domingo, 31 de agosto de 2014

Frase do dia

«Enquanto lisboeta regozijo-me por José Sá Fernandes ter a seu cargo os jardins. Suponha-se que lhe tinham dado rédea livre para as estátuas, cruzes, bibliotecas pejadinhas de livros ultrapassados?»

Helena Matos
in «Observador».

sábado, 30 de agosto de 2014

Joaquín Sorolla


Paseo a orillas del mar
1909, óleo sobre tela
205 cm × 200 cm
Museo Sorolla
Madrid, Espanha

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Das leis e da vida

Retrato de Knut Hamsun,
da autoria de Alfredo Andersen (1881).

«As leis primam sobre a vida? Não, é a vida que modifica as leis.»

Knut Hamsun

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Frase do dia

«A “representação” política é largamente uma ficção, mas uma ficção útil, a melhor que se descortinou até hoje para tentar harmonizar os interesses contraditórios que dividem todas as sociedades.»

Maria Fátima Bonifácio
in «Observador»

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

Jaime Nogueira Pinto é doutorado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, foi director do jornal “O Século”, administrador da Bertrand e actualmente é accionista e administrador de empresas na área da consultoria estratégica e da segurança privada. Autor de uma extensa obra, publicou recentemente “Novembro”, o seu primeiro romance, “Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder”, a sua tese, uma reedição do seu “Portugal – Os Anos do Fim” e o ensaio “Portugal – Ascensão e Queda”. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição do semanário «O Diabo» de 19 de Agosto de 2014.

No seu livro “Portugal - Ascensão e queda”, considera o nosso país como uma “nação singular”. Porquê?
É uma nação que tem, na sua História, o mais alto e o mais baixo. É ao mesmo tempo messiânica e comercial: fizemos fortuna com as especiarias da Índia, no século XVI, o açúcar do Brasil, no séc. XVII, o ouro e os diamantes também do Brasil, no século XVIII, e o café de Angola, no século XX. Destas quatro fortunas não nos ficou praticamente nada. Fomos um imperialismo original, “imperial”, mas pouco imperialista.

Porquê pouco “imperialista”?
Para os teóricos do imperialismo, o inglês Hobson e depois Lenine, o imperialismo era uma forma em que o poder político-militar e a dominação que garantia serviam para assegurar a exploração económica de outros povos. A dominação servia ao povo dominante para extrair as mais-valias do trabalho e dos recursos da terra, dos dominados, dos colonizados.
Com certeza que não fomos uns anjos do céu ou umas Madres Teresas de Calcutá. Tivemos de tudo, do mais repressivo ao mais generoso. Mas deixámos lá quase tudo: ficámos no Brasil para sempre e, em África, ajudámos a criar sociedades destribalizadas, miscigenadas, como em Angola e Cabo Verde.
Isto é menos sabido e repetido porque fomos vítimas de várias lendas negras: desde já, apanhámos por tabela com a “lenda negra” anti-espanhola que os ingleses, mestres na matéria, foram difundindo sobre as trevas do “papismo” dos países católicos. Isto apesar de tudo o que os povos peninsulares contribuíram para a Geografia, para a Cosmografia, para as ciências naturais e matemáticas dos séculos XV a XVII. Depois, fomos vítimas dos próprios espanhóis que com a “Monarquia Dual” nos trouxeram a inimizade dos seus inimigos e privilegiaram a defesa do que era deles e só deles.
Modernamente retomaram-se os clichés sobre a suposta inferioridade do Sul católico em relação ao Norte reformado. Ainda há pouco via isso num livro, aliás bem escrito, sobre o 27 de Maio em Angola de uma inglesa progressista. E temos, o que é pior, o autoflagelo dos nossos próprios intelectuais que acham chique repetir e exagerar os clichés anti-portugueses.

