quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Seguidismo

Foi preciso apenas uma geração para o francês se tornar um língua estranha em Portugal. Nem o facto de ser um parente neolatino próximo do português ajuda. Esta falha foi especialmente notória na semana passada, no turbilhão de notícias que chegavam de Paris e que era necessário tratar com urgência. Facilmente se percebia que muitas das novidades “em cima do acontecimento” eram versões “mastigadas” de órgãos de informação em língua inglesa. Já naqueles que optavam pelos ‘media’ franceses, era penoso vê-los tropeçar em traduções descuidadas, quando não disparatadas, e ouvir nomes, expressões e localidades em francês pronunciados das formas mais escabrosas.

Talvez por isso tenha escapado a muitos portugueses um pormenor no ‘slogan’ “Je suis Charlie”, que se generalizou após o atentado terrorista à Redacção do jornal satírico “Charlie Hebdo”. Ora, em francês, “je suis” significa não apenas “eu sou”, como também “eu sigo”.

Perante a rápida disseminação, em especial na Europa Ocidental, desta expressão que tem sido usada tanto por populares como por políticos e jornalistas, não é difícil ler, afinal, “Eu sigo Charlie”.

Para que não haja dúvidas, os cobardes ataques terroristas ocorridos em França, que provocaram várias vítimas mortais, merecem total reprovação. No entanto, tal não significa que nos devamos precipitar num seguidismo automático.

A natural condenação dos actos bárbaros cometidos, deve levar-nos a uma reflexão ponderada e informada sobre o terrorismo que agora ganha força na Europa, as suas causas e consequências, bem como sobre o que fazer em defesa da nossa civilização.

Por muito bem que soe nas redes sociais, agora não é o tempo de dar a outra face.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».


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