quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tudo como dantes

Se a esperança que as eleições para o Parlamento Europeu mudassem alguma coisa a nível nacional era mínima, para não dizer nula, impõe-se uma reflexão sobre mais um acto eleitoral que tantos querem classificar como diferente, mas que fundamentalmente nada mudou.

Os socialistas conseguiram a sua vitoriazinha e a ela ficarão agarrados. Não serve para “deitar abaixo” o Governo, como eles tanto desejavam, mas garante por enquanto a sobrevivência de António José Seguro, como fraco líder da Oposição.
A coligação governamental sofreu o castigo esperado, mas minimizará sempre o sucedido.

Os comunistas, que ganham sempre, saíram-se bem e conseguiram atrair o voto dos descontentes à esquerda. Neste caso, não deixa de ser significativo, já que foram os únicos eleitos que apresentavam um discurso crítico em relação à União Europeia.

O Bloco de Esquerda continua na sua fase descendente e a fractura da extrema-esquerda, provocada ironicamente por intenções de união, tende a agravar-se.

A novidade foi a eleição de Marinho e Pinto, que polarizou o descontentamento de muitos portugueses, apesar do seu discurso europeísta.

O grande vencedor, sem surpresa, foi a abstenção, que atingiu a percentagem mais alta nestas eleições. Para além de mostrar o que os portugueses pensam em relação à sua representação na União Europeia, faz com que todas as “vitórias” cantadas sejam pírricas.

O que se regista, enquanto a política nacional continua nas suas tricas internas, é que Portugal, apesar de intervencionado e sujeito a duras medidas de austeridade, continua a eleger os mesmos.

Não nos iludamos, com os eurodeputados agora eleitos nada mudará no que respeita à afirmação do nosso país nas instâncias onde hoje se decide o futuro de Portugal. Infelizmente.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Pátria não se vende


As fotografias de membros do Governo num novo parque de diversões alusivo aos Descobrimentos são uma bela imagem da perigosa brincadeira que está em curso.

Portugal é um Estado falido, depois da ilusão de anos de crédito que nos colocou numa situação de dívida asfixiante e infinita, que vê lá fora a sua salvação. Depois da emigração em massa começou a venda do País a interesses estrangeiros, das grandes empresas às habitações de luxo, passando pelos chamados “vistos dourados”.

É claro que não podemos, nem devemos, estar “orgulhosamente sós”. Mas o que é insustentável é que nos tornemos “submissamente deles”. Infelizmente, é exactamente esse o triste filme a que estamos a assistir.

Durante períodos da nossa História curvámo-nos bacocamente à pretensa superioridade de tudo o que vinha de outras paragens. Mas nem sempre foi assim. Mostrámos por diversas vezes o génio que outros invejaram e triunfámos onde se pensava impossível.

Mas o tempo actual é o da mediocridade, o dos negócios acima da política. Pior: do negócio que se tornou a política. Assim, não é de estranhar que tudo se possa vender...

Veja-se o caso das próximas eleições para o Parlamento Europeu, único órgão da União Europeia eleito directamente. Grande parte dos portugueses ignora-as, como se vê pelas elevadas taxas de abstenção, e os políticos da nossa praça usam-nas para os seus jogos habituais. Freitas do Amaral, por exemplo, afirmou que os portugueses vão aproveitar o voto nas europeias para mostrar “um cartão amarelo muito forte, talvez com tons encarnados, ao Governo”. A terminologia futebolística cai bem, já que no dia anterior Lisboa será inundada por espanhóis, espectadores de uma final da mais alta competição de clubes europeus da modalidade.

Tudo é um jogo? Tudo se vende? Não! A Pátria não se vende e o nosso futuro não pode ser uma mera aposta no casino daqueles que apenas ambicionam o lucro fácil. É tempo de acabarmos com a brincadeira.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O caminho da Europa

Começou a campanha para as próximas eleições para o Parlamento Europeu e o desinteresse generalizado da população, em Portugal e não só, agrava-se. Mais uma vez, espera-se uma elevada abstenção.

Esta atitude não é de estranhar, já que a União Europeia foi decidida nas nossas costas, a troco de subsídios e créditos que encheram alguns e calaram tantos outros. A maioria dos portugueses, como de outros europeus, não se sente representada por eurodeputados, esses peões de um directório cada vez menos democrático de uma superstrutura longínqua e incompreensível. Assim sendo, votar para quê?

Por cá, os políticos nacionais insistem em confundir este acto eleitoral com os assuntos internos e a eternas tricas partidárias, em total desrespeito pelas instituições e pelos eleitores. Mas tal não é de estranhar, pois interessa-lhes a manutenção do conveniente ‘statu quo’. Por isso ligam prontamente as sirenes do alarmismo em relação aos chamados “eurocépticos”, que há para todos os gostos, por temerem uma ameaça de mudança, ainda que ténue.

