segunda-feira, 30 de junho de 2014

Arrenda-se


A notícia de que dá que conta que, a partir de 1 de Julho, 23 monumentos históricos, entre os quais o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, podem ser arrendados para jantares, cocktails, eventos culturais, sociais e académicos, filmagens para televisão, cinema ou publicidade, merece-me a seguinte interrogação: Porque não arrendaram primeiro o Palácio de S. Bento e o Palácio de Belém para testar a medida?

domingo, 29 de junho de 2014

"Their country - the sea"


«He was a seaman, but he was a wanderer, too, while most seamen lead, if one may so express it, a sedentary life. Their minds are of the stay-at-home order, and their home is always with them -- the ship; and so is their country -- the sea. One ship is very much like another, and the sea is always the same. In the immutability of their surroundings the foreign shores, the foreign faces, the changing immensity of life, glide past, veiled not by a sense of mystery but by a slightly disdainful ignorance; for there is nothing mysterious to a seaman unless it be the sea itself, which is the mistress of his existence and as inscrutable as Destiny. For the rest, after his hours of work, a casual stroll or a casual spree on shore suffices to unfold for him the secret of a whole continent, and generally he finds the secret not worth knowing. The yarns of seamen have a direct simplicity, the whole meaning of which lies within the shell of a cracked nut.»

Joseph Conrad
in "Heart of Darkness"

sábado, 28 de junho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Frase do dia

«Pouca coisa revela tão bem a degenerescência burocrática dos partidos e a sua captura pela partidocracia do que o actual processo no PS.»

José Pacheco Pereira
in «Público»

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O imenso poder da banca

Depois do que se passou no BCP, no BPP, no BPN e agora no Grupo Espírito Santo, não é disparatado considerar que os “buracos” existem provavelmente em todos os bancos nacionais. Há dias fiz esta exacta pergunta a um amigo economista, actualmente aposentado, que ocupou durante muitos anos posições importantes na alta esfera financeira. Sem espanto, devo confessar, disse-me que era o mais certo.

Muitos dirão que aqui não há novidade, mas o que está em causa não é uma mera notícia. O problema de fundo é que as instituições bancárias têm vindo a revelar-se verdadeiros agentes nocivos para o País.

Depois de endividarem grande parte da população, atraindo as pessoas com um fácil acesso ao crédito ao consumo, imiscuíram-se na política conseguindo uma influência demasiada, gerando dúvidas sobre quem comandava realmente os nossos destinos. Ao mesmo tempo, foram os principais cúmplices da venda do País a interesses estrangeiros e serviram de canais de transmissão de dinheiro – muito dinheiro – de origem duvidosa.

A banca contribuiu directamente para a crise que nos afundou, mas acabou por lucrar com ela. Tudo com a conivência de quem devia zelar pelos interesses nacionais e pelos portugueses.

Apesar de tudo, os banqueiros continuam a beneficiar de uma certa impunidade, sofrendo apenas sanções leves. Não é de estranhar que venham a público mais escândalos, mas o seu desfecho será seguramente o mesmo daqueles que conhecemos.
Por fim, a forma como os bancos gerem o dinheiro que não é deles mostra bem do que são capazes. É uma questão de falta de escrúpulos e de falta de respeito por quem lhes confia as suas poupanças.

A alteração do sistema bancário, nomeadamente pela sua responsabilização, não esquecendo o fim da promiscuidade com a política, é um passo essencial para um país mais justo e soberano. Mas, infelizmente, é um passo demasiado grande para as pernas dos que actualmente nos governam...

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Futebol?


O contraste da avalanche de anúncios publicitários comerciais com a selecção, para não falar dos estéreis programas de debate futebolístico, choca com a prestação da selecção nacional e com a atitude dos seus jogadores. Há um aparente ambiente de festa que não corresponde à realidade. Tendo em conta que a selecção representa supostamente Portugal, é impossível resistir a comparar esta situação à do País. De facto, perante uma propaganda de retoma e até de sucesso económico, sabemos que a crise continua presente e que as coisas não vão melhorar tão cedo. Afinal, talvez o futebol reflicta bem o mundo de aparências que é a política nacional.

sábado, 21 de junho de 2014

Reatar


Celebrar o Solstício de Verão é, antes de tudo, o reatar de uma festa ancestral e várias vezes milenária. Mas não se trata de proceder à maneira dos arqueólogos e dos etnógrafos. Esta celebração não é uma reconstituição. Deve ser viva e alegre, em harmonia com o tempo presente.

