quinta-feira, 31 de julho de 2014

Rico anti-capitalista


Aquela fraude hollywoodesca chamada Michael Moore, conhecida pelas "posições anti-capitalistas e pela defesa dos desfavorecidos", viu revelado o seu vasto património devido ao seu divórcio e à consequente luta pela riqueza partilhada.

Mas esta contradição está longe de ser novidade. Vasculhando nos arquivos desta casa, encontrei uma passagem que o Eurico de Barros escreveu no «Diário de Notícias» há dez anos (o tempo passa...). Vale a pena recordar:

"Moore é milionário mas gosta de andar vestido como se pertencesse à classe operária, e berrou a sua solidariedade com «os trabalhadores do espectáculo franceses, todos os trabalhadores», concordando com Bové quando este disse que ambos estão envolvidos «numa luta comum contra a exploração». Depois de ter ido ver o povo em luta, Michael Moore voltou para o Hotel Carlton."

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O espectáculo não vai continuar


Nesta era em que o inglês domina como língua universal, muitos se esquecem de que a França continua a ser um grande produtor de cultura a não desprezar. Um desses reflexos é a existência de várias revistas de qualidade que escapam à ditadura cultural de esquerda. O exemplo máximo dessas publicações era “Le Spectacle du Monde”, uma revista mensal que também se vendia em Portugal, que se distinguia tanto pela forma cuidada como pelo conteúdo elevado e que contava com a colaboração de vários nomes sonantes, como François d’Orcival, Éric Zemmour, Patrice de Plunkett, entre outros.

Fundada em 1962 por Raymond Bourgine, jornalista e empresário da direita liberal não gaullista e favorável à manutenção da presença francesa na Argélia, tornou-se um ponto de encontro entre a direita patriótica e democracia cristã centrista. Vista pelos seus detractores como “reaccionária”, conseguiu juntar colaboradores de todo o espectro da direita. Bourgine quis fazer da sua revista uma “enciclopédia do mundo contemporâneo” e conseguiu-o. Mesmo depois da morte do seu fundador, em 1990, “Le Spectacle du Monde” manteve o mesmo espírito e qualidade.

Agora, depois de mais de meio século de vida, não será mais publicada. As razões apontadas pelo grupo editorial a que pertencia são as vendas insuficientes: os cerca de 30 mil exemplares vendidos por edição não chegam para garantir a rentabilidade do título. Mas, para além desta justificação, o Observatório dos Jornalistas e da Informação Mediática francês afirma também que a participação de figuras da chamada “Nova Direita”, como Alain de Benoist ou Michel Marmin, já não se adequava com a orientação do grupo, liberal e pró-Sarkozy.

Caiu o pano que anunciou o fim da melhor revista intelectual para o grande público da direita francesa. Este é um espectáculo que não vai continuar. Perdeu-se uma referência da direita e sem ela perdem a cultura francesa e europeia.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Utopia


«Deixei de acreditar nas utopias. Ou este mundo é uma espécie de incubadora na qual somos preparados para nascer para uma outra realidade melhor ou pior, ou não é. Em todo caso, o planeta parece observar uma temperatura média de estupidez, tirania, intemperança e preguiça; e isto produz uma espécie de alegria parcial e convulsiva em quem gosta. E parecia que este estado de coisas subsiste devido a certo equilíbrio de temperamentos. É provável que uma utopia só seja satisfatória para a minoria mais enérgica da espécie.»

Ezra Pound
in "Patria Mia".

domingo, 27 de julho de 2014

Outros tempos


Fachada do Liceu Rainha Dona Leonor, em Lisboa.

Para um Amigo que partiu.

Hoje lembrei-me dos tempos do liceu por tua causa e pelo pior dos motivos. O tempo e a distância não esbateram a amizade, assim o confirmámos graças à Internet. Mas o passado de todos é também de cada um e ganha cores próprias, umas bastante negras. Porque esses tempos foram os das certezas absolutas, mas também das asneiras monumentais; dos amigos sinceros, mas também da crueldade implacável da adolescência; do ritmo sempre apressado nos dias que pareciam não acabar. Até que tudo se inverteu, naquela que é talvez a maior partida que a vida nos prega, mas as recordações ficaram.

Estava convicto de que o nosso "bando dos quatro" se reencontraria num futuro não muito longínquo, em Alvalade, claro, no nosso bairro. Tal como num romance de guerra, onde velhos camaradas de armas se cruzam para um último copo. Mas não era mais que a minha imaginação turvada pelos livros e filmes que me acompanharam sempre. A realidade é mesmo diferente e pode ser decidida por nós. Não quiseste voltar. Nunca quiseste voltar ao sítio onde ficaste para sempre preso no tempo. Talvez por isso a partida fosse inevitável...

