quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A noite mais longa


No passado dia 21 de Dezembro ocorreu o solstício de Inverno, que marca o início desta estação no hemisfério boreal com a mais longa noite do ano, em que o Sol atinge a sua posição mínima em relação ao equador.

Os europeus cedo viram neste momento a representação de uma morte que anunciava um renascimento. Considerando os tempos difíceis que temos vivido, é natural que façamos uma analogia política. Este paralelo, aliás, não é novo. Recorde-se, por exemplo, o início da peça “Ricardo III”, de Shakespeare, que começa por referir “o Inverno do nosso descontentamento” transformado em “Verão glorioso” pelo Sol.

Escreveu o saudoso Jean Mabire, profundo conhecedor das tradições europeias e ciente da sua actualidade: “O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno. A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo. Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.”

Nesta época de escuridão, guardemos a esperança no regresso da luz. Feliz Natal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Da despolitização


«Um dos modos mais habituais de assinalar a nossa era política consiste na sua caracterização como uma era da despolitização. Dir-se-ia que vivemos hoje, nas democracias liberais do Ocidente, como se o político tivesse desaparecido do mundo, como se tivéssemos entrado na era da pós-política. E uma tal caracterização aparece como algo pacífico, surgindo frequentemente como o sentido fundamental, como o pano de fundo de fenómenos cuja referência parece ser, de tão habitual e recorrente, dispensável. Entre tais fenómenos pode-se contar, por exemplo, o desinteresse crescente pela vida pública por parte de importantes sectores populacionais no seio das democracias liberais ocidentais; ou a sua concentração exclusiva na sua vida privada; ou a entrega da economia às simples leis de um mercado para cuja legalidade imanente a dimensão do político não pode deixar de surgir como uma interferência perturbadora; ou a entrega do desenvolvimento técnico a uma pura lei imanente de crescimento ininterrupto, diante da qual as tentativas políticas ou jurídicas de regulamentação não parecem ser senão intrusões provisórias; ou a tentativa para encontrar uma paz mundial assente na constituição de uma "lei dos povos", a qual surja como uma legalidade internacional que ultrapasse o plano estritamente político de uma "lei de Estados" tendencialmente autónomos e agressivos; ou a ideia de que a história chegou ao fim no seu estatuto de percurso movido por grandes narrativas de mobilização política. Diante de todos estes exemplos, dir-se-ia então que hoje, de um modo geral, a vida política é marcada pela perda de importância do plano político; e que é esta perda que justamente se pode chamar despolitização

Alexandre Franco de Sá
in "Metamorfose do Poder".

domingo, 21 de dezembro de 2014

Solstício de Inverno


É nesta época de recolhimento que encontramos no seio da família a nossa verdadeira razão de existir. Recordamos os nossos antepassados, celebramos os ausentes e enchemo-nos de esperança com a geração futura.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Café para hoje


O Café Odisseia está de regresso às suas actividades de intervenção político-cultural, promovendo um encontro subordinado à temática "A Identidade Perante o Inimigo". A conferência realiza-se hoje, dia 19 de Dezembro, pelas 17h30, na sala 102 da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e tem como oradores Pedro Jacob Morais e Manuel Rezende.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O último refúgio do homem livre


A defesa dos livros e da leitura como forma de estruturar o nosso pensamento, tão necessária na era do imediatismo, é por muitos criticada com o falso argumento da inevitável mudança provocada pela tecnologia.

Para os eternos crentes na técnica, o livro em papel tem os dias contados e em breve será substituído por suportes digitais cada vez mais avançados e em permanente alteração. Convém recordar que semelhante vaticínio nada tem de novo e que, historicamente, falhou pura e simplesmente. Dos vários exemplos a apontar, pensemos nos que garantiam que a fotografia iria matar a pintura, naqueles que viam no cinema o substituto do teatro, ou nos que previam com certeza o fim da rádio com o advento da “caixa que mudou mundo”. Recentemente, os mesmos também vêem na Internet o fim da televisão e não só. Obviamente que as formas de comunicação e expressão se adaptam, mas um novo meio não dita necessariamente o desaparecimento de outros.

