quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ponto de situação

Cavaco Silva nomeou António Costa como primeiro-ministro e, pese embora a ténue tentativa de prova de vida nos “recados” enviados, assinou a sua morte política anunciada. Não surpreendeu verdadeiramente, pois aquele que se considerava um Presidente moderador foi, durante a sua passagem pelo palácio de Belém, moderadamente Presidente.

O novo Governo socialista apressou-se a tomar os ministérios na noite em que foi empossado. Vale a pena recordar a analogia do camelo – animal que aguenta a travessia do deserto sem beber água, mas que bebe toda a que consegue mal chega a um oásis – para o descrever. Aliás, o afã legislativo em alterar o que o anterior Governo aprovou é um óptimo exemplo do que devemos esperar.

No entanto, as muletas do PS, com alturas diferentes, anunciam que este Governo vai ser cambaleante. No Bloco de Esquerda, o deslumbre com a proximidade do poder ainda dura e mostra como o seu discurso anti-sistema se desfaz num ápice. Já o irreformável Partido Comunista, expectante, não fará concessões e tem as suas tropas de rua bem oleadas, como o demonstrou a manifestação da CGTP. O apêndice do PC tenta mostrar que tem vida própria, mas desengane-se quem acreditar que há o risco de uma apendicite partidária. Por fim, o novel PAN, seguramente para reduzir a pegada ecológica, aproveita a boleia de quem o leve mais longe.

À direita, o discurso do governo ilegítimo de Costa é uma munição que já foi disparada e não provocou estragos. Passos e Portas prometeram no Parlamento não dar tréguas ao novo Executivo, mas o mais difícil está para vir. Os que falam na “conquista do centro” esquecem-se que este não se ganha, antes se compra com lugares e prebendas.

Perante esta situação, há quem tente reconfortar os críticos dizendo que “é a democracia”, como quem atira um evasivo “vamos andando”. É esta submissão à “normalidade” que é assustadoramente desesperante.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Sem comentários:

Enviar um comentário