Qual foi o ponto alto da grandeza de Portugal?
O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque. É um tempo de excelência nacional, de uma dinastia luso-britânica em que uma sociedade nova, saída da guerra da independência, aproveita a circunstância peninsular e as crises de unificação da Espanha para ganhar massa crítica ultramarina e assim ficar pronta a enfrentar o futuro.
A sociedade portuguesa tem então liderança, apesar do choque de lideranças, como na crise que terminou em Alfarrobeira; tem um projecto e uma estratégia, que continuam com D. João I, o Infante D. Henrique, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. Isso resultou de uma convergência muito interessante de poderes e saberes políticos e religiosos, de uma mistura de interesses privados, curiosidade científica e sentido e razão de Estado.
O século sintetiza-se nos quatro heróis portugueses de Oliveira Salazar – o Condestável S. Nuno, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um refunda e defende o Reino, o outro concebe a Cruzada e a Descoberta, o terceiro faz a Viagem, o último faz a Conquista do Índico e do seu comércio.
Vem depois um meio século de aguentar – com uma interessante política de equilíbrio na Europa e os princípios da colonização do Brasil. A seguir é Alcácer-Quibir e a queda, em 1580.
Depois da glória, vem esse tempo ainda misto até ao desastre de Alcácer-Quibir e à ocupação filipina: aquilo a que, em termos dinasticamente correctos, se chamou Monarquia Dual.
Os grandes poetas e visionários como Camões e o Padre António Vieira tiveram a noção disto. O povo e a parte corajosa e marginal das elites – como D. João de Castro – viveram-no e, para sobreviver, valeram-se do mito Sebástico, uma forma de resistência e de activismo patriótico.
Fernando Pessoa recontou e reformulou esta História no século XX, com os seus mitos fundacionais, os seus heróis e protagonistas. E Eduardo Lourenço vem acompanhando, de modo crítico, o que deles ainda vive, vale e interessa.

Mas hoje estamos num "limbo virtual", uma "espécie de purgatório pós-moderno", como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

Como pode o nosso país recuperar a sua soberania e, como refere, restaurar a "a ideia do primado da Nação como valor político"?
Como? Talvez comece a ser possível, esgotado que começa a estar o discurso do individualismo enumerador de direitos, garantias e liberdades sem fim nem conta e de “direitos sociais” extraordinários mas nunca aplicados.

Se a União Europeia não sabe para onde vai, qual a solução? Outro modelo europeu?
A Europa tem que se repensar como espaço económico, e até financeiro, mas no respeito das suas nações, das suas pátrias. Isto vai acontecer naturalmente, à medida que as nações se libertam do conformismo e do imobilismo e se desfazem os slogans que pretendem reduzir o nacionalismo à agressão e à guerra, agora tão repetidos por ocasião do centenário de 1914.

O actual conflito na Ucrânia anuncia um confronto maior?
Pode degradar-se. Se não tivermos cuidado em reduzi-lo, isolá-lo e resolvê-lo, num diálogo aberto e franco com Moscovo, e reconhecendo que a NATO, com os seus entusiasmos pós-Guerra Fria e o seu apostolado democrático, perturbou o equilíbrio europeu às portas da Rússia, pode mesmo degradar-se. Não perceber que Putin não podia perder a Crimeia, é não perceber nada de História nem de Cultura da Europa e da Rússia.

Há quem fale numa nova Guerra Fria. Concorda?
Não. Na Guerra Fria, a União Soviética e os seus satélites queriam impor um modelo político-social ao resto do mundo e contavam com os partidos comunistas. Hoje não existe nada disso.

O papel dos EUA e da NATO como “polícias do mundo” está hoje fragilizado? Considera que a administração Obama mudou o paradigma norte-americano de actuação internacional?
Obama é, acima de tudo, um retórico que cultiva a forma. Tem uma oratória sedutora, mas, na maioria das vezes, ou até de conteúdos contraditórios, desprovida de conteúdo. Depois do apostolado democrático de George W. Bush, com as guerras do Iraque e do Afeganistão, perturbadoras, perdidas mas consequentes, Obama não quer nenhum tipo de intervenção.
Nessa medida, o caso da “linha vermelha” na Síria foi paradigmático e preocupante. O governo de Damasco trespassou-a e Washington aproveitou a intervenção russa para não cumprir o prometido. Há um modelo de “melhor governo”, a democracia liberal que os Estados Unidos conhecem e querem exportar, mas, ao mesmo tempo, há a preocupação de não correr o risco de ter guerras e de ter baixas. Como toda a contradição, numa grande potência, esta é preocupante.

