sábado, 23 de maio de 2015

Ao encontro de Eudoro de Sousa


Eudoro de Sousa (Lisboa, 1911 – Brasília, 1987) foi um importante filósofo e filólogo português que infelizmente continua desconhecido ou “esquecido” em Portugal. É por isso de saudar a publicação de uma obra acessível, com coordenação de António Braz Teixeira e Renato Epifânio, que nos dá a conhecer a sua obra e o seu pensamento.

Em 2011, assinalando o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira organizou um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento. Agora, a editora Zéfiro publica num volume as comunicações aí apresentadas, tornando-as acessíveis a um público mais vasto.

Tendo realizado os estudos superiores na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especializou-se em Filologia Clássica e História Antiga na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Dedicando-se, depois, à docência e à investigação académica em Portugal, em França e na Alemanha. Destaque-se a sua tradução directa do grego da “Poética” de Aristóteles, com introdução e índices, publicada em Portugal em 1951 e reeditada no Brasil em 1966.

Em 1953 chega ao Brasil, onde integra o chamado “Grupo de São Paulo”, que reúne vários intelectuais em torno da revista “Diálogo” e de Instituto Brasileiro de Filosofia. Torna-se professor em várias universidades brasileiras e é um dos fundadores da Universidade de Brasília.

A apresentação de “A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa” diz-nos que foi “companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil”, e que “acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião”. De facto, para além de filosofo e filólogo, Eudoro de Sousa foi helenista e mitósofo.

No início do século XXI, a Imprensa Nacional Casa da Moeda publicou a totalidade da obra de Eudoro de Sousa, considerando-o “um dos nossos mais profundos e originais filósofos”. O livro agora publicado mostra que o interesse na sua obra continua e pode servir para despertar o interesse neste pensador transatlântico, fiel às suas raízes clássicas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O circo chegou à cidade

Há uns anos valentes, da segunda vez que fui a Roma, propus a uns amigos italianos jantarmos num restaurante onde tinha ido da primeira vez que estivera na cidade, ainda adolescente. Pronto me responderam que estava fora de questão, porque se tratava de uma zona “só de turistas”. Segui obviamente o conselho deles e a ideia de que partes da nossa cidade podem ser literalmente ocupadas por quem nos visita não me saiu da cabeça.

Meia dúzia de anos depois, senti o mesmo na minha Lisboa. É claro que esta sensação de posse é hoje tida como politicamente incorrecta pelos chantres da globalização, para quem qualquer sentimento de pertença é visto como “retrógrado”.

Nesta questão não adianta argumentar, já que basta aconselhar um passeio ao fim-de-semana pelas zonas nobres da capital. Uma experiência sufocante por entre um mar de gente que circula com o olhar nos telemóveis à espera de indicações e sugestões. “Vêem” apenas o que fotografam e “sentem” através de aplicações informáticas. Bandos que se alimentam de menus ditos “típicos” servidos em locais que garantem ser “gourmet”, “vintage” ou qualquer outra designação em voga, mas que nada têm que ver com a cultura portuguesa. Congestionam o tráfego com os “tuk-tuks”, os “segway”, os veículos “eco-friendly”. Entram em igrejas e comportam-se como se estivessem num café de praia e visitam museus como se comprassem num bazar. É claro que nem todos são assim e esta ocupação conta com os colaboracionistas locais.

Lisboa está “na moda”, dizem-nos com satisfação os dispostos a tudo a troco do lucro rápido. Felizmente, as modas são passageiras. Infelizmente, tais sujeitos não querem entender que a “autenticidade” que apregoam não está num selo turístico.

Hoje, temos a sensação de que o circo chegou à cidade. Mas, como sabemos, o circo é naturalmente temporário e por isso a festa é efémera. Depois das tendas desarmadas e da partida dos malabaristas, talvez a visão do vazio provocado pelas árvores derrubadas e pelo chão terraplanado nos force a uma tomada de consciência. Será que num deserto descaracterizado nos podemos reencontrar? Esperemos que sim, para que voltemos a ter a nossa cidade para viver e receber turistas, sem a transformar num parque de diversões igual a tantos outros.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Identidade e democracia na Suíça


O mais recente número de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, revista francesa de referência na divulgação histórica que se vende no nosso país, tem como tema central a Suíça e apresenta uma reformulação gráfica.


