quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Tex na América do Sul


O famoso ‘cowboy’ dos ‘fumetti’ viaja até à Argentina numa aventura publicada em Portugal pela Polvo. “Patagónia”, em formato “Tex Gigante”, com desenhos de Pasquale Frisenda e história de Mauro Boselli leva-nos ao pampa ao encontro de tribos índias, num cenário que nos recorda o Oeste norte-americano.

Como Zagor, Dylan Dog, Martin Mystère, entre outros heróis da banda desenhada italiana publicada pela Bonelli, Tex chegou ao nosso país por via brasileira. É por isso de saudar esta edição nacional, de elevada qualidade, trazida pela Polvo. A capa a cores esconde nas badanas pormenores enriquecedores. Dos estudos das personagens desta aventura e para possíveis capas, passando pelas biografias dos autores, a um ensaio de um ataque dos índios, diferente do que acabou por figurar na versão final, são um deleite para os aficionados.

“Patagónia” abre com uma introdução, assinada pelo tradutor, José Carlos Francisco, que – agradece-se encarecidamente – não contaminou o texto com o famigerado Acordo Ortográfico. Ainda assim, deixou passar a redundância inaceitável “há cerca de uma década atrás” [sic], na página 25, e outras falhas menores que escaparam à revisão. No que respeita ao conteúdo, o texto introdutório, para além de fazer a apresentação de Tex Willer aos que não o conhecem, “um Ranger do Texas, para além de chefe dos Navajos com o nome Águia da Noite”, que “cavalga as pistas do Oeste Selvagem desde 1948”, conta-nos que a inspiração para esta história veio do próprio Sergio Bonelli, “o mítico editor de Tex”, quando viajou até à Patagónia em 1984. Por fim, revela-nos ainda uma curiosidade portuguesa, o desenhador Pasquale Frisenda é apreciador do grupo musical Madredeus e o álbum “O Espírito da Paz” foi ouvido durante a realização desta obra.

De facto, é um espírito de paz que guia esta aventura. Tex e o seu filho Kit Willer respondem ao apelo de Ricardo Mendoza, que o ‘ranger’ conheceu em tempos no México e agora é oficial do exército argentino, e zarpam para Sul para ajudar numa missão de resgate de prisioneiros feitos depois de um ataques perpetrado por índios e de punição dos culpados.

O objectivo é evitar uma oposição entre os brancos e os índios, e consequentemente o extermínio destes, até porque, segundo Mendoza, foi Tex que o “fez compreender que todos os homens são iguais, apesar das diferenças de cultura, de língua, de cor de pele”. Guiado por um princípio nobre da defesa das diferenças e da preservação da identidade dos povos, a história acaba infelizmente por cair no igualitarismo e até em ‘clichés’ do “anti-racismo” contemporâneo. Aliás, a questão racial é uma constante nesta aventura, mas o preconceito é unívoco, nomeadamente o desprezo de alguns brancos pelos mestiços ou pelos “selvagens”.

Esta conquista das terras aos índios é uma das semelhanças com o Oeste norte-americano, para além das paisagens, dos fortes, dos cavalos, entre outras. Mas há diferenças que saltam à vista, como a captura dos nandus com as boleadeiras dos gaúchos.

A aventura, de tom épico, é muito bem representada por Frisenda, que conjuga o movimento das cenas de acção com o pormenor cuidado. A sequência de combate que decorre numa zona pantanosa coberta por neblina é uma óptima prova do talento deste desenhador.

Para os incondicionais do Tex, esta é uma obra obrigatória, que se espera que marque o início da publicação de mais heróis dos ‘fumetti’ em Portugal.

domingo, 9 de agosto de 2015

Viagens fantásticas


Os contos reunidos neste livro são viagens fantásticas que nos fazem sonhar. Para além do lado fantástico característico do escritor argentino, há reflexões sobre a vida e o amor às quais é impossível ficar indiferente. Em "O Jardim dos Sonhos", Adolfo Bioy Casares escreve uma passagem memorável sobre a relação entre homem e mulher: «Algum pedante declarara que o homem é sempre um menino e que na desolação encontra em toda a mulher a mãe. Porque não admitir a modesta explicação de que unicamente o encanto de uma mulher se podia opor ao meu desgosto?» Para ler e reler.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ressurgimento de Restauração

Quando vi pela primeira vez o magistral “Non, ou a vã glória de mandar” estava ainda no liceu. Foi a minha estreia na obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, da qual os meus colegas troçavam sem ter visto. O aspecto bélico do filme atraiu-me, mas só depois de o ver me convenci de que é obrigatório para qualquer português.

Nesta viagem pela História de Portugal e pela vontade imperial da nossa Pátria, o Alferes Cabrita, um militar formado em História, que vai relatando aos seus camaradas de armas na Guerra do Ultramar vários episódios marcantes do nosso percurso enquanto nação, dá ênfase à Batalha de Alcácer Quibir. Para ele, foi um “mito que se tornou uma verdade. Verdade, algo de secreto e inexplicável. Em vez de ter sentido lógico, esta verdade inacessível possui um sentido último que tudo explica”.

De jovem me ficou uma ideia que guardo até hoje: será que o mito do sebastianismo não é uma derrota, antes a certeza da nossa vontade nacional? O nosso espírito trágico português?
Como o Império, o Alferes Cabrita morreu, depois de ferido em combate, no dia 25 de Abril de 1974. Mas Portugal não morreu nesse dia, nem a 4 de Agosto de 1578.

Como escreveu Goulart Nogueira, “um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações)”. O poeta não tinha dúvidas em afirmar que “o impossível dos incrédulos tornar-se-á realidade”.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Desejado


Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

Fernando Pessoa
in «Mensagem».