segunda-feira, 29 de setembro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

“Tropa não!”

O título deste editorial foi uma das palavras de ordem que mais ouvi nos últimos anos do liceu e nos primeiros da Universidade. Era um tema que mobilizava a juventude de então, que extremava as suas posições, acentuava a sua divisão, mas onde era fácil prever que o fim do Serviço Militar Obrigatório aconteceria mais cedo ou mais tarde.

A geração dos filhos do ‘baby boom’ marcellista, que no início dos anos 80 do século passado ouvia o contestatário Rui Veloso a cantar “eu não quero ir à máquina zero”, foi na sua maioria alistada na Reserva Territorial, devido ao excesso de contingente, no início da década de 90.

Neto de oficiais de diferentes ramos das Forças Armadas, sempre vi a instituição militar com respeito, considerando-a essencial para a salvaguarda da Pátria. Assim, bastante jovem, via com maus olhos os defensores do “tropa não!”, que eram principalmente motivados pela ilusão do conforto, recusando qualquer esforço e receando a dureza da recruta. Mais, a queda do Muro de Berlim era a justificação ideal para quem se queria convencer de que o mundo entrara numa era sem guerra.

Numa afirmação do que para mim fazia sentido, depois de me tornarem “reservista”, ainda tentei o voluntariado, mas a entrada – então difícil – no Ensino Superior ditou-me outro percurso de vida.

Naquele tempo, muitos viam a defesa do Serviço Militar Obrigatório como uma das causas que separava a direita da esquerda, mas esta simplificação binária era obviamente falsa. No início, era notório que tal campanha anti-militar vinha da extrema-esquerda, mas rapidamente passou para as juventudes partidárias. A direita parlamentar acabou por ser responsável, ou cúmplice, do fim da conscrição e apenas o PCP se opôs. Prova de que a defesa nacional não obedece necessariamente a posicionamentos político-partidários.

E hoje, que devemos fazer? Não acredito no regresso ao modelo que há dez anos abandonámos, mas há que lançar o debate e repensar a mobilização popular em defesa da Pátria.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Experiência

Ao vermos o percurso dos nossos políticos, imediatamente nos perguntamos qual a sua preparação e qual a sua experiência. De facto, ao olharmos para uma geração nascida e criada nas juventudes partidárias, com diplomas universitários que não passam de papéis de embrulho, normalmente sem qualquer trabalho concreto nos órgãos de poder, não podemos ficar descansados.

No entanto, não se pense que este é um problema contemporâneo. Podemos aprender a ser bons políticos? E como? Já na Antiguidade se punham tais questões, pelo que é útil recorrer aos clássicos.

Questionava Aristóteles, na sua “Ética a Nicómano”: “Será que tal como aprendemos outras perícias em especialistas nessas áreas, também podemos aprender a perícia legisladora junto dos que dominam o saber nas áreas do exercício do poder político? Ou será que não há semelhança entre a perícia no exercício do poder político e as restantes ciências e capacidades?”

Considerando que nenhum dos que proclamam ensinar a política a põe em prática, o filósofo grego afirmava que “não é pouco relevante o contributo dado pela experiência nestas matérias”. Por isso, “aqueles que aspiram ao saber em áreas políticas precisam de experiência”.

Assim, um político competente necessita de conhecimento teórico e de experiência. Mas será que basta? Tal pressupunha que quem nos governa fosse guiado por valores e zelasse pela prossecução do interesse comum nacional.

Ora, em especial nos tempos que correm, não podemos infelizmente partir desse princípio. Assim, para além da preparação obviamente necessária, a característica fundamental de um político deve ser a defesa da Pátria.

Portugal precisa de quem saiba de onde vimos e para onde vamos.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

À esquerda, o vazio...

Os “revolucionários” de Abril estabeleceram um maniqueísmo, simplista mas eficaz, para garantir que o novo regime fosse visto como o melhor de sempre. Antes estava tudo mal e o futuro seria necessariamente bom.

Se até se compreende que naquele tempo muitos aderissem a esta visão binária da História contemporânea de Portugal, em especial as cabeças sobreaquecidas pelo Verão Quente de 1975, quarenta anos depois é inacreditável que se insista no mesmo.

A esquerda cá do burgo, cúmplice do estado em que se encontra o País – nunca é demais recordá-lo –, há muito que repete incessantemente este discurso vazio. Na semana passada voltámos a ter dois exemplos deste recurso a um passado imaginado.