Por muito que cresçam as vozes contra esta torre de Babel cada vez mais incompreensível, não será no próximo escrutínio que veremos uma alteração significativa. Mas pode ser um sinal. O voto pode, afinal, marcar a diferença?

Não há aqui qualquer sentimento anti-europeu. Não caiamos na armadilha semântica de quem vive no clube dos salários chorudos e das pensões garantidas.

A Europa é uma civilização de génio e singular. É a nossa matriz – a “estrutura de pequenas nações”, como escreveu Ortega y Gasset –, que não apaga as identidades das pátrias carnais. Não é a União Europeia, covil de burocratas e abstracção política de base económica, que nos faz europeus.

O caminho da Europa é o da nossa História comum e somos nós que o fazemos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A defesa da nossa Civilização

A partida de Vasco Graça Moura, figura ímpar da cultura nacional, tocou-me especialmente. Li-o e citei-o, concordei e discordei dele, mas aprendi sempre muito. Foi até ao fim um lutador incansável. Bateu-se pela Língua, pela Cultura, pelos valores da Civilização Europeia.

Em 2011 entrevistei-o para o nosso jornal sobre o famigerado Acordo Ortográfico. Um combate comum, do qual nunca desistiu, mesmo contra aqueles com quem havia ladeado politicamente.

Defensor acérrimo da Língua portuguesa, criticou ferozmente “o ‘eduquês’ de serviço”, que segundo ele “ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal”. Recordou por isso “o prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa”, que “deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar” para contrariar a crescente ignorância nacional. Nesta “promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários”, Vasco Graça Moura salientava que “não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas”.

Mas não se veja aqui uma mera preocupação intelectual. Homem de elevada erudição, denunciava as várias ameaças à nossa Civilização, tomando posições hoje consideradas “politicamente incorrectas”, como a oposição à adesão da Turquia à União Europeia. Alertou também para “o risco de a imigração ultrapassar completamente a vida e a mentalidade dos europeus” na defesa de “aquilo que é essencial”, ou seja, a “civilização e cultura a que pertencemos e em que crescemos, que contêm um conjunto de valores que deve ser preservado a todo o custo”.

O combate pelo essencial foi a melhor lição deste homem da cultura, que nos mostrou que a beleza das letras e das artes é inseparável do nosso maior objectivo político – a defesa da nossa Civilização.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Crime na Inglaterra rural


As primeiras temporadas de “Midsomer Murders” estão a ser transmitidas em Portugal pelo canal Fox Crime e são uma viagem à Inglaterra rural através das investigações do Inspector-chefe Barnaby (John Nettles) e do Sargento Troy (Daniel Casey). Uma série de grande sucesso em vários países que há uns anos não escapou a uma polémica politicamente incorrecta...

Esta é uma série televisiva britânica que existe desde 1997, baseada nos livros de Caroline Graham, segundo a adaptação original de Anthony Horowitz. A acção desenvolve-se no condado ficcionado de Midsomer, onde a principal povoação é Causton, uma comunidade aparentemente pacata mas onde não deixa de haver homicídios.

Todo este cenário está muito bem construído e as diferentes realidades locais bem representadas, com uma separação de classes sociais que ainda existe e os hábitos e o ritmo da província. À dupla de detectives cabe investigar casos onde os motivos vão da traição conjugal às heranças, passando por outros mais elaborados. Apesar do tema central ser o crime, tudo se passa num ambiente familiar, onde não falta uma pitada de humor.

Como não podia deixar de ser, Midsomer está a milhas de Londres, não só em distância como em aparência, já que aqui encontramos a Inglaterra como a conhecíamos e não o país “multicultural” que vemos hoje nos noticiários.

No entanto, apesar do grande e prolongado êxito da série, esta característica começou a ser alvo de críticas. Em 2011, Brian True-May, o produtor executivo, questionado por uma revista acerca da inexistência de “diversidade racial” no elenco respondeu que não fazia sentido incluir minorias étnicas porque, assim, Midsomer deixaria de ser “o último bastião da englishness”. True-May afirmou na altura que “talvez não fosse politicamente correcto” e, de facto, as consequências não se fizeram tardar. A ITV suspendeu-o e só o readmitiu depois de ele ter feito um pedido público de desculpas. Mesmo assim, True-May deixou de ser o produtor da série. O resultado desta polémica foi a inclusão de uma família indiana na 15.ª temporada.

