quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Futuro presente


Morreu P. D. James, escritora britânica conhecida pelos sua vasta obra de policiais. Em 1992 publicou a distopia "Os Filhos dos Homens", que seria adaptada ao cinema por Alfonso Cuarón, em 2006. Concordo com Slavoj Žižek quando diz que o mais importante está no 'background' e que a verdadeira infertilidade retratada é o desespero de uma sociedade sem História. De facto, os pormenores que preenchem o cenário em que decorre a acção são merecedores de atenção redobrada, em especial nos tempos conturbados de fim de ciclo em que vivemos. Um filme a rever sob outra perspectiva.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Crónica dos bons (?) malandros...

Mário Soares depois de visitar José Sócrates em Évora:
«São uns malandros que estão a combater um homem exemplar.»
O malandro foi visitar o malandro e assegura que este não é malandro porque nunca fez malandrices. O que lhe estão a fazer é que é uma malandrice! E a culpa de quem é, afinal? Dos malandros, claro está! A malandragem está em todo o lado... Esclarecidos?

Julgamentos

A detenção de um antigo primeiro-ministro suspeito da prática de vários crimes é inédita no nosso país. Não adianta recordar como o desgoverno de José Sócrates tanto contribuiu para afundar ainda mais Portugal. Foi um político que não deixou saudades, mas que insistia em estar sempre presente na vida política nacional, ainda que à distância. Um auto-proclamado gigante da moralidade que, pelos vistos, pode ter pés de barro...

Muitos alegram-se de o ver sujeito a um longo interrogatório, como se as suspeitas confirmassem a prática dos crimes. Para estes, ver Sócrates nesta situação é a sentença final do julgamento popular que há muito haviam feito. Não é. A procissão ainda vai no adro, como se costuma dizer, e devemos aguardar atenta e pacientemente.

Por muito benéfica que a queda do “menino de ouro do PS” – como o classificou a sua biógrafa – seja para os outros partidos, é impossível ver este caso como isolado.

Da mesma forma que o desmoronar do Grupo Espírito Santo não foi um mero problema de gestão bancária, os actos ilícitos de Sócrates – a confirmarem-se – não são uma questão pessoal ou pontual. Fazem parte de um sistema que está podre. São mais uma pedra que cai deste regime que está a ruir. Um problema estrutural que leva atrás de si o País e prejudica gravemente a vida dos portugueses.

São exactamente os culpados pelo estado deplorável a que chegámos, à total descredibilização das instituições políticas que hipotecaram Portugal, que importa julgar.

Esse, sim, deve ser um julgamento popular. Uma tomada de posição de um povo que está farto de ser vilipendiado e que tenha a coragem e a força de recuperar uma nação milenar. Portugueses decididos a não trocar o mesmo pelo mesmo, ou pelo semelhante. O fim da escolha do “menos mau”.

Nessa mudança tão necessária, mas que continua adiada (por quanto tempo?), a única sentença é retomar Portugal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Blade Runner sem Ridley Scott

Afinal, Ridley Scott não vai realizar a sequela de "Blade Runner", mas será produtor do filme. Aguardemos...


Segundo a revista «Variety»: «When “The Martian” wraps later this winter, Scott already has a fair idea what he’ll be doing next, though it likely won’t be the much-anticipated “Blade Runner” sequel he developed with the original film’s co-screenwriter, Hampton Fancher. “We talked at length about what it could be, and came up with a pretty strong three-act storyline, and it all makes sense in terms of how it relates to the first one,” says Scott, who adds that fans can expect to see Harrison Ford back in the saddle as the futuristic gumshoe Rick Deckard. “Harrison is very much part of this one, but really it’s about finding him; he comes in in the third act.” Per Scott, that Alcon Entertainment production should go before the cameras within the next year, but with someone else directing (he’ll produce).»

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Igualdade de tratamento

Não estou de acordo com a prisão do motorista. Sócrates deve ser tratado como qualquer cidadão.