No discurso de inauguração de mais uma “Festa do Avante!”, o secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa, não hesitou em afirmar que “vivemos o período mais sombrio desde o fascismo”. Não é de espantar, vindo de quem vem, ainda por cima na habitual politização daquele que é considerado por muitos um dos mais antigos festivais de Verão em Portugal, que entretanto se tornaram moda.

Mas não são apenas os suspeitos do costume que papagueiam a cartilha do “antifascismo”. Também o secretário-geral do Partido Socialista, António José Seguro, cozinhou o seu discurso segundo a mesma receita, dizendo: “Estamos a assistir ao regresso de antes do 25 de Abril: serviços a fechar, extensões de saúde a fechar, tribunais a fechar e as pessoas a terem de emigrar novamente porque não têm sustento no interior do nosso país.”

As esquerdas, que se querem progressistas, são afinal estáticas. Agarradas a uma superioridade moral auto-atribuída, mantêm um discurso esgotado e a caravana (eleitoral) passa. A direita parlamentar agradece, mas vence por omissão alheia, já que também há muito esqueceu a Pátria.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 7 de setembro de 2014

“7 de Setembro de 1974: O último grito de portugalidade em Moçambique”

Há quarenta anos, no dia 7 de Setembro de 1974, um levantamento popular exigia que o povo moçambicano fosse ouvido em plebiscito, mas os golpistas de Abril desrespeitaram o previamente acordado e entregaram Moçambique à Frelimo. Clotilde Mesquitela (1924 – 2005) registou essa revolta no livro “7 de Setembro: Moçambique – memórias de uma revolução”, agora republicado pela Branco Editores e que foi lançado no passado dia 4 de Setembro, no Palácio da Independência, em Lisboa, apresentado por Adriano Moreira, Luís Fernandes, Eugénio Brandão e Óscar Soeiro. Aqui fica a entrevista a Pedro Mesquitela, filho da autora, que fiz para edição de «O Diabo» de 2 de Setembro de 2014.

Como devemos ver este livro?
Este livro deve ser visto como uma radiografia de um momento histórico, com evidentes componentes emocionais por parte da autora, mas sempre com uma visão de Portugalidade que é inegável, e, tanto quanto a memória lhe permitiu, um relato fiel do que realmente aconteceu em Moçambique entre 7 e 11 de Setembro de 1974.


O que levou ao levantamento popular de 7 de Setembro de 1974 em Moçambique?
Desde 1971 que se sabia que existia um movimento civil para dar uma autonomia progressiva às Províncias Ultramarinas Portuguesas, tanto na Metrópole (Ala Liberal, Sedes e parte da Igreja Católica) como nas províncias, através dos Democratas de Moçambique e de partidos locais como o FRICOMO. de Joana Simeão, e a Coremo, fundada por Uria Simango, que tinha sido Vice-Presidente da Frelimo na presidência de Eduardo Mondlane, e exilado depois do assassinato deste. Tanto a Coremo como a Fricomo defendiam eleições democráticas e multi-raciais, pelo que foram perseguidas e seus líderes mortos após o 7 de Setembro, ao serem entregues à Frelimo pelo governo da África do Sul.
Sabíamos também que existiam conversações via dirigentes de países vizinhos de Moçambique como o presidente Banda do Malawi e Kaunda da Zâmbia, envolvendo um enviado português (eng. Jorge Jardim), representantes do presidente da Tanzânia (Ex-Tanganica), Dr. Nyerere, e um assessor do Presidente Kaunda que fazia a ponte com a Frelimo (Mark Chosa).
Não vou aqui detalhar o esforço desenvolvido para se chegar a um acordo, chamado Programa de Lusaka mas vale a pena mencionar que as negociações eram do conhecimento das autoridades portuguesas, desde o tempo do Dr. Salazar, do Prof. Marcello Caetano e dos Ministros do Ultramar desde 1961 (Dr. Joaquim Silva Cunha e, depois, Baltazar Rebelo de Sousa). Sabíamos que mais cedo ou mais tarde a autonomia verdadeira e a independência chegariam. Só se devia decidir quando seria e negociar como seria o processo de passagem de bastão.

