quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A agressão

“É sobretudo o ódio de partido
que ao extremo horror as coisas leva”
Goethe

A Universidade de Salzburgo, na Áustria, decidiu retirar postumamente o título de doutor ‘honoris causa’ a Konrad Lorenz, atribuído em 1983, devido ao seu “passado nazi”. Numa clara demonstração de “antifascismo” institucional, a Universidade assumiu uma vergonhosa postura de estreiteza e pequenez intelectual. Para estes zelotas do politicamente correcto, as opções políticas – ainda que historicamente localizadas – sobrepõem-se ao contributo científico. Escusado será dizer que, tivesse Lorenz sido comunista, por exemplo, a questão não se punha.

Konrad Lorenz (1903-1989) é considerado como um dos pais da Etologia, a ciência que estuda o comportamento animal, e os seus trabalhos de investigação foram reconhecidos internacionalmente. Em 1973 foi galardoado com o Nobel da Fisiologia ou Medicina pelas descobertas relativas a padrões de comportamento individuais e sociais, em conjunto com o alemão Karl von Frisch e o holandês Nikolaas Tinbergen.

O “passado maldito” de Lorenz há muito que havia sido ultrapassado, mas esta agressão actual não lhe seria estranha. Foi este etólogo austríaco que tão bem demonstrou que a agressividade, longe de ser uma pulsão patológica, tinha por finalidade a sobrevivência. É este ataque póstumo e descabido uma tentativa de sobrevivência dos defensores da massificação uniformizadora?

O caso não será certamente único, porque esta retirada de título foi consequência de um reexame de todas as distinções atribuídas no passado pela Universidade de Salzburgo. Quem serão os novos proscritos?

É bom recordar o que escreveu Lorenz sobre as tentativas de apagar o passado: “É insensato supor que basta destruir uma floresta para automaticamente fazer nascer uma nova. Ora, assiste-se nos nossos dias, ao enfraquecimento contínuo dos factores que asseguram a transmissão da tradição e ao fortalecimento dos factores de ruptura. Destruindo as instituições e os antigos valores arriscamo-nos a desembocar numa verdadeira regressão.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Sem comentários:

Enviar um comentário