segunda-feira, 31 de março de 2014

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal

Os sinais positivos da “retoma económica”, que muitos nos garantem ser o início do regresso do País a uma situação melhor, devem fazer-nos olhar mais longe. Portugal não se resume à economia e o destino da Pátria decide-se através da vontade política de afirmação de uma Nação quase milenar. O nosso propósito enquanto país soberano não se resume a “assumir os compromissos”, como se ouve repetidamente nas televisões e se lê nos jornais. O nosso futuro comum depende de conseguirmos que Portugal se assuma como historicamente já o fez. Esse deve ser o nosso compromisso e o de uma elite que defenda o interesse nacional.


Há muito que somos bombardeados nos ‘media’ com o discurso do “economês” que tudo domina. Não é por isso de estranhar o peso excessivo que têm ganho os ministros das Finanças, que assumem um destaque e importância que os tornam verdadeiros rivais do primeiro-ministro.
O problema do País resume-se à crise económico-financeira, que trouxe os vigilantes senhores da ‘troika’, e o nosso grande objectivo é pagar a enorme dívida – que continua a crescer – à custa especialmente de cortes salariais que têm degradado as condições de vida dos portugueses. As medidas de austeridade vieram para ficar e o que foi anunciado como temporário, afinal será permanente. Mas todo este esforço vale a pena? Os nossos governantes garantem-nos que sim.
A meta definida foi a retoma financeira e os primeiros sinais positivos chegaram finalmente. Para muitos este é o caminho certo e Portugal voltou a encarrilar. Mas, por muito boas que essas notícias sejam, não podemos reduzir o País a números, projecções e balanços, como se de uma qualquer empresa se tratasse.

A política
A crise que vivemos não é meramente financeira ou económica, é essencialmente política. A situação a que chegámos deveu-se a decisões políticas dos responsáveis pelo governo da Pátria. Nunca nos esqueçamos deste ponto fundamental.
Se a economia atingiu o estatuto que hoje tem, foi porque assim foi decidido ou porque os políticos se demitiram da sua verdadeira função, atolados no pântano da promiscuidade entre o mundo dos negócios e o da alta esfera do poder. O brilho do ouro cega, bem o sabemos, mas infelizmente parece que vivemos numa terra de cegos.
A distância entre eleitos e eleitores é cada vez maior e os portugueses não se identificam com um sistema no qual não se sentem representados. Muitos confundem a política com a baixa política e as tricas partidárias. Naturalmente, na presente situação, é fácil cair nessa generalização. Mas levantemos a cabeça e olhemos mais longe. Funcionando enquanto comunidade e sendo vigilantes e interventivos, os cidadãos devem ter uma elite dirigente que seja ao mesmo tempo competente e apaixonada pelo seu papel histórico de condução de um país. A passividade das queixas mudas nunca mudou o que quer que fosse.

A elite
Não é preciso uma formação especial ou conhecimentos alargados para perceber que os que nos governam estão longe de ser os melhores. Por um lado, temos uma geração inteira de políticos de criação, alimentados nas juventudes partidárias, que de bases ideológicas têm pouco – se é que têm alguma coisa – e olham para a escada dos cargos políticos como um meio para atingir um bem-estar material. Por outro, temos uma série de quadros de empresas que acham que os mesmos princípios da gestão se aplicam ao governo de um país.
É tudo mau? Não há excepções? Obviamente que nem todos se movem por interesses obscuros ou, pura e simplesmente, estão em cargos de elevada responsabilidade apenas para vingar na vida. Há ainda quem escolha esta via com a melhor das intenções, o problema é que rapidamente se depara com uma enorme máquina instalada, que continua a funcionar com todas as suas complicadas engrenagens e que é muito difícil de ultrapassar. Muitos daqueles que chegam à política com sentido de dever e serviço são engolidos por este mecanismo implacável.
Não há situações perfeitas, obviamente. Sempre houve “maçãs podres” na taça da fruta. O que acontece hoje é que essas “maçãs” começam a estar quase todas contaminadas.
É assim necessário o surgimento de uma nova classe política, uma verdadeira elite responsável capaz de tomar em mãos Portugal e projectar o nosso país para o futuro.

