria, em Cascais, que uma plateia atenta assistiu ontem ao lançamento das Actas do IV Ciclo de Conferências Raul Lino em Sintra, com apresentação de António Braz Teixeira e Rodrigo Sobral Cunha. O concluir de uma iniciativa louvável, que é apenas um início...

Em 2014, ano em que se assinalaram os 40 anos do falecimento do arquitecto e os 100 anos da inauguração da sua Casa do Cipreste, iniciou-se o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, que decorreu em quatro ciclos de conferências, segundo as Estações do ano, organizado por Rodrigo Sobral Cunha, docente do IADE. As comunicações apresentadas no último ciclo, realizado em no Palácio de Seteais em Fevereiro deste ano, cujas actas foram agora publicadas e constituem o maior volume dos quatro, ficam agora acessíveis a todos os que queiram conhecer e estudar o trabalho, o talento e a importância de Raul Lino.

Como notou Rodrigo Sobral Cunha na sua apresentação, os quatro volumes publicados atingem uma dimensão e qualidade impressionantes. O docente do IADE recordou o interesse que o Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra gerou, nomeadamente a participação de várias instituições e a adesão de um público inteligente.


De seguida, António Braz Teixeira, depois de apresentar o volume agora publicado, notou alguns aspectos da obra de Raul Lino que ainda estão pouco tratados, como é o caso da sua actividade como programador de Cinema. Razão pela qual considerou que todo este trabalho não pode terminar. De facto, o entusiasmo de todos os participantes transmitiu, felizmente, a certeza de uma continuidade.

Por fim, quando estamos a celebrar um arquitecto, o espaço ganha outra importância; por isso, a escolha da belíssima Casa de Santa Maria foi óptima para esta evocação. Projectada por Raul Lino e construída em 1902 para Jorge O’Neil, tendo depois sido vendida ao engenheiro José Lino Júnior, irmão mais velho do arquitecto, que a enriqueceu com um conjunto de azulejos artísticos do século XVII e um tecto de madeira pintado a óleo, a Casa de Santa Maria é hoje um equipamento da Câmara Municipal de Cascais que se destaca pela importância dada aos eventos culturais.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os caminhos da reflexão


"Qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Porquê? Porque o homem é o ser (Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não precisamos, portanto, de modo algum, de nos elevarmos às ‘regiões superiores’ quando reflectimos. Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; neste pedaço de terra natal, agora, na presente hora universal."

Martin Heidegger
in "Serenidade".

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Os ontens que cantam...


A maioria relativa alcançada pela coligação Portugal à Frente nas eleições legislativas, antecipada pelas sondagens, não foi uma surpresa. Aliás, à esquerda afiavam-se já as facas para tornar a vida difícil ao novo governo.

Mas foi por via do partido que tanto insistiu em apresentar o seu “candidato a primeiro-ministro”, coisa que não existe no nosso país, que muitos portugueses ficaram a saber que, constitucionalmente, o governo pode não ser formado pela força partidária com mais assentos parlamentares.

António Costa, que tanto desdenhou da “vitoriazinha” de António José Seguro nas eleições europeias, anunciou prontamente que o resultado obtido não o faria abandonar o cargo de secretário-geral do partido e disse também que não alinharia em “maiorias negativas”.

Mas, ao considerar o resultado da coligação como uma vitória com sabor a derrota, passou a sentir que a sua derrota tinha o sabor da vitória. Mais, ao piscar o olho à extrema-esquerda para a viabilização de um governo socialista, em coligação ou com o apoio parlamentar, veio mostrar a velha tentação de liderar uma união à esquerda, extremando o posicionamento político do partido.

Esta seria uma saída da sua “zona de conforto”, leia-se do “arco da governação”, mas há muitos socialistas que a vêem com bons olhos. Outros nem tanto... Por isso, há quem fale no risco de desintegração do PS. Será que, à semelhança do que aconteceu com o BES, teremos no futuro um “PS bom”, o do centro e da “confiança”, e um “PS mau”, bem à esquerda e com todos os seus “(in)activos tóxicos”?

Ironias à parte, por muito que nos assegurem a respeitabilidade do PS como partido de governo, há uma ala radical que parece ter hoje mais força, intimidada pelo crescimento dos partidos da extrema-esquerda.

O tempo dos “revolucionários” de Abril foi ontem, mas pelo que vemos há ainda no Largo do Rato quem acredite nos “amanhãs que cantam”...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Tintin no país da especulação


A propósito dos montantes milionários que têm atingido os originais de Hergé, é de ler o artigo publicado no último número da revista «The Good Life», intitulado justamente «Tintin no país... da especulação». Aqui se diz que o mais caro vendido até agora foi por 2.654.400 euros!

A conclusão levanta a questão do que pensaria Hergé de tudo isto e arrisca que responderia, como o seu herói no último álbum inacabado: "Nada!... Já não compreendo nada."