Reatar é voltar a encontrar o fio perdido. É voltar às origens da nossa comunidade de cultura e de civilização. A este respeito o Solstício de Verão possui um valor exemplar. Durante vários séculos sofreu as consequências da sufocação que o cristianismo lhe quis impor, para acabar por ser tolerado sob a festa de S. João. No entanto, um pouco por toda a parte, nas terras da Europa, os fogos solsticiais mantêm-se e renascem, testemunhando a dedicação dos nossos povos a uma certa concepção do mundo. A festa solar volta a inserir o homem no seu quadro cósmico. Reatar com esta festa da Europa mais antiga é afirmar a nossa fidelidade à herança ancestral e, através desta, à nossa identidade.

Nesta segunda metade do século XX, o Solstício de Verão conserva uma dimensão fundamentalmente comunitária. Continua a ser o momento privilegiado para, junto da fogueira de chamas claras, o indivíduo voltar a encontrar o seu clã.

Philippe Conrad
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A tirania do conforto

“Hoje, os insignificantes tornaram-se os senhores, todos pregam a resignação, a acomodação, e a prudência e a aplicação, e as considerações, e todo o extenso ‘et caetera’ das virtudes miúdas”
Friedrich Nietzsche


Muito se fala da falta de credibilidade da classe política actualmente no poder, daqueles que, saídos directamente dos viveiros partidários, enchem a boca de “interesse nacional” enquanto vendem a retalho um País corroído pelo crédito desenfreado, pela miséria mais ou menos escondida e pelo abandono. São os chantres do “equilíbrio” e da “estabilidade”. Os condutores de um automóvel parado que se julgam no comando das operações, quando na realidade estão a ser transportados num cargueiro de pavilhão estrangeiro.

Mas a ilusão destes “pulhíticos”, como tão bem lhes chamava o saudoso Rodrigo Emílio, submissos às grandes empresas que canibalizam o Estado, projecta-se também para baixo.

Não vivemos hoje na terra das pequenas invejas e dos ódios bacocos? Um país de memória curta, toldado pela superficialidade, que premeia a mediocridade e fomenta a hipocrisia e a corrupção? Está assim garantida a fertilidade do pântano do qual parece que não conseguimos sair.

Por isso, vinga por cá a política de baixos salários – em nome da competitividade, garantem os “especialistas” – que qualquer dia não se distinguirão dos cheques de rendimento mínimo garantido.
Papagueando o refrão da cantiga dos tudólogos televisivos de fim-de-semana no café da esquina, os ignorantes crêem-se participantes num debate, numa intervenção cívica, sem se aperceberem de como estão anestesiados.

Mas a crise, enquanto começo, pode despertar os que têm apego à vida e que se recusam a ser autómatos. A diferença é feita pelos que têm a coragem de se libertar da tirania do conforto aparente. Homens que no seio da sua comunidade cumprem o dever pátrio da defesa dos seus.

O futuro de Portugal será garantido pelos portugueses que não se esqueceram de onde vêm.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os livros de Kurtz


No final do magistral "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola, quando o Cap. Willard encontra o Col. Kurtz, há uma cena em que se vêem dois livros do Coronel. São eles, "The Golden Bough", de Sir James Frazer, e "From Ritual to Romance", de Jessie Weston, duas das grandes influências do poema "The Waste Land" (1922), de T.S. Eliot, editado por Ezra Pound.

A inclusão destes livros não é obviamente inocente, já que a versão original de "The Waste Land" abria com a seguinte citação de "Heart of Darkness" ("O Coração das Trevas"), o romance de Joseph Conrad em que John Milius se inspirou para escrever o argumento do filme: «Did he live his life again in every detail of desire, temptation, and surrender during that supreme moment of complete knowledge? He cried in a whisper at some image, at some vision, – he cried out twice, a cry that was no more than a breath — "The horror! The horror!"» Porém, a ligação entre o poema de Eliot e o livro de Conrad não se fica por aqui. No início de "The Waste Land", há um verso que é visto como uma antítese ao livro de Conrad: "Looking into the heart of light"  uma clara oposição a "heart of darkness".

As referências de Eliot a esta obra de Conrad repetem-se no poema "The Hollow Men" (1925) — que Kurtz lê numa cena do filme , que abre com a frase "Mistah Kurtz — he dead".