Os outros

Sócrates ficou em prisão preventiva. E os outros? O advogado foi o menos afectado da Trindade, ao empresário nem os Santos valeram e o motorista não conseguiu passar a Perna.

domingo, 23 de novembro de 2014

Marquês


Porque é que a investigação que levou à detenção de Sócrates foi baptizada como "Operação Marquês"? Será que se antecipavam festejos no centro da capital?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O labirinto

Operação Labirinto foi o nome escolhido para a investigação de uma rede de relacionamentos dentro do Estado que conseguia luvas para a atribuição dos chamados “vistos dourados”. O escândalo atingiu, até agora, vários “altos quadros” da Administração Pública, incluindo o director de uma polícia, e provocou a demissão do ministro da Administração Interna.

Não cabe agora discutir se a Autorização de Residência para Investimento, que data de 2012, é uma boa medida. Não considero que seja, mas não é este caso que a torna má. A questão é muito mais profunda e complexa, tem que ver com a identidade nacional.

O que agora está em causa é saber se esta operação policial mostra que, afinal, a Justiça funciona e chega ao topo da pirâmide. Será que chega?

Infelizmente, casos anteriores semelhantes demonstraram que, depois do espalhafato mediático, pouco ou nada se altera. Pelo contrário, agrava-se o sentimento generalizado de que os poderosos são impunes.

Mas não será que esta tentação popular em ver no Estado policial o garante da honestidade dos governantes a maior prova de que é a própria estrutura que está corrompida? E será que é assim que é possível resolver um problema desta ordem?
Como derrotar o monstro e regressar? Há quem queira ver nesta operação a coragem de Teseu que derrotou o Minotauro. Não se iludam.

No actual sistema não há heróis e a besta e o dédalo confundem-se. A corrupção é o próprio labirinto e muitos ficam presos nas redes que criaram.

Será que não conseguiremos sair? Haverá uma Ariadne que nos dê um novelo de fio para que consigamos encontrar o caminho de volta?

O combate à corrupção começa em cada um de nós, porque se trata de uma doença da comunidade que nos afecta a todos. A resposta está nos valores imateriais que nos devem guiar, está na verticalidade perante princípios, nunca num caso de polícia.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A força da máquina

Há uns anos, ouvi um estrangeiro afirmar que Portugal era “o país à mesa”, numa tentativa de caricaturar a forma como os portugueses escolhem as refeições para ter reuniões de trabalho ou encontros importantes. Como seria de esperar, o indivíduo apenas conseguiu o que pretendia num almoço e, rendido ao nosso hábito e também à nossa gastronomia, voltou para casa a saber que o seu estúpido preconceito não passava disso mesmo. Recordo-me sempre deste episódio cada vez que, à mesa, por mais banal ou informal que seja a conversa, obtenho informações importantes.

Vem isto a propósito de um jantar onde falei com uma pessoa que recentemente decidiu tornar-se militante de um dos maiores partidos portugueses. Conhecedor de algumas das suas posições, incompatíveis com o actual regime, questionei-o sobre as razões da sua decisão. Disse-me que o sistema partidário português está viciado e que só é possível “fazer política” dentro de um dos “grandes”. Era um entrismo individual, com objectivos políticos e que chocavam com a passividade que encontrou no seio dos que o acolheram.

Devido à sua formação e experiência, integrou rapidamente um grupo de trabalho com antigos militantes, mas a experiência não correu bem. Trabalhou bastante, elaborando várias propostas de lei, mas cedo se apercebeu de que era o único a fazê-lo. O resultado foi a estranheza e a consequente hostilização dos seus novos “companheiros de luta”. O argumento mais utilizado por estes nem era a discordância com o que ele apresentava, mas o mero facto de serem militantes há mais tempo. Esta antiguidade de posto, por si só, devia garantir-lhes a sucessão natural de cargos até ao almejado lugar elegível numa lista eleitoral.

Perante tal cenário, limitei-me a comentar que tais “militantes” passivos encaravam a vida partidária como uma escada rolante que os leva até ao topo e na qual é não preciso qualquer esforço, porque esse cabe à força da máquina.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A História em frases feitas

“O livro de citações é dos géneros literários mais antigos”, diz-nos o autor de “500 frases que mudaram a nossa História”, um livro muito útil que nos recorda frases bem conhecidas, explicando-as e enquadrando-as historicamente, bem como algumas mal atribuídas, desfazendo enganos.