Numa das nossas últimas conversas, disseste-me: "Sempre achei que tínhamos algo essencial em comum: o prazer por saber e brincar com isso, e um sentido de humor em que valia realmente tudo - a rir, claro." Tínhamos.

Até sempre!


segunda-feira, 21 de julho de 2014

História no Brasil

A contrastar com as revistas brasileiras medíocres que se vendem em Portugal, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” é uma publicação de qualidade que se dedica à divulgação histórica, mas que não está disponível nas bancas portuguesas. As nossas distribuidoras bem deviam rever o que importam do outro lado do Atlântico.

Centrada na História do Brasil, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” destaca-se das demais publicações brasileiras por não recorrer a traduções ou a modelos importados e por ter entre os redactores vários historiadores responsáveis pela investigação dos temas tratados.

Bem paginada com uma composição gráfica apelativa, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” conjuga os conteúdos com a boa apresentação, oferecendo aos leitores artigos acessíveis ao grande público.

A edição de Junho deste ano tem como tema central a obsessão da república brasileira pelos grandes eventos e faz a pergunta incómoda: “Quem paga a conta?” Na apresentação deste ‘dossier’, Bruno Garcia refere-se à realização do Campeonato do Mundo de Futebol no Brasil, afirmando que a “Copa mais cara do mundo reforça experiência brasileira de sediar grandes eventos para favorecer poucos”.

De seguida podemos ler o artigo do investigador português do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa José Pedro Zúquete sobre os “black blocs”, os elementos da esquerda radical que utilizam uma táctica descentralizada e sem hierarquia para protestar violentamente contra o capitalismo e a globalização corporativa.

Destaque para o artigo sobre Georgina de Albuquerque, uma das precursoras brasileiras da pintura impressionista, e o artigo sobre a tradução da poesia clássica, grega e latina, no Brasil, nomeadamente o papel do patriarca da tradução criativa, Manuel Odorico Mendes, que inspirou Haroldo de Campos. De referir ainda os artigos sobre a relação entre o poder político brasileiro e o futebol, de entre muitos outros, para além das secções habituais. Por fim, para os interessados, a “Revista de História da Biblioteca Nacional” disponibiliza muitos dos seus artigos na Internet.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eternas saudades do futuro

Música, 2014.
Impressão a jacto de tinta sobre papel fotográfico | 70 x 86 cm | Edição: 3

Há dois anos, o regresso de João Marchante, com a excelente exposição “Foto-Síntese”, confirmou-o como um dos grandes talentos da fotografia contemporânea em Portugal. Agora, com “Educação Sentimental”, volta a surpreender numa viagem fotográfica por um passado que se torna futuro.

As doze peças que se adaptam perfeitamente ao espaço onde estão expostas são um tesouro revelado. Como se de uma adega particular se tratasse, João Marchante guardou vários trabalhos em Polaroid, que correspondem a várias épocas da vida e a diversas fases artísticas, para uma ocasião especial. A data das fotografias – 2014 – é, assim, a de quando atingiram a sua forma final e deleitam a vista, estimulando o nosso imaginário, como um vinho antigo, depois de abrir, aveluda as nossas papilas gustativas e aquece o espírito.

Não há neste conjunto uma colagem de imagens avulsas, mas uma unidade que se constrói num movimento que termina num recomeço anunciado. Há uma descida às profundidades do nosso íntimo – uma reviravolta interior. Da arquitectura nos planos elevados, passamos para o mar, para a terra e depois para a intimidade da casa, da mente, e, por fim, da imaginação do cinema, onde podemos sempre partir para mais um ‘take’.

O elo de ligação é o feminino, a mulher distante de quem nos aproximamos e pensamos conseguir domar. Uma ilusão tão bem expressa em “Pintura”, fotografia de tons lynchianos que nos transporta para um labiríntico jogo de espelhos. Nesta “educação” há uma sensação permanente do intangível, de que não é possível atingir o fim – ou, melhor, os fins.

Mesmo que haja nesta “Educação Sentimental” um ruir de ilusões românticas, como no romance homónimo de Flaubert, há a confortante promessa de um retorno, o que provoca umas eternas saudades do futuro.

A exposição, que inaugurou no passado dia 3 de Julho e estará patente até ao dia 27 de Julho, pode ser visitada na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, de terça a sexta-feira, das 10 horas às 17 horas, e aos sábados e domingos, das 11 horas às 18 horas, encerrando à segunda-feira e nos feriados.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Médien Zéro dedica emissão a Dominique de Roux


Hoje, às 20 horas portuguesas, será transmitido mais um programa do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, que será dedicado a Dominique de Roux, cuja vida de aventura entre a literatura e a política está ligada a Portugal, com a presença de 
Pierre-Guillaume de Roux, editor e filho do escritor, e Julien Meynaut.