“Identidade e democracia” é o título do excelente ‘dossier’ que, em ano de várias comemorações para os helvéticos, traça a História da Suíça de Guilherme Tell a Oskar Freysinger, um dos responsáveis da UDC (União Democrática do Centro), um dos principais partidos suíços, que pretende preservar a identidade e soberania do país, através da expressão da vontade popular em referendo, nomeadamente contra os minaretes nas mesquitas e, mais recentemente, contra a imigração maciça.

Também há a destacar neste número a entrevista com o jornalista Éric Zemmour, que recentemente gerou um intenso debate em França, depois de o seu livro “O suicídio francês – os 40 anos que desfizeram a França” ter sido um sucesso de vendas.

De referir, ainda, os artigos sobre a Guerra das Rosas na Inglaterra da Idade Média, sobre a Batalha de Waterloo e a importância das tropas alemãs, sobre o genocídio arménio e a Alemanha, e a interessante “descoberta” de quando a República francesa tinha um discurso que hoje seria considerado racista.
Para além de outros artigos, podemos ainda encontrar a crónica de Péroncel-Hugoz e as habituais secções de actualidade e crítica a livros.

Fundada há 13 anos por Dominique Venner e hoje dirigida por Philippe Conrad, esta é uma revista que continua a ser obrigatória.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A afirmação pela beleza


Nestes tempos conturbados, assistimos à destruição de importantes obras de arte pelos fundamentalistas islâmicos, por um lado, e à imposição de uma dita “arte contemporânea”, subvencionada, que se pretende única, com os seus padrões incompreensíveis. É o ataque do vazio e do feio.

Ora, como escreveu o filósofo britânico Roger Scruton, “a beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair, inspirar ou arrepiar. Pode afectar-nos de inúmeras maneira. Todavia, nunca a olhamos com indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos directamente, qual voz de um amigo íntimo. Se há pessoas indiferentes à beleza é porque são, certamente, incapazes de percebê-la”.

Tive a honra de representar o nosso país no passado dia 25 de Abril, no colóquio consagrado ao “Universo Estético dos Europeus”, organizado pelo Institut Iliade, que juntou mais de 800 pessoas em Paris e contou com a presença de oradores de vários países europeus. Reflecti sobre o simbolismo da Torre de Belém e de como este navio de pedra ancorado no Extremo-Ocidente da Europa representa, entre outros, a afirmação do poder pela beleza e um instrumento de mobilização colectiva.

Um exemplo de que não é só pela política ou pela ideologia que afirmamos o que é mais importante defender – a nossa identidade.

A beleza é assim um horizonte que deve guiar-nos na nossa afirmação perante os que querem destruir uma cultura, uma civilização e, consequentemente, um povo.

Tenhamos, hoje mais do que nunca, presentes as máximas de Dominique Venner: “a Natureza como base, a excelência como fim, a beleza como horizonte”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ortographia


«A ortographia é um phenomeno da cultura e portanto um phenomeno espiritual. O Estado não tem direito a compellir-me, em materia extranha ao Estado, a escrever numa ortographia que repugno, como não tem direito a impôr-me uma religião que não acceito.»

Fernando Pessoa

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A arte casada com o pensamento

Fernando Pessoa

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego".

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O castelo de cartas desabou


A terceira temporada da série “House of Cards” está a ser transmitida em Portugal no canal por cabo TV Séries. Frank Underwood voltou e é Presidente dos Estados Unidos da América. Infelizmente, a tão aguardada continuação desta série televisiva que rapidamente se tornou um êxito é uma desilusão.

