quinta-feira, 12 de março de 2015

“Jornalismo” robotizado

Num contacto directo com o mundo industrial, marcado pela ultra-especialização e o deslumbramento com o potencial das máquinas, nomeadamente com a substituição de pessoas por ‘robots’ nas linhas de produção e uma melhoria da eficiência (a palavra favorita para quem trabalha nesta área), tive um breve diálogo inquietante. O engenheiro com quem falei disse-me que a alta tecnologia a que se dedica profissionalmente é um universo bastante diferente da História e da política – que para ele são quase “ciências ocultas” –, mas que eu devia conhecer. Tinha razão neste último ponto, até porque não há sectores estanques da sociedade. Verdadeiro devoto da chamada inteligência artificial e dos benefícios que, segundo ele, esta trouxe para a produção industrial, o engenheiro sugeriu-me, em tom ligeiro, que um dia talvez fosse possível que o jornalismo fosse feito por computadores “inteligentes”. O sorriso dele foi provavelmente o que mais me preocupou. Respondi-lhe que considerava a ideia assustadora, mas nem este adjectivo o fez mudar de expressão. Para ele era “um avanço” e representava “o futuro” e só podia ser “bom”. Algo ainda mais assustador...

O que lhe disse foi que tal tecnologia já existe e já está a dar os primeiros passos. Um dos mais importantes foi a parceria entre a Associated Press (AP), a maior agência noticiosa do mundo, e a Automated Insights, uma empresa responsável pela tecnologia que permite criar notícias automáticas baseadas em dados financeiros, entre outros.

Estamos a caminho de uma substituição dos jornalistas por máquinas, como se a informação fosse um produto transformado numa linha de montagem? Não, felizmente. O vice-presidente da AP afirmou que a automatização nunca teve por objectivo a substituição de pessoas e a perda de empregos.

Nunca haverá jornalismo sem jornalistas, sem pessoas, sem o espírito crítico próprio do ser humano.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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