quinta-feira, 1 de outubro de 2015

“A nossa identidade está ameaçada”

João Franco é licenciado em Relações Internacionais e pós-graduado em Estratégia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. É o novo director da revista “Finis Mundi” e recentemente publicou “Fundamentos Identitários para a pós-modernidade”. Entrevistei-o para a edição de O Diabo de 1 de Setembro de 2015.

Que mudanças terá a revista “Finis Mundi” com a sua direcção?
Mantendo os seus colaboradores valorosos, a “Finis Mundi” irá aproximar-se mais da Ciência Política, da Geopolítica e da Estratégia, deixando um pouco de lado os textos mais esotéricos e herméticos. Pretendemos abordar também as grandes questões do nosso tempo, sejam elas a protecção do ambiente, as energias alternativas, as migrações, a inteligência artificial, ou mesmo o sistema capitalista actual.

Qual a importância dada à cultura?
A cultura vai continuar a ter um papel na revista. Tencionamos publicar alguns textos de ficção de autores clássicos e continuar a abordar a literatura, a música ou o cinema.

No seu livro “Fundamentos Identitários para a pós-modernidade” faz uma análise da situação actual pouco animadora. Quais são os piores problemas da sociedade em que vivemos?
O sistema capitalista neo-liberal, a veneração do dinheiro acima de tudo, a destruição da Natureza e o esgotamento dos recursos, o individualismo e o egoísmo crescentes na era das relações virtuais e o cosmopolitismo entendido como nivelamento de todos os povos e culturas à imagem de uma América que já não sabe quem é.

Como se chegou até essa situação?
Com a venda de uma ideia de vida hedonista como única via a seguir pelo ser humano e também pela apresentação do capitalismo como único sistema desejável e possível para gerir a vida humana. O fim da URSS foi um marco nesse caminho.

Marca o início da pós-modernidade?
Em minha opinião sim. Nesse momento o sistema capitalista teve mão livre para orientar a sociedade no sentido materialista e de proporcionar o máximo lucro às multinacionais, sem temer um sistema económico e político alternativo para onde as pessoas se voltassem.

É o período da globalização?
A globalização tem raízes muito antigas, mas o fim da URSS com a evolução tecnológica que sucedeu ao mesmo tempo proporcionaram efectivamente a globalização tal como a conhecemos.

Em que medida foi Portugal afectado por esse fenómeno?
Esse fenómeno em Portugal teve um impacto bastante forte a partir dos anos 90, com o início da chegada dos imigrantes, a expansão dos comportamentos desviantes como o abuso das drogas e a submissão dos jovens à subcultura afro-americana com o ‘rap’ o ‘hip-hop’ e a mentalidade de quadrilha. E nos últimos anos com a expansão da exploração laboral, as deslocalizações, a precariedade.

Como vê a actual vaga migratória que traz à Europa centenas de milhares de pessoas?
É em parte o resultado da desastrosa política dos EUA para o mundo árabe, acabando com os regimes laicos, ainda que ditatoriais e substituindo por islamitas ou pelo caos, aproveitado pelo Estado Islâmico e pelos traficantes de seres humanos. Em termos práticos é a invasão e colonização da Europa, criando o caos social numa altura em que tantos europeus não têm trabalho ou sobrevivem na rua.

No livro propõe fundamentos para sair da pós-modernidade. Quais são os principais?
Parar o crescimento das cidades, apostar no regionalismo, no localismo e no comunitarismo face à globalização desenraizante e lutar contra a economia especulativa actual, em favor de um sistema mais justo.

Todos os fundamentos assentam na defesa da identidade. Como a define?
A nossa identidade é aquilo que nos distingue dos outros e é face a eles que ela se define. O facto da identidade estar a ser chamada à ordem do dia significa que ela está ameaçada, nos povos em que essa ameaça não existe, nomeadamente no período pré-moderno essa questão da identidade não se colocava.

Os movimentos identitários são normalmente classificados à direita ou à extrema-direita. Concorda com essa classificação, ou a dicotomia esquerda/direita já não faz sentido?
Essa dicotomia não faz sentido, é divisionista e usada para explorar segmentos de mercado eleitoral. Quem quer propor soluções globais para uma sociedade tem de ter uma visão mais ampla do que isso, tem de elaborar propostas sem olhar a rótulos.
O movimento identitário é o resultado político da Nouvelle Droite francesa. Sabemos que figuras como Pierre Vial e Guillaume Faye quiseram afastar-se da linha metapolítica e cultural defendida por Alain de Benoist. Os movimentos identitários são algo novo e preparado para fazer face aos problemas da pós-modernidade, em vez de estarem agarrados a um passado que convém lembrar, mas que não volta.

Qual tem sido a reacção ao livro? Que eco têm os fundamentos identitários em Portugal?
Tenho recebido reacções positivas por parte dos leitores do livro. Com uma boa campanha de ‘marketing’ ou uma editora de maior dimensão o impacto do livro poderia ser maior, mas temos de ter os pés assentes na terra e a verdade é que o pensamento identitário em Portugal ainda é um grande desconhecido. Espero que este livro sirva para esclarecer e dar argumentos a quem se identificar com a defesa da identidade dos povos.

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