Em que consistia o Programa de Lusaka?
Este Programa de Lusaka, aceite pela Frelimo, era para ser desenvolvido em cinco anos, e, de acordo com o meu entendimento do que li em “Moçambique Terra Queimada”, de Jorge Jardim, tinha como pontos principais: Salientava as condições de harmonia racial e de justiça que proporcionariam à população de origem portuguesa ou a ela assimilável, melhoria de oportunidades para se integrar na nova nação; Reconhecia e louvava a política multirracial portuguesa; Encarava a formação de ampla “comunidade lusíada “ com a desejável participação do Brasil, na qual Portugal assumiria uma posição dominante; Conservava a língua portuguesa como “língua franca”; Assegurava a expansão da cultura portuguesa e a educação predominantemente de inspiração portuguesa; Preservava os interesses económicos e financeiros portugueses; As grandes potências não poderiam aproveitar-se do cessar da soberania portuguesa citando-se especificamente as potências comunistas; A Zâmbia, a Tanzânia e o Malawi afirmavam a sua orientação não comunista e asseguravam que nunca seriam “testas de ponte” para qualquer infiltração política do comunismo; A oportunidade para se concretizar a independência seria negociada logo que fossem acordadas as bases necessárias.
Este acordo nunca foi assinado oficialmente por Portugal, por razões que devem estar ligadas à personalidade e crenças profundas do Prof. Marcello Caetano, somadas a movimentos ligados ao grande capital português e elementos da chamada linha dura portuguesa, que se opunham à independência das Províncias Ultramarinas.
Em Novembro de 1973, após as eleições em Portugal, Baltazar Rebelo de Sousa, já Ministro do Ultramar, instruiu Jorge Jardim para “prosseguir uma política acelerada de autonomia , que aceitava , para desembocar na independência”.

Qual foi a posição de Marcello Caetano relativamente ao plano?
Nessa altura, o Prof. Marcello Caetano, não fez nenhum reparo ao plano. Menciono estes factos para explicar o clima que se vivia em Moçambique no final de 1973, pois a guerra tinha-se espalhado para o Sul do Sena, os ataques terroristas intensificam-se em Vila Pery e na Beira.
A população civil, vítima de um clima extremamente desfavorável em relação ao Ultramar que se vivia na Metrópole e da crescente campanha dos chamados Democratas de Moçambique, estava apreensiva e cada vez mais nervosa, pois sabia-se que estava em jogo o princípio da manutenção do Ultramar e se passaria para um regime de maior autonomia, que acabaria em independência. Mas acreditava-se que militarmente Moçambique não seria derrotado e que seria possível construir um futuro multi-racial em paz, com base em negociações sólidas que levassem em consideração os interesses de tantos que lá residiam e trabalhavam, alguns há mais de três gerações.

Mas aconteceu o 25 de Abril...
Sim. Inicialmente, o programa do MFA e o próprio General Spínola pareciam ter ideias parecidas àquelas do Programa de Lusaka, o que sossegou parte da população moçambicana.
Infelizmente, após a visita de Costa Gomes à Beira, em Maio de 1974, e, sobretudo, após a visita autorizada por Costa Gomes de uma delegação de “democratas” a Dar-es-Salam, em 23 de Junho, para se encontrarem com Samora Machel, ficou claro que os políticos chamados de esquerda portugueses de Moçambique presentes na reunião (José Craveirinha, Rui Nogar, Malangatana Valente, Matias M’Boa, Rogério Jauana e Jossefate Machel, irmão de Samora) não seguiriam os princípios acertados anteriormente.
Por essa altura deslocou-se a Lisboa uma delegação de políticos e representantes de partidos locais para conversar com Spínola e este sossegou-os quanto à garantia de defesa dos interesses e vidas dos moçambicanos.

Qual foi a acção da esquerda?
Em Junho acontece a primeira reunião em Lusaka com Samora Machel, onde acontece o famoso “abraço” de Mário Soares, e onde claramente Soares exclui a Coremo das negociações. Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve presente, insta Mário Soares a ir mais além no contexto da reunião, informando que as “nossas tropas” já estão “confraternizando por toda a parte”.
Em Julho de 1974 é publicada a Lei n.º 7/74 , assinada por Melo Antunes, que contrariava frontalmente não só o Programa do MFA, que tinha força constitucional, mas sobretudo o Programa de Lusaka, que tinha como objectivo a independência a prazo e a defesa e integração num novo país dos portugueses que lá viviam.
Tudo isto era sabido e publicado nos jornais diários de Lourenço Marques e da Beira, com os jornais de Direita e de Esquerda publicando cada qual uma versão e incendiando a opinião pública.

