quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Estamos numa “espécie de purgatório pós-moderno”...

Há pouco mais de um ano entrevistei Jaime Nogueira Pinto para o semanário «O Diabo». Tendo em conta o momento político que atravessamos, recordo uma das perguntas que lhe fiz:

Hoje estamos num “limbo virtual”, uma “espécie de purgatório pós-moderno”, como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

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