Qual deve ser a posição de Portugal na força geopolítica que é a lusofonia?
Portugal está na posição, nem sempre fácil, de ser o pai ou a mãe que os outros, para se afirmarem, têm de matar ou, pelo menos, de tratar mal. Tem também, por força da História e da Geografia, condicionamentos constitucionais e políticos que os outros não têm.
Precisa, por um lado, de manter uma respeitabilidade de velho senhor, mas não pode dar-se ao luxo de, ao querer impô-la a todos, desencadear a crise e a ruptura.
E depois há o Brasil, muito grande para a CPLP, e que tem dificuldade em aceitar a igualdade de desiguais que ela pressupõe.

A importância das relações de Portugal com os países lusófonos deve sobrepor-se às relações europeias?
Fomos sempre – desde o século XV que o somos – europeus, marítimos e luso-africanos. Temos que equilibrar estas faces históricas, políticas e culturais da nossa realidade. A cegueira europeísta dos dirigentes da “jovem democracia” dos anos oitenta causou-nos muitos problemas. Hoje, na Europa, tem que se coexistir inteligentemente com outras faces e realidades do nosso modo de ser e estar no mundo. Equilíbrios estratégicos, coerentes e guiados por uma inteligente razão de Estado.

Como vê o papel da CPLP? É preciso outro modelo?
Os modelos são o menos. Este serve para fazer coisas boas, coisas más e coisas assim-assim. Até pode servir para não fazer coisa nenhuma. O importante é o espírito e a substância da política.

Há muitos países não-lusófonos que têm interesse na CPLP. A entrada da Guiné Equatorial pode anunciar uma nova fase desta organização?
A entrada da Guiné Equatorial foi polémica, como não podia deixar de ser. É bom ter capacidade e plasticidade para explorar novos caminhos, mas tem sempre que haver um certo decoro, um princípio director, algumas regras elementares. Dito isto, pode haver uma geometria variável de estatutos de participação a negociar e desenvolver, mantendo um mínimo ético de referência.


Voltando ao seu “Portugal – Ascensão e queda”, há um fio condutor que nos faz crer numa nova ascensão. Acredita que os defensores da “inviabilidade de Portugal” estão errados e que no futuro possamos afirmar-nos de novo como Nação?
Citando um português que muito admirei pelo seu patriotismo e pelo modo coerente e corajoso como viveu e defendeu as suas ideias, Alberto Franco Nogueira, não posso nem quero admitir um princípio de suicídio colectivo, a inviabilidade nacional.
Contra mim falo, ou contra o que fui em certo momento trágico da vida do país, no desfazer do Império, quando disse “Portugal acabou”. Penso que não acabou. Tenho a certeza. O que é interessante na modernidade é a prolixidade com que vemos reformularem-se e reformarem-se eternas categorias como o Bem e o Mal, o Útil e do Inútil, a Verdade e a Mentira e as possibilidades de recriação e renascimento quase das cinzas que se oferecem às comunidades. Vimos, há vinte e cinco anos, comunidades e nações da Europa Oriental submetidas e escravizadas pelo comunismo soviético, levantarem-se bruscamente, outra vez livres.
Com a lucidez de quem viu e viveu muitos desastres e tragédias, colectivas e pessoais, posso dizer que a esperança fica sempre, como aquela centelha esquecida no rescaldo da água e das cinzas, que animada, volta a pegar e a propagar o fogo. Caímos tão fundo, que as leis da física hão-de levar-nos para cima.

domingo, 24 de agosto de 2014

Frase do dia

"Nunca se interrogaram porque são negros os seguranças dos supermercados nos bairros da periferia? Porque a eles ninguém os acusa de racismo quando proíbem um determinado cliente de entrar ou lhe pedem para abrir o saco antes de sair."