E a assinatura do Acordo de Lusaka?
A esperança dos portugueses que viviam em Moçambique estava assim numa espécie de montanha russa, em que um dia lhes davam certezas e no outro as retiravam. Podemos imaginar o clima que se vivia em Moçambique no início de Setembro de 1974. Em 4 de Setembro, foram a Lusaka negociar com a Frelimo Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Vasco Almeida e Costa, que obviamente não queriam nem respeitar o espírito do Programa de Lusaka nem o do Programa do MFA, mas sim e tão somente entregar a Província apenas à Frelimo para a completa, imediata e irrevogável independência, sem levar em conta as forças políticas locais nem os interesses ou vidas dos cidadãos portugueses.
O Acordo de Lusaka foi assinado formalmente entre o Governo português e a Frelimo em 7 de Setembro de 1974, ferindo tudo o que tinha sido dito anteriormente no Programa do MFA e pelos Generais Spínola e Costa Gomes.

O que se passou a seguir?
Após o 7 de Setembro, devo apenas mencionar que morreram nesses dias mais civis do que em todos os 10 anos de guerra anteriores. Criou-se um regime de terror, forças do nosso próprio exército (sobretudo oriundas da Metrópole) exaltaram os ânimos dos pretos contra os brancos “fascistas” e “colonialistas”. Houve uma debandada geral da população, e era a chamada lei 24/20: 24 horas para sair, carregando apenas 20 kg.
Os jornais da época estão cheios de fotografias e relatos do que foi a saída dos Portugueses. Mário Soares sugeriu até “atirar os brancos aos tubarões”!
Soldados negros de incorporação local, sobretudo das forças chamadas especiais são perseguidos e mortos tanto em Moçambique como em Angola e na Guiné. Portugal não soube proteger os Portugueses, abandonando-os à sua sorte.

Como é que o levantamento do 7 de Setembro foi visto?
Posso citar alguns exemplos do que se disse deste período, obviamente com visões diferentes.
No livro “O Fim do Império. Memória de um Soldado Português”, a propósito do 7 de Setembro e da população branca e negra que participou deste movimento, Ribeiro Cardoso usa adjectivos como, “nave de loucos”, “insanidade criminosa”, “gabarolas com microfones na mão”.
Já Henrique Terreiro Galha, em “Descolonização e independência em Moçambique”, dedica o seu livro “em Homenagem e à Memória dos homens e das mulheres e crianças que foram chacinados em Lourenço Marques em 9 e 10 de Setembro de 1974, dos milhares de vítimas torturadas e mortas nas prisões e nos ‘campos de reeducação’ de Moçambique após a assinatura do acordo de Lusaka , antes e depois da independência”.
Em entrevista à RTP, Melo Antunes, em Julho de 1999,pouco antes de morrer, afirmou: “Muitos responsáveis políticos portugueses têm dito que a descolonização foi a que era possível. Acho que não é assim. Considero que a descolonização foi uma tragédia. Foi uma tragédia a forma como a descolonização acabou por se realizar. Tal como a colonização o foi. Não assumo responsabilidade do que hoje lá se vive. Isso tem a ver com os movimentos e seus líderes. Assumo a responsabilidade das negociações para a descolonização não terem sido conduzidas de modo a evitar situações que acabaram por descambar naquilo que hoje existe nos ex-territórios portugueses africanos.”
Há também a declaração do major Manuel Monge, que foi peça importante em determinado momento no MFA: “De facto, a descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética , de seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses de Portugal, dos portugueses residentes nos territórios sob a nossa administração e contra os interesses das suas populações.”
O Coronel Pára-Quedista Sigfredo Costa Campos, comandante dos GEP de Moçambique, afirmou: “Prova-o a inequívoca intenção das forças internacionais no pseudo-revolucionário processo de Abril, desencadeado com o objectivo de nos impor o vergonhoso abandono dos territórios africanos, onde, além de termos causado o caos e a destruição, fomos co-responsáveis pela morte de milhares de pessoas. E ainda há quem despudoradamente afirme que a revolução de Abril foi uma revolução sem sangue.”
No discurso de posse do Governador Geral de Moçambique, em 11 de Junho de 1974, Henrique Soares de Melo afirmou: “O que hoje se entende por independência imediata seria a mais gigante negação dos ideais democráticos universalmente aceites e nos quais se inspirou o MFA.”
Por fim, no livro “País sem Rumo”, António de Spínola escreve: “A Frelimo estava consciente de que o seu poder residia essencialmente, não nas suas estruturas, mas na traição da esquerda militar portuguesa, disposta a impô-la ao povo moçambicano, proporcionando-lhe a organização político-militar que nunca conseguiria alcançar antes do 25 de Abril”.