Nesta Inglaterra ficcionada o bastião da ‘englishness’ caiu, mas na Inglaterra real já caíra há muito...

sábado, 3 de maio de 2014

“Em cem anos a sociedade portuguesa mudou em quase tudo”

Ricardo Marques é jornalista e autor de vários livros, como “Moçambique: o Regresso dos Soldados”, “Assim Matam os Portugueses” e “Os Fantasmas do Rovuma”. Publicou recentemente “1914 – Portugal no ano da Grande Guerra”, um retrato abrangente da sociedade portuguesa de então, ilustrado com os factos, as curiosidades e s estatísticas da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto e até do crime. Aqui fica a entrevista que fiz para a edição de «O Diabo» do passado dia 15 de Abril.

Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.

O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.

Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…

Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.

Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.

Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.


Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…

Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.

Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.

Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.

O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Comandantes


O caso do naufrágio do ‘ferry’, que causou pelo menos 187 mortos, na Coreia do Sul, fez com que o primeiro-ministro, Chung Hong-won, apresentasse a sua demissão, na sequência das críticas à gestão da crise. Mas o que mais chocou as pessoas foi o facto de o comandante do navio o ter abandonado, tentando passar despercebido entre os sobreviventes para salvar a sua pele. A sua atitude faz lembrar a do comandante do navio de cruzeiro Costa Concordia. É um sinal dos tempos, quando os comandantes deixam de o ser e revelam, na ausência da honra e do sentido do dever, uma cobardia assassina. Faltam comandantes. E não é só no mar...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O discurso de Marco António

Marlon Brando, no papel de Marco António,
em "Júlio César" (1953), de Joseph Mankiewickz.

«Frontaria da Assembleia Nacional. Manhã cinzenta e triste. A multidão sussurrante transborda do grande largo. Trazendo nos braços um corpo exangue, Marco António surge no topo das escadarias. Arenga ao povo.