Helena Matos
in "Observador"

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Bibliometro


Uma óptima descoberta que fiz no Metro de Madrid foi o sistema de empréstimo gratuito de livros Bibliometro, disponível em 12 estações e com um catálogo que pode ser consultado na Internet. Um exemplo a seguir.

sábado, 16 de agosto de 2014

Miopia política


"O curto prazo é a única medida de tempo que determina hoje os políticos. Os nossos e os outros. Não os motiva um qualquer sentido de urgência, sofrem apenas de miopia.
Hoje, governar é agir sem prever."

Marcello Duarte Mathias
in "Diário de Paris (2001-2003)"

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Ortografia

Cerca de 63 por cento dos professores cometeram pelo menos um erro ortográfico na Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidade (PACC), segundo foi divulgado na passada semana pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC). Apesar do caos gerado pelo Acordo Ortográfico, a maioria dos erros não se deveu a esta aberração imposta por uma decisão política irresponsável. Os números são, por isso, ainda mais preocupantes. Como esperar que os alunos saibam escrever correctamente quando a maioria dos professores não o sabe fazer?

Esta é uma situação que está longe de ser um exclusivo nacional. Em França, cada vez mais estabelecimentos de ensino superior impõem as estudantes um ditado colectivo para avaliar o seu nível de ortografia e de gramática. Os resultados revelaram um naufrágio linguístico – 60 por cento dos alunos demonstraram uma ortografia catastrófica, com uma média de 14 erros em 10 linhas de texto. As universidades portuguesas deviam começar a fazer testes semelhantes, se bem que não é difícil imaginar os resultados...

É óbvio que a solução deve começar no Ensino Básico, onde a aprendizagem da língua, em todas as suas vertentes, não deve ser descurada, transmitindo aos mais novos um conhecimento sólido e duradouro da nossa língua. No entanto, tendo em conta a extensão do problema, que atinge estudantes mais velhos e até professores, são necessárias outras medidas.

Há que encarar esta situação sem tabus, avaliando quem ensina e quem é ensinado, ao mesmo tempo que se criam plataformas de reaprendizagem em larga escala. Simultaneamente, devemos valorizar a importância da ortografia, académica e socialmente, tantas vezes desprezada.

Ortografia é uma palavra de origem grega que significa “escrita correcta”. Considerando que a língua, para além de uma forma de comunicar, é também uma forma de pensar, ao corrigirmos a nossa escrita estamos a estruturar o nosso pensamento.
Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“Só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens”


Pedro Massano é um autor de Banda Desenhada com uma extensa obra publicada que abrange vários temas. No campo da História destacam-se os dois primeiros tomos da trilogia “A Conquista de Lisboa” e, para a editora francesa Glénat e com argumento de Patrick Lizé, os dois primeiros tomos de uma trilogia inacabada, “Le Deuil Impossible”, que refere a vida de D. Sebastião. Recentemente publicou “A Batalha”, um álbum magnífico dedicado à Batalha de Aljubarrota. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia deste álbum?
Foi uma ideia da Fundação Batalha de Aljubarrota, que me abordou para o efeito.

Como foi a parceria com a Fundação Batalha de Aljubarrota?
Creio que foi exemplar. A Fundação percebeu que o que o álbum envolvia não era apenas ilustrar “a direito” as crónicas existentes. Num trabalho deste tipo, há sempre a necessidade – anterior aos primeiros esboços – de compreender, de forma crítica, tudo o que podemos encontrar sobre o assunto. Este é um primeiro aspecto. O outro é saber ler a iconografia das fontes coevas, quando existe, e adaptá-la ao que queremos contar. Um exemplo disto é, se considerarmos que o primeiro livro de armas digno desse nome é o do Infante D. Pedro – muito posterior aos factos relatados – a necessidade de percorrer o país, à procura de brasões gravados na pedra, anteriores ao sucedido. Outro, é a necessidade de saber pelo que optar de entre o material narrativo que existe, e filtrá-lo de acordo com o objectivo em vista. Por exemplo, em Fernão Lopes, há uma imensidade de “anedotas” que fazem todo o sentido na sua descrição. Se tivesse optado por incluí-las todas estaria, ainda, a desenhar. Ainda outro, porventura o mais importante. Numa história de que sabemos o fim e o princípio, como desenvolvê-la de modo a não maçar o leitor, respeitando escrupulosamente a cronologia?


