quinta-feira, 21 de maio de 2015

O circo chegou à cidade

Há uns anos valentes, da segunda vez que fui a Roma, propus a uns amigos italianos jantarmos num restaurante onde tinha ido da primeira vez que estivera na cidade, ainda adolescente. Pronto me responderam que estava fora de questão, porque se tratava de uma zona “só de turistas”. Segui obviamente o conselho deles e a ideia de que partes da nossa cidade podem ser literalmente ocupadas por quem nos visita não me saiu da cabeça.

Meia dúzia de anos depois, senti o mesmo na minha Lisboa. É claro que esta sensação de posse é hoje tida como politicamente incorrecta pelos chantres da globalização, para quem qualquer sentimento de pertença é visto como “retrógrado”.

Nesta questão não adianta argumentar, já que basta aconselhar um passeio ao fim-de-semana pelas zonas nobres da capital. Uma experiência sufocante por entre um mar de gente que circula com o olhar nos telemóveis à espera de indicações e sugestões. “Vêem” apenas o que fotografam e “sentem” através de aplicações informáticas. Bandos que se alimentam de menus ditos “típicos” servidos em locais que garantem ser “gourmet”, “vintage” ou qualquer outra designação em voga, mas que nada têm que ver com a cultura portuguesa. Congestionam o tráfego com os “tuk-tuks”, os “segway”, os veículos “eco-friendly”. Entram em igrejas e comportam-se como se estivessem num café de praia e visitam museus como se comprassem num bazar. É claro que nem todos são assim e esta ocupação conta com os colaboracionistas locais.

Lisboa está “na moda”, dizem-nos com satisfação os dispostos a tudo a troco do lucro rápido. Felizmente, as modas são passageiras. Infelizmente, tais sujeitos não querem entender que a “autenticidade” que apregoam não está num selo turístico.

Hoje, temos a sensação de que o circo chegou à cidade. Mas, como sabemos, o circo é naturalmente temporário e por isso a festa é efémera. Depois das tendas desarmadas e da partida dos malabaristas, talvez a visão do vazio provocado pelas árvores derrubadas e pelo chão terraplanado nos force a uma tomada de consciência. Será que num deserto descaracterizado nos podemos reencontrar? Esperemos que sim, para que voltemos a ter a nossa cidade para viver e receber turistas, sem a transformar num parque de diversões igual a tantos outros.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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