Um país único
Outra das grandes preocupações de quem nos governa é a imagem de Portugal lá fora, nomeadamente perante os credores e os “maiores” da Europa. Sem dúvida que a nossa imagem é importante; para fora, mas também para dentro.
Mais que cerimónias diplomáticas de beija-mão, demonstrações patéticas de um servilismo desnecessário, precisamos de assumir-nos como nação soberana e independente. Obviamente enquadrada num contexto europeu, mas nunca esquecendo de estabelecer uma ligação ao mundo lusófono, enquanto referência, que é a nossa área de influência geopolítica a nível mundial.
Veja-se a alteração no padrão dos turistas que cada vez mais nos visitam. Não vêm apenas pelo Sol e pelas praias, ou pelas isenções de IRS ou outros benefícios fiscais, que podem encontrar em muitas outras paragens. Vêm porque aqui encontram um país diferente, onde ainda descobrem muitas características que julgavam perdidas ou ultrapassadas na desvairada corrida do progresso uniformizador. A especificidade da nossa terra e da nossa gente é a nossa força.
Ganhemos ânimo e saiamos da depressão nacional em que nos encontramos. Por vezes basta assistir a um dos tantos programas televisivos estrangeiros que se têm feito sobre Portugal como destino turístico de eleição, para nos lembrarmos de como o nosso país é belo, rico e promissor. Mais: de como o nosso país é nosso e de como dele fazemos parte.

Retoma
A retoma económica de que todos falam deve ser o primeiro passo para a retoma política. Ou melhor, para a retoma nacional. O regresso de um país com uma História extraordinária, um passado de conquistas invejável e uma gente forte e trabalhadora, que guarda ainda no espírito um amor pátrio que é o melhor gerador de uma vontade inquebrantável.
“É a hora!” Dizia o nosso poeta. É a hora de reerguermos Portugal.

domingo, 30 de março de 2014

O caso David Reimer: uma experiência aberrante

Em 1965, um casal canadiano teve dois rapazes gémeos, Brian e David Reimer, que cedo tiveram problemas urinários. Brian ultrapassou-os sem recurso a cirurgia, mas David foi sujeito a uma circuncisão que correu mal e ficou sem pénis. Os pais, naturalmente preocupados com o filho, consultaram o psicólogo John Money, um neozelandês que desenvolvia os seus estudos em sexologia nos Estados Unidos da América e que era um defensor da teoria do género, segundo a qual o sexo é uma mera construção social, independente dos condicionalismos biológicos.

Brian e David (aliás Brenda) Reimer
Money aconselhou os pais a que fosse feita uma cirurgia de redesignação sexual a David e para o criarem como uma menina. Aos 22 meses o menino foi sujeito a uma operação de remoção dos testículos e a um tratamento hormonal e a partir daí os pais mudaram-lhe o nome para Brenda, começando a educar a criança como se de uma filha se tratasse. Durante a infância a situação aparentava ser normal e Money viu nesta experiência a prova de que a sua teoria estava certa. Aliás, porque tinha todos os elementos necessários, já que para além de um sujeito “redesignado” tinha um irmão de outro sexo, com quem partilhava os genes, podendo assim observar a evolução de diferentes comportamentos. Era tudo o que necessitava para o sucesso da sua investigação. Os irmãos foram acompanhados durante cerca de dez anos e Money foi sempre relatando o evoluir da situação como um êxito, mas o que se passou foi tudo menos natural.

David, aliás Brenda, apesar de tudo a que era sujeito, começou a sentir-se como um rapaz. Pior, ambos os irmãos queixavam-se de que as consultas com John Money eram traumáticas e de que ele os forçava a encenações sexuais, algo que o psicólogo negou.Quando Money insistiu em que fosse feita a operação de construção vaginal que estava prevista, os pais tinham já dúvidas suficientes sobre o que estava a ser feito e decidiram parar a experiência.

David Reimer
David voltou a ser o rapaz que sempre fora, necessitando para isso de novos tratamentos. Revoltado com tudo o que lhe tinha acontecido, denunciou a experiência publicamente para evitar que outras pessoas passassem pelo mesmo sofrimento. Mas era tarde demais, porque o exemplo do “sucesso” de Money havia inspirado vários redesignamentos em diversos países. Os dois irmãos teriam um fim trágico. Brian tornou-se esquizofrénico e acabou por suicidar-se. David, que chegou a casar, acabou também por suicidar-se depois de uma vida marcada pelas depressões, pelo álcool e pelas dívidas.