Considera que há um interesse crescente na História de Portugal?
Gostaria de crer que sim. Acredito que só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens.

Esta é uma boa forma de fazê-la chegar aos mais jovens?
Confesso que nunca fiz, durante o meu percurso, uma grande distinção entre os mais e menos jovens. A minha principal preocupação quando inicio qualquer trabalho de Banda Desenhada, particularmente no que se refere a temas históricos, é perguntar a mim próprio “o que é que eu gostaria de saber sobre o assunto em questão”. É a partir daí que oriento toda a pesquisa e o desenvolvimento posterior. Só posso desejar que o leitor, mais ou menos jovem, não se sinta defraudado quando chegar à última página.

Mesmo assim, nota-se em “A Batalha” uma preocupação com as fontes e com as notas explicativas. Há nesta banda desenhada um preocupação com o rigor...
Isso tem a ver com o que deixei atrás. Quem, como eu, cresceu com o Estado Novo, levou com a respectiva ‘overdose’ de História de Portugal e da sua banalização. Do meu ponto de vista só há uma forma de combater isso: o rigor. E, num livro deste teor, feito para uma Fundação que tem como objectivo perpetuar uma das jornadas mais peculiares do nosso viver colectivo, a minha obrigação como autor é, dentro dos parâmetros do meu trabalho, fornecer toda a informação do modo mais correcto que me for possível. Por exemplo, ler as fontes castelhanas e o Froissart na língua e grafia originais.


Essa preocupação significa que há um público mais exigente?
Acredito que sim. Tenho tido a surpresa, ao longo da minha vida profissional, de ser abordado por pessoas com responsabilidades docentes e de investigação a nível histórico, e outros, que têm expressado a sua concordância e adesão ao meu trabalho. Só tenho, naturalmente, que lhes agradecer.

Foi autor dos desenhos de álbuns publicados no estrangeiro. Está pensada alguma tradução deste álbum?
Essa é uma pergunta que deverá dirigir à Fundação e ao Editor. É a eles que compete gerir o futuro do livro.

Tem algum projecto na área da História de Portugal em vista?
Espero ter agora oportunidade de acabar o terceiro tomo da “Conquista de Lisboa” de acordo com a crónica de Osberno e depois se verá.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Geopolítica para todos

Pascal Gauchon é um eminente geopolitólogo francês com provas dadas na sua carreira académica e numa extensa obra publicada. Este ano lançou a revista “Conflits”, que dirige, dedicada à Geopolítica em todas as suas vertentes, destinada ao grande público. Uma óptima notícia que se torna melhor pelo facto de a revista estar disponível nos quiosques portugueses.

Dizia Alain de Benoist, num opúsculo publicado em Portugal em 1978, pelas Edições do Templo, que a Geopolítica “é o ramo da ciência política que estuda a parte activa exercida pelo meio geográfico na determinação dos eventos políticos e históricos que afectem a população de um dado território. Por vezes tem sido chamada ‘geografia dinâmica’. Distingue-se ainda pela geografia política, uma vez que não trata somente da situação natural dos Estados e dos povos, mas também (e sobretudo) da maneira como essa situação natural influencia a sua formação e o seu destino”. Os anos passaram e esta disciplina entrou na moda, mas será que consegue escapar à superficialidade do imediatismo?

