quinta-feira, 26 de março de 2015

Estrangeiros na própria pátria

Diariamente dedico parte do meu tempo à leitura. Não àquela a que informação obriga, mas aos livros que abrem as portas à minha floresta interior – o lugar romântico a que recorro para me sentir livre, fortalecer a vontade de resistir à tirania do politicamente correcto e nadar até à superfície da maré niveladora da ignorância generalizada.

Identifico-me tantas vezes com as sábias e profundas palavras do mestre das letras alemãs Ernst Jünger: “Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao ‘homo faber’ e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: ‘Que diabo estou eu a fazer nesta galera?’ De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”

Tal desilusão pode levar ao desespero e ao abandono do que nos é mais querido, fechando-nos ao exterior agarrados ao passado, mais ou menos construído. Mas manter a tradição não é conservar as cinzas, é preservar o fogo.

A floresta é um espaço de reflexão que deve conduzir-nos à acção. Há que regressar à cidade – à ‘polis’ –, onde se decide o futuro da Pátria.

A defesa de Portugal, da nossa identidade e da sua continuidade é nosso dever enquanto portugueses. Por muito que tal pareça estranho no mundo desenraizado de hoje, ainda que nos sintamos estrangeiros numa massa que se uniformiza de dia para dia, o futuro pertence-nos – porque sabemos de onde vimos e, por isso, para onde vamos.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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