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sem rumo

Polícia sul-africana tenta controlar um motim nos arredores da Cidade do Cabo.

Escrevo estas linhas no Hemisfério Sul, de onde em breve partirei de regresso a Portugal. A longa viagem fará com que chegue após o acto eleitoral, mas a minha participação pouco importa. Aliás, o voto antecipado não é possível para quem se ausente do País em férias, ainda que um jornalista esteja sempre em trabalho...

Infelizmente, não depende do novo governo a mudança necessária para Portugal. Súbditos de interesses estrangeiros, continuaremos “em gestão”, como se fossemos uma pequena empresa da ‘holding’ dos eurocratas de Bruxelas, que nos subsidiam e por nós decidem. Por quanto tempo?

Observei a situação da África do Sul e chego à conclusão que este é outro país sem rumo. Para além de observar uma terra de contrastes, onde o principal é entre um mundo desenvolvido à imagem do Ocidente e a violência e pobreza a que nos habituámos num país africano, é curioso ver como há cada vez mais pessoas que duvidam da “radiante nação arco-íris”. Não é apenas entre os brancos, sejam bóeres ou outros, e os “mulatos do Cabo”, as duas comunidades preteridas pelos novos detentores do poder, mas também entre os negros que surgem vozes críticas do actual governo.

Duas décadas depois da era do Apartheid, muitos consideram que há o sério risco de a África do Sul, minada pela corrupção e pela tensão racial, se assemelhar em breve ao vizinho Zimbabwe. O assunto não é tabu, é curioso ver como nos expositores dos títulos mais vendidos nas livrarias se encontram livros sobre o tema. Dois exemplos. Em “What's Gone Wrong? South Africa on the Brink of Failed Statehood” (“O que correu mal? A África do Sul à beira da falência do Estado”), Alex Boraine, que foi defensor de Nelson Mandela e pertenceu à Comissão de Verdade e Reconciliação, aponta o dedo ao ANC, partido cuja prioridade considera ser todos os sectores da sociedade. Em “Zuma Exposed” (“Zuma revelado”), o jornalista Adriaan Basson analisa factualmente como a preocupação do actual Presidente sul-africano é servir e proteger os seus e não os milhões que o elegeram.

Um país sem rumo é um país sem futuro.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

‘Memoriae imperii’

Para a Maria José, minha Mulher.

Partir à descoberta está na alma portuguesa, mas o melhor de uma viagem é o reencontro com a nossa Pátria. Vim pela primeira vez à África do Sul e atravessei de carro este extenso país, observando e registando os contrastes do mosaico das suas gentes e das suas paisagens. Uma experiência marcante que não é mero turismo, antes uma lição de vida.

Os meus guias foram o Manuel e o Nuno Ferreira, irmãos que me deram a honra de me acolher na sua família, que é agora a nossa. Estes portugueses de cepa, que cresceram, viveram e estão radicados neste país, são sentinelas de um Portugal maior, um Império que viram morrer, mas que está vivo no posto avançado dos seus corações.

Portugal sente-se nos portugueses e nas marcas da nossa História e há dias tive um desses momentos especiais que ficam gravados para sempre na nossa memória.

Ao ver ao longe as águas agitadas do Atlântico Sul, senti-me como os nossos navegadores de outrora quando avistavam terra. Foi uma descoberta no sentido inverso, um encontro com o passado. Chegara à Baía de Santa Helena, local onde a armada de Vasco da Gama aportou no dia 7 de Novembro de 1497, e este foi o meu desembarque na “espaçosa parte”, como lhe chamou Camões na epopeia “Os Lusíadas”, de uma “terra que outro povo não pisou”. De facto, foram os portugueses os primeiros europeus a aqui chegar, feito do qual devemos orgulhar-nos. Foi o sentimento com que descobri vários monumentos que registam a passagem lusitana nestas paragens, incluindo um pequeno e acolhedor museu dedicado a Vasco da Gama em Shelly’s Point.

Mas memórias não devem ser exercícios contemplativos, são faróis que nos previnem para os perigos do futuro. Depois da Baía de Santa Helena, um punhado de homens, nossos antepassados, conseguiu vencer o Adamastor e tornar as Tormentas. A Boa Esperança deu-lhes então a coragem para chegar ao seu destino e mostrar ao mundo que não há impossíveis quando há vontade pátria. Hoje, perante a tempestade que se avizinha, sejamos capazes de descobrir o nosso caminho – o do futuro de Portugal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

“A nossa identidade está ameaçada”

João Franco é licenciado em Relações Internacionais e pós-graduado em Estratégia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. É o novo director da revista “Finis Mundi” e recentemente publicou “Fundamentos Identitários para a pós-modernidade”. Entrevistei-o para a edição de O Diabo de 1 de Setembro de 2015.