John Money
O caso foi obviamente bastante polémico e muito noticiado na Imprensa e na televisão. Perante esta experiência aberrante e aterradora, de consequências devastadoras, seria de esperar que John Money e as suas teorias fossem esquecidas, ou melhor, recordadas como um exemplo do que não se deve fazer. Mas, pelo contrário, Money continuou a ser considerado por muitos como um “especialista” e as suas obras a serem citadas como trabalhos de referência. Para cúmulo, existe, desde 2002, um programa de atribuição de bolsas de investigação em sexologia do Instituto Kinsey para o Sexo, Género e Reprodução, nos Estados Unidos da América, com o nome John Money!

sábado, 29 de março de 2014

A delirante teoria do género: uma ideologia contra os sexos

Se alguém disser que um homem não nasce necessariamente homem, nem uma mulher nasce necessariamente uma mulher, antes se tornam homem ou mulher, diríamos no mínimo que se trata de uma afirmação disparatada. Acontece que há quem defenda que o sexo de cada um não depende da biologia, mas de uma construção social. Ou seja, a identidade sexual não depende em nada da anatomia, da biologia nem da anatomia. Pois bem, esta teoria delirante está a tornar-se uma ideologia que se espalha rapidamente por vários países, sendo imposta em nome da igualdade.


A teoria do género deriva do feminismo igualitário e surgir na década de 60 do século passado, começando a entrar no debate público a partir de 2000. Considerando a identidade sexual, o género, não depende da biologia e que os comportamentos diferenciados entre homens e mulheres são o resultado de estereótipos. Assim, para promover a igualdade de género, há que destruir esses estereótipos. Tenhamos em conta que não se trata apenas de combater a discriminação sexual, mas de algo bastante mais perigoso, que corre o risco de se tornar um verdadeiro discurso oficial e ser ensinado aos nossos filhos na escola.

Contra a ideologia do género

Em 2012, a revista francesa “Éléments” dedicou uma edição alargada à teorias do género, que partem do princípio que a identidade sexual é o resultado de uma construção social. Assim, as mulheres não seriam oprimidas se não existisse o conceito de “mulher”. Para os partidários desta corrente de pensamento, é então necessário destruir as categorias de “homem” e “mulher”, que não existem, para libertar a humanidade. Por mais que nos possa parecer estranho, estas são posições que ganham cada vez mais adeptos e influência. Para as contrapor, este ‘dossier’ oferece vários artigos com argumentos inteligentes e fundamentados, onde se destacam os de Alain de Benoist, que recorre à biologia, à neurobiologia e à psicologia evolutiva para responder à pergunta “o ser humano é ‘neutro’ em matéria de sexo?”, e sobre o novo feminismo moralizador e repressivo. Benoist tornar-se-ia um opositor feroz da teoria de género, analisando-a em todas as suas vertentes, nomeadamente quanto à sua origem e às suas consequências, para a denunciar. Recentemente publicou o livro “Les Démons du bien” (Os Demónios do Bem) que versa sobre estas questões.

O “homem novo”
Um dos campos onde a ideologia do género começa a ser imposta é nas escolas. Há planos para o efeito em vários países europeus, incluindo Portugal. Mas este é apenas um aspecto. Durante a polémica sobre a introdução da teoria do género no ensino em França, é de notar que o ministro socialista, responsável por essa pasta, afirmou que “o objectivo da educação é arrancar do aluno todos os determinismos, familiar, étnico, social , intelectual...” Assim se vê que o sonho de fabricar o “homem novo” se mantém vivo. Apenas se apresenta sob outras formas.

