quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ressurgimento de Restauração

Quando vi pela primeira vez o magistral “Non, ou a vã glória de mandar” estava ainda no liceu. Foi a minha estreia na obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, da qual os meus colegas troçavam sem ter visto. O aspecto bélico do filme atraiu-me, mas só depois de o ver me convenci de que é obrigatório para qualquer português.

Nesta viagem pela História de Portugal e pela vontade imperial da nossa Pátria, o Alferes Cabrita, um militar formado em História, que vai relatando aos seus camaradas de armas na Guerra do Ultramar vários episódios marcantes do nosso percurso enquanto nação, dá ênfase à Batalha de Alcácer Quibir. Para ele, foi um “mito que se tornou uma verdade. Verdade, algo de secreto e inexplicável. Em vez de ter sentido lógico, esta verdade inacessível possui um sentido último que tudo explica”.

De jovem me ficou uma ideia que guardo até hoje: será que o mito do sebastianismo não é uma derrota, antes a certeza da nossa vontade nacional? O nosso espírito trágico português?
Como o Império, o Alferes Cabrita morreu, depois de ferido em combate, no dia 25 de Abril de 1974. Mas Portugal não morreu nesse dia, nem a 4 de Agosto de 1578.

Como escreveu Goulart Nogueira, “um Portugal renunciando às linhas geratrizes que o criaram e lhe deram o modo de ser, um Portugal mudando de alma, de espírito, já não será Portugal. Todos os que subscrevem essa orientação diferente arrastam um suposto corpo da Pátria que de Portugal mantém, apenas, o nome. Mas, para além da demissão e da mascarada, existem os que permanecem fiéis ao mesmo sentido, ao mesmo desígnio, à mesma tessitura de sonho (o prodigioso e, no entanto, autêntico consórcio de saudosismo e sebastianismo que leva aos ressurgimentos de restaurações)”. O poeta não tinha dúvidas em afirmar que “o impossível dos incrédulos tornar-se-á realidade”.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

1 comentário:

  1. Caro Duarte,

    Como sabes, tenho os meus problemas por resolver com os "sebastianismos". Mas a citação de Goulart não podia ter sido melhor aplicada.

    Forte abraço.

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