Naturalmente que um livro não é bom só por si. Basta entrar numa livraria para se ver a quantidade de lixo que é publicado hoje. No entanto, a leitura de um livro, para além do contacto com o objecto, é um processo completo, que demora tempo e pode ser faseado. Algo que contrasta com este tempo em que a informação se quer instantânea e descartável.

A este propósito, numa entrevista recente, o filósofo francês Alain de Benoist afirmou que “o maior risco para o homem de hoje é adoptar um comportamento tecnomorfo que asfixia pouco a pouco aquilo que nele há de propriamente humano”. Assim, podemos questionar se, nesta era dita digital, o livro será o último refúgio do homem livre. Não será o único e muito provavelmente não será o último, mas é um óptimo refúgio, acessível e necessário.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O fim da nossa Idade


O "Ensaio sobre o fim da nossa Idade", publicado em 1978, foi o primeiro livro do meu caro Amigo António Marques Bessa que li, ainda na adolescência, e que muito me marcou. É por isso que me congratulo com a nova edição actualizada, agora publicada pela Causa das Regras. Um excelente livro que a todos aconselho.

Assim se fala mal português


Manuel Fernando Espírito Santo Silva, ex-administrador da Rioforte, foi à comissão parlamentar de inquérito ao caso BES e afirmou, em relação às remunerações decorrentes do negócio dos submarinos, que "quem interviu [sic] foi a Escom".

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O irmão de Salazar


Este título parece uma figura de estilo, mas não é. Segundo um jornal considerado “de referência” na nossa praça, é uma verdadeira descoberta. Na última edição da revista do semanário “Expresso”, há uma peça dedicada ao que comiam os ditadores. Por entre os apetites de Estaline, Kim il-Sung, Ceausescu, entre outros, a jornalista diz-nos que o Presidente do Conselho de Ministros português adorava sardinhas. Isto porque, segundo ela, era um “prato que lhe lembrava a sua infância pobre e os tempos em que tinha que partilhar uma única sardinha com o irmão”. É caso para dizer que o disparate não tem limites. A ignorância histórica está de tal forma generalizada que passa incólume em meios de comunicação social que deviam ter um cuidado mínimo com o que é publicado. Mas concedamos o benefício da dúvida, talvez o objectivo fosse tornar a história mais apetitosa...

Dia d'O Diabo


sábado, 13 de dezembro de 2014

Sociedade da desinformação

Os tempos em que vivemos são amiúde considerados pelos bem-pensantes como a “era da informação”. Infelizmente, esta designação pomposa está longe de corresponder à realidade.

A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.

Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.

Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.

Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.

Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A praga dos caixotes de vidro...


Hoje passei por mais um caixote de vidro incrustado em Lisboa, na esquina da R. de João Penha com a Trav. da Fábrica das Sedas, ao Jardim das Amoreiras. Já nem questiono a arquitectura, apenas constato que o mamarracho está totalmente desenquadrado dos edifícios circundantes. Assim se vai descaracterizando mais uma zona da capital...

Outono no Jardim das Amoreiras


As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.

Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jorge Luis Borges merecia uma homenagem digna


O estado do monumento a Jorge Luis Borges no Jardim do Arco do Cego, em Lisboa, coincide com o ponto de encontro para a embriaguez juvenil em que esta zona da capital se tornou. Infelizmente, a peça em questão, bastante feia, nunca foi capaz da merecida homenagem ao escritor argentino de ascendência portuguesa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Os escritores têm casos de consciência?

«Céline aparece à janela.
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguisses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»

in «Arts», 14/11/1956. (Trad. port. de Alberto Nunes Sampaio, in “O Cão de Deus”, Hiena Editora, 1995)