João Ferreira é jornalista e historiador, o que o torna um excelente autor de obras de História divulgativa, como “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”, ou “Frases Que Fizeram a História de Portugal”, em co-autoria com Ferreira Fernandes. Este é um género habitualmente menosprezado pelos auto-proclamados “especialistas”, mas o seu sucesso editorial prova que contribui bastante para satisfazer a curiosidade histórica do público em geral. A História divulgativa baseia-se na investigação académica e é um género fundamentado, que se dirige a um leque mais abrangente de leitores. Como afirmou João Ferreira em entrevista a O DIABO: “Quando estou a preparar estes livros de História divulgativa uso o resultado de muitos trabalhos feitos por investigadores universitários que trazem perspectivas originais sobre a História e que servem de matéria-prima para a divulgação.”

O aspecto mais curioso desta obra é o capítulo “Afinal, quem disse isto?”, dedicado às falsas citações ou frases mal atribuídas. Dos vários casos, há exemplo de um bem conhecido e português: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” A frase é geralmente atribuída ao futuro marquês de Pombal, perante a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. No entanto, o autor explica que, quando o rei D. José perguntou ao seu núcleo de conselheiros o que fazer perante tamanha devastação, a resposta – segundo o historiador Veríssimo Serrão – foi-lhe dada, não por Sebastião José de Carvalho e Melo, mas por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”

Infelizmente, a obra segue o famigerado Acordo Ortográfico de 1990, algo que apenas a empobrece. Nunca é demais recordar autores e editoras desta má decisão, porque esta é uma questão fundamental que está longe de estar encerrada.

Apesar da ortografia acordizada, este é um livro bem feito e bem organizado, com um índice de todas as citações. Um daqueles volumes aos quais recorremos amiúde, tanto para verificar o que já sabemos normalmente através de lugares-comuns, ao mesmo tempo que obtemos um enquadramento histórico, como descobrir frases marcantes que não conhecíamos ou que atribuíamos ao autor errado. Porque, como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa, citado no livro, “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Quando a Europa dominava o mundo


À venda no nosso país está o mais recente número especial de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, publicação de referência dirigida por Philippe Conrad, cujo tema é “Conquistas e sociedades coloniais”.

Como explica o director da revista no editorial, “a superioridade adquirida pelos europeus no que respeita a técnicas náuticas e de armamento, as novas possibilidades abertas pelo desenvolvimento industrial e a explosão demográfica que o velho continente conheceu no século XIX explicam naturalmente hegemonia que pode estabelecer na maior parte do mundo”. Defendido inicialmente pelos progressistas como “missão civilizadora”, o “colonialismo” passou a ser visto, após a Segunda Guerra Mundial, como um “crime” e uma “exploração de outros povos”. Em pleno século XXI, interessa relançar um debate informado sobre a presença europeia no mundo neste período, tal é o objectivo desta edição.

Como seria de esperar, a ênfase é dada à presença francesa, com artigos sobre a Argélia, Marrocos, ou a Indochina. Outros países europeus também merecem atenção, como a Inglaterra, a Alemanha, a Holanda e a Bélgica, a propósito do Congo de Leopoldo II.

E Portugal? A pergunta não faz apenas sentido por sermos portugueses, mas pelo papel de relevo que o nosso país teve neste processo. Não há um artigo específico sobre Portugal, o que é pena, mas as referências à presença lusa são muitas. Desde a nossa participação na Exposição Colonial Internacional de 1931, em Paris, à disputa com os ingleses em África, que entre nós ficou conhecida como a questão do “Mapa cor-de-rosa”, no artigo “As fronteiras africanas”, que é ilustrado com um relevo da captura de Gungunhana, em Moçambique. Já no artigo sobre as Índias holandesas, é dito que foram os portugueses, “grandes navegadores, os primeiros a abrir à Europa as portas da Ásia”, no século XVI, e é traçada a diferença entre a presença portuguesa e holandesa. O desenvolvimento do território que constitui a actual Indonésia obedeceu à lógica do capitalismo. Segundo escreve Philippe Raggi, “ao contrário dos portugueses, os holandeses nunca se interessaram pela cultura dos povos com os quais entraram em contacto”. Razões de sobra para Portugal não ter sido esquecido e merecer um artigo próprio.