sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Outro lado

Na semana passada, depois de ver um filme baseado em factos reais sobre uma polémica investigação jornalística nos Estados Unidos da América, não resisti a ironizar com o tempo que era dado ao jornalista para escrever, pesquisar, viajar e a compreensão do editor e director durante todo o seu trabalho. O “filme” real dos jornais não é, infelizmente, assim. Pelo contrário, a pressão é muita e o tempo é pouco. Estas são, provavelmente, dificuldades de que a maior parte dos leitores se apercebe.

No entanto, há outro lado que passa habitualmente despercebido. Refiro-me aos processos judiciais contra jornalistas e responsáveis por órgãos de comunicação social.

A este propósito, falei há dias com um colega de profissão que foi responsável por um título marcante da Imprensa portuguesa, entretanto desaparecido, que me disse que, a determinada altura, tinha simultaneamente 47 processos judiciais contra si! Para além do número inacreditável, que só por si implicava uma gestão complicada, nem todos eram em Lisboa, o que o obrigava, quase semanalmente, a deslocações demoradas e dispendiosas.

É óbvio que na Imprensa também se cometem crimes e, quando tal acontece, os culpados devem ser condenados. Mas, na maioria dos casos, os processos que se arrastam durante anos e que enchem os tribunais servem para gastar tempo e dinheiro e não para resolver em tempo útil as questões.

Naturalmente que esta é uma generalização, porque há casos e casos, mas o que não faz sentido é preferir apresentar queixa contra um jornal ou um jornalista em vez de usar mecanismos como o direito de resposta. Talvez assim aconteça porque, para muitos, o que interessa não é a reposição da verdade ou a rectificação da notícia, mas uma tentativa de vingança ou de intimidação. Nestas situações não estamos perante uma forma correcta de recorrer à Justiça. Mas esse é ainda outro lado...

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O livro que está a agitar a França

A mais recente obra do polemista Éric Zemmour é um fenómeno literário de vendas e está a agitar as águas da política francesa. À direita é vista como um alerta para o estado a que chegou o país. À esquerda é vista como um perigoso ensaio catastrofista que pode “alimentar a extrema-direita”. “O Suicídio Francês” promete não deixar ninguém indiferente.

Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.

Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.

O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Tempos...


Fleur Pellerin, sul-coreana que nasceu em Seul com o nome Kim Jong-suk, e foi adoptada por uma família francesa com meses de idade, é a ministra da Cultura e da Comunicação do governo socialista de Manuel Valls. Ontem, numa ida à televisão, conseguiu a proeza de não conseguir dizer o nome de uma obra de Patrick Modiano, escritor francês que ganhou o Nobel da Literatura, e de confessar que há dois anos que não tem tempo para ler. Esta deve ser a desculpa mais inacreditável para não ler, estar ocupada com a Cultura...

domingo, 26 de outubro de 2014

Frase do dia

“O problema dos jornalistas não é de modo algum o que criticam e investigam, mas sim o que omitem sobre determinados líderes e o acriticismo com que brindam determinadas causas”

Helena Matos
in “Observador”

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Terroristas


Há algo de perverso nas notícias que têm enchido a Imprensa nacional sobre os jovens de nacionalidade portuguesa, ou luso-descendentes, que se converteram ao islão e se juntaram aos ‘jihadistas’ na Síria ou no Iraque. Muitas vezes, talvez inconscientemente, é-lhes atribuída uma aura de romantismo e a preocupação é a de encontrar explicações, quando não justificações. Bastavam as atrocidades cometidas pelos grupos islamitas a que pertencem, das quais tanto se gabam, para que não houvesse a menor simpatia por eles. Mas convém recordar que estes “jovens” lutam contra nós e contra o nosso modo de vida, renunciando à sua pátria e civilização. São terroristas, nada mais.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Da natureza deste regime


Mário Soares não deixa de espantar, mesmo aqueles que ainda por ele têm consideração (sim, existem). Depois da defesa pública de Ricardo Espírito Santo, o histórico socialista e antigo Presidente da República abraçou Isaltino Morais, dizendo que o autarca condenado “foi injustiçado”. Soares lançou ainda a interrogação justificativa: “Quando há pessoas que roubam milhões e estão soltas, como é que ele foi preso sem razão nenhuma?” É este o sentido de justiça de alguém que já ocupou os mais altos cargos de responsabilidade política no nosso país. Um símbolo deste regime, que está velho e caduco e que começa a mostrar a sua verdadeira natureza, sem um pingo de vergonha.

domingo, 12 de outubro de 2014

Frase do dia

«O abraço de Soares a Isaltino é a parte visível, ostentatória, do sussurro que por aí vai e já me chegou aos ouvidos: o de que os tribunais estão a ser muito severos com os Varas e as Maria de Lurdes.»