Que mudanças terá a revista “Finis Mundi” com a sua direcção?
Mantendo os seus colaboradores valorosos, a “Finis Mundi” irá aproximar-se mais da Ciência Política, da Geopolítica e da Estratégia, deixando um pouco de lado os textos mais esotéricos e herméticos. Pretendemos abordar também as grandes questões do nosso tempo, sejam elas a protecção do ambiente, as energias alternativas, as migrações, a inteligência artificial, ou mesmo o sistema capitalista actual.

Qual a importância dada à cultura?
A cultura vai continuar a ter um papel na revista. Tencionamos publicar alguns textos de ficção de autores clássicos e continuar a abordar a literatura, a música ou o cinema.

No seu livro “Fundamentos Identitários para a pós-modernidade” faz uma análise da situação actual pouco animadora. Quais são os piores problemas da sociedade em que vivemos?
O sistema capitalista neo-liberal, a veneração do dinheiro acima de tudo, a destruição da Natureza e o esgotamento dos recursos, o individualismo e o egoísmo crescentes na era das relações virtuais e o cosmopolitismo entendido como nivelamento de todos os povos e culturas à imagem de uma América que já não sabe quem é.

Como se chegou até essa situação?
Com a venda de uma ideia de vida hedonista como única via a seguir pelo ser humano e também pela apresentação do capitalismo como único sistema desejável e possível para gerir a vida humana. O fim da URSS foi um marco nesse caminho.

Marca o início da pós-modernidade?
Em minha opinião sim. Nesse momento o sistema capitalista teve mão livre para orientar a sociedade no sentido materialista e de proporcionar o máximo lucro às multinacionais, sem temer um sistema económico e político alternativo para onde as pessoas se voltassem.

É o período da globalização?
A globalização tem raízes muito antigas, mas o fim da URSS com a evolução tecnológica que sucedeu ao mesmo tempo proporcionaram efectivamente a globalização tal como a conhecemos.

Em que medida foi Portugal afectado por esse fenómeno?
Esse fenómeno em Portugal teve um impacto bastante forte a partir dos anos 90, com o início da chegada dos imigrantes, a expansão dos comportamentos desviantes como o abuso das drogas e a submissão dos jovens à subcultura afro-americana com o ‘rap’ o ‘hip-hop’ e a mentalidade de quadrilha. E nos últimos anos com a expansão da exploração laboral, as deslocalizações, a precariedade.

Como vê a actual vaga migratória que traz à Europa centenas de milhares de pessoas?
É em parte o resultado da desastrosa política dos EUA para o mundo árabe, acabando com os regimes laicos, ainda que ditatoriais e substituindo por islamitas ou pelo caos, aproveitado pelo Estado Islâmico e pelos traficantes de seres humanos. Em termos práticos é a invasão e colonização da Europa, criando o caos social numa altura em que tantos europeus não têm trabalho ou sobrevivem na rua.

No livro propõe fundamentos para sair da pós-modernidade. Quais são os principais?
Parar o crescimento das cidades, apostar no regionalismo, no localismo e no comunitarismo face à globalização desenraizante e lutar contra a economia especulativa actual, em favor de um sistema mais justo.

Todos os fundamentos assentam na defesa da identidade. Como a define?
A nossa identidade é aquilo que nos distingue dos outros e é face a eles que ela se define. O facto da identidade estar a ser chamada à ordem do dia significa que ela está ameaçada, nos povos em que essa ameaça não existe, nomeadamente no período pré-moderno essa questão da identidade não se colocava.

Os movimentos identitários são normalmente classificados à direita ou à extrema-direita. Concorda com essa classificação, ou a dicotomia esquerda/direita já não faz sentido?
Essa dicotomia não faz sentido, é divisionista e usada para explorar segmentos de mercado eleitoral. Quem quer propor soluções globais para uma sociedade tem de ter uma visão mais ampla do que isso, tem de elaborar propostas sem olhar a rótulos.
O movimento identitário é o resultado político da Nouvelle Droite francesa. Sabemos que figuras como Pierre Vial e Guillaume Faye quiseram afastar-se da linha metapolítica e cultural defendida por Alain de Benoist. Os movimentos identitários são algo novo e preparado para fazer face aos problemas da pós-modernidade, em vez de estarem agarrados a um passado que convém lembrar, mas que não volta.

Qual tem sido a reacção ao livro? Que eco têm os fundamentos identitários em Portugal?
Tenho recebido reacções positivas por parte dos leitores do livro. Com uma boa campanha de ‘marketing’ ou uma editora de maior dimensão o impacto do livro poderia ser maior, mas temos de ter os pés assentes na terra e a verdade é que o pensamento identitário em Portugal ainda é um grande desconhecido. Espero que este livro sirva para esclarecer e dar argumentos a quem se identificar com a defesa da identidade dos povos.