Felizmente, este é um dos objectivos desta nova revista, que consegue fazer uma reflexão de fundo sobre esta disciplina que permite ter um olhar sintético sobre o nosso mundo. Tal é o fundamento do “Manifesto para uma Geopolítica crítica” definido no primeiro número da “Conflits”. Uma revista que assenta em princípios sólidos e que não se destina apenas aos especialistas, mas também aos estudantes e ao público interessado e informado.

O segundo número, actualmente à venda, referente ao terceiro trimestre deste ano, tem como tema central “Os novos mercenários” e questiona se as sociedades militares privadas são os soldados da fortuna dos nossos dias. Num excelente ‘dossier’, podemos encontrar vários artigos sobre a origem e história dos mercenários, bem como sobre os actuais ‘contractors’, presentes na maioria das “operações de manutenção da paz”, e uma entrevista com o politólogo Georges-Henri Bricet des Vallons sobre o mercado da guerra no século XXI.

Destaque ainda para a entrevista com Lucio Caracciolo, fundador da “Limes”, a mais importante revista italiana sobre Geopolítica. Para além de um artigo sobre o Papa Francisco e a sua urbanidade, e um sobre os 800 anos da Batalha de Bouvines, podemos ainda ler vários artigos sobre os conflitos presentes, História, estratégia, actualidade e resenhas dos livros publicados.

Uma revista de excelência a não perder, para melhor compreendermos os desafios do mundo contemporâneo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Beleza


«Já se vai para a esgrima sem pensar na sua aplicação prática no campo da honra. Um sport, não é assim?... Nem mais nem menos do que uma aberração; como se, vejamos um exemplo disparatado, os sacerdotes oficiassem a missa em castelhano. Isso seria, por certo, mais actual, não é? Mais popular, se quiserem, mais de acordo com o correr dos tempos, não é certo?... No entanto, prescindir da bela sonoridade um tanto hermética da língua latina desvincularia aquele belo ritual das suas raízes mais entranhadas, degradando-o, tornando-o vulgar. A beleza, a Beleza com maiúscula, só pode residir no culto da tradição, no exercício rigoroso daqueles gestos e palavras que têm vindo a ser repetidas, conservadas pelos homens ao longo dos séculos... Compreendem o que quero dizer?»

Arturo Pérez-Reverte
in "O Mestre de Esgrima"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Último Homem


«Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezível, do que nem se poderá desprezar a si mesmo.
Olhai! Vou-vos mostrar o Último Homem:
"O que é amar? O que é criar? O que é desejar? O que é uma estrela?" Assim falará o Último Homem, piscando o olho.
A terra ter-se-á então tornado exígua, nela se verá saltitar o Último Homem, que apouca todas as coisas. A sua espécie é tão indestrutível como a do pulgão; o Último Homem será o que viver mais tempo.
"Descobrimos a felicidade", dirão os Últimos Homens, piscando o olho.
Terão abandonado as regiões onde a vida é dura; pois precisam de calor. Ainda armarão o próximo e se roçarão por ele, porque é necessário calor.
A doença, a desconfiança hão-de parecer-lhe outros tantos pecados; é só preciso ver onde se põem os pés! Insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens!
Algum veneno de vez em quando coisa que proporciona sonhos agradáveis. E muito veneno para acabar, a fim de ter uma morte agradável.
Trabalhar-se-á ainda, porque o trabalho distrai. Mas ter-se-á cuidado para que esta distracção nunca se torne cansativa.
Uma pessoa deixará de se tornar rica ou pobre, são duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado penosas.
Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa, todos serão iguais; quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicómio.
"Noutro tempo toda a gente era doida", dirão os mais sagazes, piscando o olho.
Ser-se-á sagaz, saber-se-á tudo o que se passou antigamente; desta maneira se terá com que zombar sem cessar. Ainda haverá querelas, mas depressa surgirá a reconciliação, com medo de estragar a digestão.
Ter-se-á um poucochinho de prazer durante o dia e um poucochinho de prazer durante a noite; mas reverenciar-se-á a saúde.
"Descobrimos a felicidade", dirão os Últimos Homens, piscando o olho.»

Friedrich Nietzsche
in "Assim Falava Zaratustra".