José Manuel Fernandes
in «Observador»

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Portugueses do Império

Tenho a honra e o privilégio de ter conhecido, privado e ter como amigos vários dos últimos Homens de um Império que foi nosso. Combatentes dispostos a fazer o sacrifício maior – o da própria vida – por todos nós, por Portugal. São a brisa depois da tempestade. O último sopro de uma memória que se apaga. Uma estirpe que contrasta com aqueles que actualmente nos desgovernam, mas que mostra que há, no nosso povo, uma chama que cresce quando a Pátria chama.

Recordei-me deles na morte do Comandante Alpoim Calvão, herói nacional que uns quantos – os do costume – preferem “esquecer”, incomodados com o seu carácter e grandeza.

Um homem que nunca baixou os braços e que não ficou “parado no tempo”. Como escreveu a esse propósito Jaime Nogueira Pinto no “Observador”: “É difícil para as gerações que vieram depois da Guerra e do Império compreender o ‘ethos’, a vida e o sentido da vida de homens como Alpoim Calvão. São, somos, de ‘outro país’, o que não quer dizer que não entendamos e que até possamos gostar deste. Calvão não era um ‘prisioneiro do passado’. Aí há 10 anos, em 2004, decidiu arrancar para a Guiné-Bissau com uma empresa destinada a empregar os seus antigos fuzileiros ou os seus descendentes. Fê-lo com outro combatente de África, o Francisco Van Uden, naquele espírito – também às vezes incompreensível para estranhos – de que os que gostávamos de África, não éramos necessariamente colonialistas opressores: gostávamos daquelas pessoas e daquelas terras. E continuámos ou voltámos a gostar quando de ‘nossas’ passaram a ser ‘deles’.”

A sua saída dos Jerónimos, altar da pátria imperial, levado por fuzileiros, recordava uma nau que se lança mais uma vez à aventura no mar das boinas azuis que o saudavam no exterior, em frente ao Tejo de onde saíram os nossos navegadores para dar novos mundos ao mundo, foi marcante. Os heróis não morrem.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aceitar o inaceitável


“Gone Girl” (vamos esquecer a tradução portuguesa do título) é o Fincher que esperamos, com Rosamund Pike num papel que lhe assenta que nem uma luva e um Affleck que até nem vai mal. Um thriller como deve ser, mas temperado pela ditadura mediática contemporânea, onde se passa de bestial a besta e vice-versa num esfregar de olhos, e com uma reflexão final: será que estamos dispostos a aceitar o inaceitável?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Do carácter

Os ciclos eleitorais habituaram-nos a que os candidatos prometem o que não podem, ou não tencionam, cumprir. Como vale tudo para vencer e a seriedade deixou de ser uma qualidade para se tornar um argumento descartável, uma vez chegados ao poleiro, aqueles que garantiram tudo fazer pelo “interesse nacional” – outro chavão tão em voga no discurso político actual – justificam-se com a “alteração das circunstâncias” e cedem aos interesses próprios, seja do seu partido, seja dos grandes grupos económico-financeiros que os suportam.

Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?

Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”

De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os bustos e as bestas


A esquerda par(a)lamentar indignou-se com os bustos de António Óscar Carmona, Américo Tomás e Craveiro Lopes inseridos numa exposição sobre a Presidência da República patente em São Bento. Nesta episódio dos bustos e das bestas, que de novo nada tem, os primeiros representam parte da nossa História, já os segundos continuam agarrados à sua classificação maniqueísta da política, onde se arvoram em defensores do “bem” contra o “mal”.

Sempre que estes polícias do pensamento regurgitam a verborreia habitual, lembro-me do que escreveu Julien Freund: “as sentinelas do antifascismo são a doença da Europa decadente.”

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Português do Império

A propósito da morte do Comandante Alpoim Calvão, escreveu ontem Jaime Nogueira Pinto no «Observador»: «É difícil para as gerações que vieram depois da Guerra e do Império compreender o ethos, a vida e o sentido da vida de homens como Alpoim Calvão. São, somos, de “outro país”, o que não quer dizer que não entendamos e que até possamos gostar deste.

Calvão não era um “prisioneiro do passado”. Aí há 10 anos, em 2004, decidiu arrancar para a Guiné-Bissau com uma empresa destinada a empregar os seus antigos fuzileiros ou os seus descendentes. Fê-lo com outro combatente de África, o Francisco Van Uden, naquele espírito – também ás vezes incompreensível para estranhos – de que os que gostávamos de África, não éramos necessariamente colonialistas opressores: gostávamos daquelas pessoas e daquelas terras. E continuámos ou voltámos a gostar quando de “nossas” passaram a ser “deles”.»

Alpoim Calvão (1937-2014)

Alpoim Calvão (1937-2014).

Partiu, ontem, o Comandante Alpoim Calvão, herói inultrapassável da Guerra de África, Homem completo, um dos maiores de Portugal. Requiescat in pace.

O funeral realiza-se amanhã para o cemitério dos Olivais, após a missa de corpo presente no Mosteiro dos Jerónimos. O velório terá início hoje, a partir das 17h. A missa de corpo presente está prevista para as 11h de amanhã, e o funeral sairá às 11h45 para o cemitério dos Olivais.