quinta-feira, 9 de abril de 2015

Um cineasta português


“É tão lento que parece um filme do Manoel de Oliveira.” Este é um exemplo dos comentários ignorantes – supostas piadas – com que muitos portugueses tratavam o cineasta português. A ignorância, esclareça-se, não está no facto de não conseguirem atingir a obra de Oliveira, como pretendem alguns pseudo-críticos, mas pelo simples motivo de nunca terem visto qualquer filme realizado por ele.

Agora, na hora da sua morte, é louvado e apreciado. Mas recorde-se que foi no estrangeiro (quantas vezes já assistimos ao mesmo?) que o seu talento, mestria e valor foram notados e enaltecidos. Por cá, com a aprovação da estranja, foi sendo aceite, mas continuava um desconhecido.

Nos obituários, a ‘intelligentsia’ apressou-se a lembrar a sua episódica prisão antes do 25 de Abril. Sobre o caso, recordei-me da entrevista que deu ao “Diário de Notícias”, em 2011. Quando perguntado sobre os problemas que tinha tido com a PIDE, respondeu: “Não tive problemas com a PIDE. A PIDE é que teve problemas comigo! Fiz uma reunião, disse coisas que eram certas e, por serem certas, meteram-me na cadeia durante uns oito, dez dias. E depois viram que não tinham razão, não podiam, soltaram-me. Houve um movimento também favorável, mas não se pode dizer, a verdade verdadeira não se pode dizer porque é um risco.” Ao que o entrevistador reagiu, “‘Era’ um risco?”, mas o realizador não se deixou ficar: “Era... não sei se ainda é. Sabe que esta história política é muito difícil, muito grave. Há uma desmobilização fortíssima, há uma perda de valores enorme! Hoje a aldrabice monta por aí com toda a força, e isso é triste.”

No final da entrevista, demonstrou a sua humildade, afirmando: “Não me sinto realizado! Estou a tentar realizar-me neste curto espaço que me resta.” Realizou-se. Partiu um grande português que será para sempre um dos maiores da Sétima Arte.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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