- Amigos, Portugueses, compatriotas:
Trago-vos Portugal nos braços. Venho para os seus funerais - e não para o louvar. O mal das pátrias sustenta-se além da morte. O bem enterra-se com elas. Ninguém se lembra das glórias do Aragão, nem das da Navarra - nem sequer das da Sabóia. Recordam-se, porém, sensivelmente, os seus pecados... Seja assim com Portugal. Os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro (três honradíssimos cidadãos) permitiram que vos falasse. Disseram eles que a nossa Pátria, em oito séculos de história, quase só se portou mal. Reconheçamo-lo contritamente sem discutir: - os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro são três grandes personalidades que nos restituíram a liberdade. Quem somos nós para os contestar?
Vós tínheis orgulho neste velho Portugal. Julgastes que era honra pertencer-lhe e acompanhar na memória a gesta dos seus santos e heróis, conquistadores e navegadores, que, mares além, nos tempos dantes, por todo o orbe, dilataram a Fé e o Império. Os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro acusam-no agora da maior cobiça. Castigaram-no severamente. São três homens justos, três nobres, e honrados, e incorruptos cidadãos. Veneremo-los. Esqueçamo-nos do que nossos pais nos ensinaram: - depois de Ceuta, largado mundo fora, Portugal, com uma ou outra excepcionalíssima excepção, só cometeu crimes. Paga hoje as suas faltas - faltas do povo e dos chefes. Do Infante, de Vasco da Gama, de Albuquerque, de Camões, de Vieira e de Mouzinho. Penitenciemo-nos. Até a Santa Madre Igreja, pela augusta voz dos nossos bispos, já se penitenciou. Porque não o faremos nós? Construamos humildemente, sem fumos de grandeza, o futuro que merecemos. Reduzamo-nos.
Durante séculos, no silêncio dos corações, rezámos a S. Francisco Xavier, a S. João de Brito e a S. Gonçalo da Silveira. Supusemo-los no céu, sentados à direita de Deus Pai. Sabemos hoje de ciência certa que foram apenas agentes do nosso torpe imperialismo, do nosso orgulhoso amor à guerra, da nossa cupidez mercantilista. Isso, sabiamente, nos ensinam os Drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - três impolutos cidadãos, três homens sem mancha, honrados e verdadeiros campeões da liberdade. Que podem as nossas memórias contra a sua veracidade munificente?
Imaginámos (durante cinco séculos - imaginámo-lo apaixonadamente) que andávamos pelo mundo a continuar Portugal, cientes de ser essa a sua missão, o seu destino, a sua glória. Reconhecemos hoje pela voz honrada dos drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - que por esse mundo de Cristo destruímos civilizações, arrasámos metrópoles, cometemos genocídios. Que as cidades, vilas e aldeias que erguemos não são nossas, mas de gente estranha - e que os povos nossos irmãos, trazidos para nós, em nós confiantes, eram traidores à Pátria deles que, em verdade e em boa hora, vai deixar de ser a nossa.
Com infinito orgulho, com altíssima devoção, sentimo-nos, centúria após centúria, o décimo-terceiro apóstolo, povo do Espírito Santo, farol de palavra divina. Oh! O orgulho dos homens! A petulância das gentes! A hipocrisia paranóica! Fomos uns rapinantes sem escrúpulos, vorazes comerciantes, mercadores astuciosos, criminosos sem perdão, exploradores insensí­veis, bandidos sem coração, ladrões desavergonhados, piratas do alto-mar, canalhas sem remissão. Caridosamente, sem o afirmarem (para não nos chocarem mais) insinuam isso os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Francisco Sá Carneiro - três eminentes senhores, fiadores da nossa liberdade, desta paz democrática, desta prosperidade que vamos a desfrutar. Devemos acreditá-los, e agradecer-lhes, e defendê-los. Reconheceram as nossas culpas - e andam a remi-las. Vão acordar Portugal da longa noite em que o adormecemos.
A partir de 1961, ferozmente dominados por Salazar (parolo seminarista, tortuoso financeiro... ) vós acompanhastes ao cais os melhores de todos vós - e, em espírito, embrenhastes-vos, com eles, nos matagais africanos. Muitos deles regressaram ou mortos, e povoam inermes os cemitérios do rectângulo, ou estropiados, ou meio doidos. Vós julgastes que eles tinham ido defender Portugal e os Portugueses. Exceptuando os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro - a maior parte de vós supôs que Portugal defendia o seu direito, e que as carnificinas de Angola, da Guiné e de Moçambique tinham sido perpetradas pela UPA, pelo PAIGC e pela FRELIMO. Sabemos agora que não; fomos nós os matadores, fomos nós os assassinos, somos nós os responsáveis, somos nós os grandes réus. A UPA, o PAIGC e a FRELIMO limitaram-se, honradamente, a proceder em legítima defesa, a reagir heroicamente aos nossos ataques cavilosos, às nossas agressões mal intencionadas, à nossa fúria colonialista. Não o confessando há treze anos, não abandonando Angola nessa altura - ofendemos a paz, a liberdade e a democracia. Quem quiser continuar Portugal - está contra o mundo inteiro, orgulhosamente só e nós queremos estar acompanhados, e ser cumprimentados, e aplaudidos, e cortejados, e bajulados por todos os grandes deste mundo. Queremos ser Holanda, Suécia, Dinamarca ou Finlândia, gente respeitada, pacíficos produtores de margarinas, ricaços. Para isso nos encaminham gloriosamente os drs. Mário Soares, Álvaro Cunhal e Francisco Sá Carneiro - três sábios, e prudentes, e sensatos cidadãos.
Quisemos que as gentes achadas pelos mareantes fossem portuguesas. Honrávamo-nos com isso, julgávamos honrá-las. Deixamo-las agora entregues a si próprias, nuclear e financeiramente protegidas pelos Estados Unidos, pela União Soviética e pela China. Deixámos de as explorar; vamos poupar milhões. Seremos prósperos, e bem edu­cados, e respeitados por todo o mundo civilizado e pela moral prevalecente. Vão elas deixar de ser portuguesas - vamos nós humilissimamente esforçar-nos por continuar a sê-lo.
Se eu tivesse as qualidades oratórias do dr. Mário Soares, a capacidade organizativa do dr. Álvaro Cunhal, a distinção aristocrática do dr. Francisco Lumbralles de Sá Carneiro - poderia ambicionar, talvez, conduzir-vos à revolta, mostrando-vos as cicatrizes sangrentas deste velho Portugal vencido. Mas eu sou, apenas, um pobre homem com poucos estudos e pouco pensamento, um desgraçado - e eles, três notáveis, honrados e proeminentes cidadãos. Têm o poder, a força e a vitória; prender-me-ão quando quiserem sem ninguém protestar; calar-me-ão. Vós, meus Amigos, meus amados Portugueses, meus queridos compatriotas, sede indulgentes comigo; parece que a alma me vai com o Portugal antigo. Já que não o podemos louvar - choremo-lo com honradez. Quantas vezes o aclamámos e o levámos em triunfo? Alguém nos impedirá de o chorar?

O silêncio aumenta a velha praça. Acolá e além um soluço risca o muro da tristeza. O povo volta as costas à casa da representação nacional. O pano desce lentíssimamente. Portugal, arfante, parece morrer devagar.»

Manuel Maria Múrias
in «Bandarra» n.º 0 (Set.1974)

Este texto foi referido e citado no editorial "Morte de Portugal", publicado na edição desta semana de «O Diabo».