Por fim, para os interessados, diga-se que tanto "The Golden Bough" como "From Ritual to Romance" estão disponíveis gratuitamente para o Kindle.

A actualidade de um centenário


A propósito do centenário da Primeira Guerra Mundial, Robert de Herte recorda, no editorial de mais uma excelente edição da revista francesa “Éléments”, que este conflito “não se pode compreender a não ser pelo olhar da evolução histórica do capitalismo que está sempre à procura de novos mercados”, acrescentando que “o capital se vira regularmente para a guerra quando não há outro meio de fazer progredir a sobre-acumulação que é a sua razão de ser”.

No ‘dossier’ desta edição está em questão se o futuro do Velho Continente deve ser a “Europa mercado ou Europa potência” e, na abertura, Felix Morès conclui que “o eixo horizontal da construção de um grande mercado opõe-se ao eixo vertical da construção de uma potência política. Convém, consequentemente, separar a Europa política da Europa económica”. Dos vários artigos há a destacar “A audácia de um Estado federal europeu”, de Gérard Dussouy, “União Europeia, a objecção democrática”, de Éric Maulin, “O império, uma ideia muito antiga e muito nova”, de Pierre le Vigan, “É preciso sair do Euro?”, de Éric Maulin”, e “A união transatlântica: a grande ameaça”, de Alain de Benoist.

Como se não bastasse a qualidade do ‘dossier’, esta edição presenteia-nos com um texto de Ernst Jünger, inédito em francês, intitulado “Inclino-me diante dos que tombaram”, uma alocução proferida em Junho de 1979, enquanto convidado de honra das festas comemorativas de Verdun. De seguida, Julien Hervier, amigo, tradutor e editor de Jünger, desvenda as vulnerabilidades deste “homem de mármore”, numa entrevista concedida a Alain de Benoist. Por fim, Laurent Schang recorda o dia 25 de Abril de 1915, a partir do livro de Bernard Marris “L’Homme dans la guerre”, quando Jünger e Maurice Genevoix, combatentes em lados diferentes da Batalha de Les Éparges, foram feridos.

A abrir a revista, há ainda uma entrevista com Robert Redeker, filósofo e investigador, a propósito da publicação do seu ensaio original “Le soldat impossible”, sobre o desaparecimento do soldado no imaginário europeu. Redeker afirma que “só a guerra pode ressuscitar a política”.

Por fim, é de referir o artigo de François Bousquet sobre o “novo capitalismos criminoso” e a habitual secção “Cartuchos” com criticas a livros, o “Diário de um cinéfilo”, de Ludovic Maubreuil, e a “Crónica de um fim de mundo sem importância”, de Xavier Eman.

Uma revista que, apesar da sua longevidade, nunca perdeu a actualidade e importância no combate pelas ideias, essencial para a civilização europeia.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Uma profissão em vias de extinção?

A crise da Imprensa não é novidade, mas a notícia da vaga de despedimentos na Controlinveste impressionou-me. Pior, incomodou-me. O jornal mais afectado deste grupo foi o “Diário de Notícias”, uma publicação histórica onde tenho vários amigos.

Falei com dois deles. Um foi despedido e o outro ficou, mas as preocupações de ambos coincidem. Discutimos o futuro dos jornais em Portugal e nenhum de nós acredita que seja positivo. Será um pessimismo inflamado pela actual situação? Seguramente, mas a questão é muito mais profunda.

A Imprensa também sofre com um regime onde os “gestores” ascenderam a uma posição de casta superior. Estes especialistas em “investimentos” com dinheiro alheio, para quem vender jornais é o mesmo que vender batatas, vêem a vida em números. E vão mais longe, quando vêem vidas como números. O meu amigo que perdeu o emprego, em tom de desabafo, confidenciou-me que já lhe tinham chamado muita coisa, mas nunca o haviam tratado como “massa salarial excessiva”. Os excessos, como mandam as dietas estivais da moda, são para eliminar. Os cortes são sempre justificados e a lógica implacável da linha de montagem (como se o princípio de Henry Ford se aplicasse à produção intelectual...) nivela as empresas, segundo uma cartilha escrita em inglês e decorada nos MBA.

Não é assim de estranhar que uma das áreas mais desprezadas seja a cultura, nestes novos jornais que se querem económicos, tanto no custo de produção como nos temas tratados.