O implacável Frank Underwood (Kevin Spacey) continua a sua senda nas altas esferas do poder mundial e conseguiu chegar a Presidente dos Estados Unidos da América sem um único voto. Mas, talvez por se ter esgotado o jogo da intriga política, que tornava esta série tão apetecível, a terceira temporada perde-se em aventuras totalmente irreais. Para além de uma defesa implícita de um grupo de activistas plasmado das “Pussy Riot”, os russos são retratados de uma forma que não lembra a um filme de segunda em plena Guerra Fria. O jogo político internacional, sempre aliciante, é desperdiçado em episódios sem sentido, seja a descabida relação com o Presidente russo, uma caricatura de Putin, seja com um conflito no Médio Oriente simplesmente inexplicável.

No plano técnico, há uma falha notória na continuidade dos episódios e a série parece um velho vinil onde a agulha salta e se tem que recorrer à memória para completar os espaços vazios. Por outro lado, as tricas pessoais têm mais relevo do que política (a tentação da ‘soap opera’?), numa tentativa falhada de dar mais “humanidade” às personagens – as mesmas que fizeram sucesso exactamente por serem frias e insensíveis. Simplesmente incompreensível.

Quando terminou a segunda temporada de “House of Cards”, escrevi que era uma série de ver e chorar por mais e suspirei “venha a terceira temporada, que esta deixa água na boca”. As minhas expectativas não podiam ter sido menos correspondidas. Agora, apesar do que o final desta temporada indica, espero que a série se fique por aqui. Para não piorar ainda mais...

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pelo renascimento da cultura europeia

No passado dia 25 de Abril, o Colóquio consagrado ao “Universo Estético dos Europeus”, organizado pelo Institut Iliade, juntou mais de 800 pessoas em Paris e contou com a presença de oradores de vários países europeus, incluindo Portugal. A iniciativa foi um êxito que mostra o renascimento da cultura europeia.


O Institut Iliade (Instituto Ilíada) foi criado após a morte voluntária do historiador francês Dominique Venner, em 2013, por vontade expressa do próprio. Philippe Conrad, que sucedeu a Venner na direcção de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, uma publicação de referência no campo da divulgação histórica que se encontra à venda no nosso país, assumiu a presidência deste instituto.

O Institut Iliade definiu como objectivo trabalhar para que os europeus se reapropriem do seu destino e assumiu como modelos e princípios de vida: “a Natureza como base, a excelência como fim, a beleza como horizonte”. Recordando a máxima de René Marchand de que “as grandes civilizações como a nossa não são regiões de um planeta: são planetas diferentes”, o Institut Iliade considera que o grande apagamento é a matriz da grande substituição. Assim, é preciso responder com um “grande enraizamento”, um recurso às nossas raízes. A escolha do nome da instituição – Ilíada –, segundo o Institut Iliade, não é apenas uma referência aos gregos.

É um “poema do destino” próprio ao universo mental dos europeus. Depois de consagrar o seu primeiro colóquio à memória de Dominique Venner, no ano passado, e ter iniciado vários cursos de formação, o Institut Iliade dedicou este ano o seu segundo colóquio ao “universo estético dos europeus”, com o objectivo de afirmar a singularidade e a riqueza do nosso património comum, para aí desenhar a fonte e os recursos de uma afirmação serena, mas determinada,da nossa identidade europeia, hoje ameaçada por outras civilizações.


O Colóquio teve lugar na Maison de la Chimie, no centro de Paris, perante uma audiência de exactamente 847 pessoas, e contou com as intervenções do filósofo francês Alain de Benoist, com a comunicação “A arte europeia, uma arte da representação”, o escritor sérvio Slobodan Despot, que falou sobre “A arte europeia e o sentimento da Natureza”, o escritor belga Christopher M. Gérard, que reflectiu sobre “A beleza e o sagrado”, o musicólogo Jean-François Gautier que salientou a importância da “polifonia do mundo”, e o espanhol Javier Ruiz Portella, director do jornal “El Manifiesto”, que mostrou como se pode fazer “A dissidência pela beleza”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Experimentalismo urbano em Alvalade


Já em 2004 houve a intenção de fazer um estacionamento subterrâneo na Av. da Igreja. Agora, a Câmara Municipal de Lisboa quer reduzir a circulação na Av. da Igreja e nas transversais com o projecto “Uma Praça em Cada Bairro”. Moradores e comerciantes já estão contra este experimentalismo urbano. E bem! Para bem do Bairro de Alvalade.