O que foi para si o 7 de Setembro?
Como disse a minha mãe, foi o último grito de portugalidade em Moçambique.

Qual o propósito do livro?
Deixo a cada um tirar suas próprias conclusões, e espero que a leitura do livro “Moçambique 7 de Setembro” ajude, como documento biográfico, a possibilitar que um dia, com o distanciamento necessário que a História exige, se possa realmente escrever a verdade sobre o golpe do 25 de Abril e sobre a nossa descolonização.

Os dias do fim

Bandeira portuguesa no Rádio Clube de
Moçambique, em Lourenço Marques

O Miguel Freitas da Costa recorda hoje o 7 de Setembro de 1974 no "Observador": "Inesperadamente, foi em Moçambique que eclodiu uma revolta desta natureza e destas proporções contra a forma assumida pela ‘descolonização’ e não, por exemplo, como muitos contariam, em Angola. Durante três dias essa vaga alteou-se e chegou a pensar-se que chegaria à praia. Ao terceiro dia, abateu-se, para não mais se levantar, não sem que tivessem sido enviados a Moçambique representantes do Presidente da República, com novas promessas e garantias."

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Miopia política

É hoje regra aceite pelos nossos políticos que o que interessa é o imediato. Em nome de um pragmatismo de conveniência, sempre justificado com a pretensa salvação da Pátria, esquece-se um desígnio nacional.

Desta forma, a política portuguesa é vista ao microscópio. Não porque se pretenda maior precisão, mas porque tudo é decidido quase dia-a-dia e a pequenez dos seus intervenientes assim o exige. Os resultados são desastrosos. Veja-se, enquanto exemplo paradigmático, a forma como se foi hipotecando a soberania de uma nação multi-secular a troco de esmolas que permitem apenas a continuação da ilusão do conforto.

Das vergonhosas genuflexões aos enviados da ‘troika’ às tricas partidárias, que atingem um nível tão baixo que até custa a acreditar, os supostos representantes do povo atolam-se cada vez mais no pântano em que transformaram a governação.

Urge tirar a esta gente os óculos de vistas curtas, ou melhor, não deixar que gente que sem eles nada vê decida do nosso futuro. A responsabilidade não é apenas dos que agora lá estão, mas também dos que os deixam lá estar.

É claro que nem tudo cabe na definição de um projecto comum que nos mobilize, mas é necessário que a nau tenha um destino antes de nos preocuparmos com o estado do cordame. Uma nação de valorosos navegadores não pode andar ao sabor aleatório dos ventos, antes deve demonstrar a fibra e a tenacidade de outros tempos.

Nos dias que correm, fazem ainda mais sentido as palavras que o Embaixador Marcello Duarte Mathias escreveu no seu “Diário de Paris”, há mais de uma década: “O curto prazo é a única medida de tempo que determina hoje os políticos. Os nossos e os outros. Não os motiva um qualquer sentido de urgência, sofrem apenas de miopia. Hoje, governar é agir sem prever.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Frase do dia

«Costa e Seguro, ou Seguro e Costa, acreditam sinceramente que, a seguir a esta fantochada, os portugueses ainda votarão neles?»

Vasco Pulido Valente
in «Público»

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Thumos


"Que confiante na destreza de cavaleiro e na coragem
nenhum de vós pretenda combater os Troianos isolado
à frente dos outros; e que também não arrepie caminho,
pois sereis desse modo mais vulneráveis. Mas aquele que
consiga com seu carro aproximar-se do carro inimigo,
que se atire a lança, pois assim será muito melhor.
Foi desta maneira que os antigos destruíram cidades
e muralhas, tendo no peito este espírito, este coração."

Homero
in "Ilíada" (IV, 303-9).