A esse propósito, que acontecerá ao Arquivo do “DN”, que alberga 150 anos de História de Portugal? E ao belo edifício de Pardal Monteiro? Bem sei que está classificado, mas o Éden de Cassiano Branco também e veja-se o que lhe fizeram...

Dois amigos enfrentam o futuro incerto da Imprensa. O que foi despedido disse-me: “jornalista é uma profissão em vias de extinção”. Não quero acreditar, apesar da progressiva desvalorização a que temos assistido. O que ficou, convencido de que lhe cabe a ingrata tarefa de “fechar a porta”, reconheceu que nunca tinha considerado a possibilidade do fim do “DN”, mas agora cada vez mais o vê como uma certeza. Uma Imprensa livre é fundamental para uma sociedade informada e crítica. Exijamo-la.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 10 de junho de 2014

Caídos pela Pátria

O Dia de Portugal é o dia da morte de Camões. O que se assinala – e bem – não é um desaparecimento, mas o génio que continuou. Assim, a homenagem aos combatentes que se realiza anualmente em Belém faz todo o sentido.

Ao recordarmos os que caíram pela Pátria – por todos nós – estamos a preservar um espírito nacional que não pode morrer. Uma chama de perpetuidade que deve ser alimentada pelas novas gerações.

No entanto, a era do conforto e da paz aparente em que vivemos não é propícia a tais valores. Para muitos, a Pátria é algo ultrapassado e a guerra vê-se na televisão. Há quem queira que assim seja, para que se destrua Portugal.

Nessa sanha, desvaloriza-se quem lutou devido às inovações tecnológicas militares que alteraram drasticamente os conflitos no século passado.

Opinião contrária tinha Ernst Jünger, escritor e combatente nas duas Guerras Mundiais, que nunca retirou da sua experiência a conclusão amarga da inutilidade do heroísmo pessoal na guerra moderna, escrevendo: “Temos batalhado na lama e no sangue, mas o nosso rosto sempre se voltou para as coisas de alta e suprema valia e nenhum dos que perdemos durante os combates caiu em vão.”

Por fim, há quem não se canse de utilizar o falso argumento da conotação ideológica. No caso português, tal é notório em relação aos que se bateram na Guerra do Ultramar.

Esquecem-se tais “críticos” que se Portugal existe enquanto nação secular o deve aos que lhe dedicaram o sacrifício máximo, dando a vida por algo maior.

A eles devemos estar agradecidos, combatentes de todas as eras, que caíram pela Pátria para que a nossa bandeira continuasse hasteada.

Em mais um 10 de Junho, passemos de novo o testemunho geracional e honremos os nossos heróis.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Festa do livro

No passado sábado fui pela primeira vez este ano à Feira do Livro de Lisboa, em dia de enchente e de calor. Foi um passeio em família, continuando o hábito que os meus pais tão bem me transmitiram.
É sem dúvida revitalizante, passear entre livros, folheá-los, descobrir aquele que nem sabia que estava à procura. E durante o passeio encontrar um sem número de amigos e gente conhecida, muitos dos quais não via há muito.

Para muitos de nós, a Feira do Livro é algo de que nos lembramos desde tenra idade. Um dos primeiros contactos com a leitura que perdura e nos faz regressar todos os anos, até ao dia em que é com os nossos filhos. Quer dizer que cumpre, para além de uma função comercial, uma importante função cultural.
A multidão de várias gerações que se ali se congrega anualmente deve encher-nos de esperança. A sociedade dos ignorantes, nivelada por baixo, não é uma fatalidade. É possível e necessário contrariá-la. O amor aos livros e à leitura não está morto, como querem os pessimistas do costume ou os futurologistas que desconhecem as nossas raízes.

É certo que para grande parte da geração do conforto do imediatismo, ritmada pela instantaneidade do ‘zapping’, a leitura de um livro parece, à primeira vista, algo ultrapassado. Mais, surge como um exercício pesado que aparenta ser um esforço prolongado do qual não se obtém qualquer benefício. No entanto, como tão bem sabe qualquer leitor, para além da aprendizagem inerente à leitura esta proporciona um prazer que, depois de experimentado, não conseguimos abdicar. Um momento nosso onde viajando por outros mundos e conhecendo outras realidades nos conhecemos melhor a nós próprios.

A Feira do Livro continua a ser uma referência incontornável nos ritmos de Lisboa e um importante acontecimento cultural a continuar. Deve ser sempre uma festa do livro e não cair na tentação de se tornar um centro comercial a céu aberto.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».