A guerra das palavras
Na imposição de qualquer ideologia a guerra das palavras é essencial. É, aliás, um primeiro passo que a maioria não nota, ou não dá importância, que acaba por levar à aceitação gradual das novas ideias. Assim acontece também com a ideologia de género. Vejamos alguns exemplos em vários países europeus, incluindo o nosso. No ano passado, aquando do nascimento do bebé real britânico, filho do Príncipe William de Kate Middleton, vários defensores da teoria de género insurgiram-se contra o anúncio público feito pela Casa Real de que “era um rapaz”. Para eles, “não se devia impor desde já uma identidade sexual à criança” e o que devia ser feito era “deixá-lo escolher”. Isto tudo por “uma questão de respeito”. Inacreditável, mas verdadeiro! Já em Itália, outra das manifestações da ideologia do género, nomeadamente a ideia de que não se deve discriminar os membros do casal. Por isso, houve a substituição da designação “pai” e “mãe” por “progenitor 1” e “progenitor 2” em impressos oficiais. Também em Portugal, houve uma recomendação para que se preferisse a expressão “género” em vez de “sexo”.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A pena, o punho e o papel


Quando, entre si, medem forças
a pena, o punho e o papel,
— as palavras lembram corças
e o coração, um corcel.

Rodrigo Emílio (18/2/1944 — 28/3/2004) 

quinta-feira, 27 de março de 2014

O regresso da História

É curioso e bem divertido ver como os comentadores de serviço na nossa praça andam perdidos à procura de explicações para a escalada de tensão provocada pela anexação russa da Crimeia e a actual situação da Ucrânia. O seu desespero é semelhante ao daqueles que tentam há dias encontrar, sem sucesso ou qualquer pista, o desaparecido avião das linhas aéreas da Malásia.

O estado destes tudólogos que abundam nas televisões e nos jornais não é de estranhar. Embora insistam na “diferença de opiniões” e assegurem que proporcionam ao público um “debate livre”, partilham na verdade da mesma concepção linear da História.

Acreditaram no “fim da História” de idealização hegeliana e responderam “sim” à questão formulada por Francis Fukuyama no seu ensaio de 1989 intitulado “O Fim da História?” A Guerra Fria havia terminado e chegara o tempo do mercado mundial e, consequentemente, da “felicidade”.

Inebriados com a “democracia” e a “globalização”, convenceram-se que o mundo tinha realmente mudado e adormeceram ao canto das sereias da “paz eterna”.

Espantam-se, agora, que ainda existam nações, que ainda exista vontade, que ainda haja homens dispostos a lutar pelo que acreditam e que nem tudo tenha uma explicação puramente económica.

Custe a quem custar, a História está de regresso e o futuro abre todas as possibilidades, muito além de previsões de trazer por casa.

Mas nesta questão o que mais nos interessa é reconhecer, de uma vez por todas, que a Europa é impotente perante tamanhas alterações e convulsões, porque se deixou exactamente enfeitiçar pelo mesmo discurso. Não era o Velho Continente o “tubo de ensaio” da sociedade mundializada? Pois a experiência está a sobreaquecer e o vidro prestes a estalar.

Chegou o tempo da Europa se repensar – de reconquistar o ser lugar na História.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 26 de março de 2014

Drieu La Rochelle inédito

Há escritores cujo talento inegável não os deixa morrer. Mesmo com muitos entraves e tentativas de “esquecimento”, Pierre Drieu La Rochelle continua presente no panorama literário francês. É bom lê-lo, é melhor regressar à sua obra, mas redescobri-lo em cinquenta páginas de textos inéditos é uma experiência privilegiada, que este mês nos chega através de uma revista de referência.


A «Revue des Deux Mondes» [Revista dos Dois Mundos] é uma revista mensal literária e de cultura com uma longevidade impressionante, sendo uma das publicações periódicas mais antigas de França. Foi fundada em 1829, por François Buloz, com o objectivo de estabelecer uma relação entre a França e os outros países europeus, mas em especial com o Estados Unidos da América, ou seja, entre o Velho Mundo e o Novo Mundo. Tendo passado naturalmente por várias alterações, continua a ocupar um lugar cimeiro entre as revistas culturais francesas de referência. Felizmente, esta é uma publicação que é possível encontrar à venda em Portugal, poupando-nos os excessivos portes de envio.

O forte da edição de Março são os textos inéditos de Pierre Drieu la Rochelle, escritor francês que foi por muitos condenado à lista dos “malditos”, pelas suas ideias políticas. No entanto, o seu extraordinário talento conseguiu derrubar muitas barreiras e ultrapassar a intolerância dos que se consideram donos da verdade. Talvez por isso é que só há dois anos a sua obra foi publicada na prestigiada biblioteca da Pléiade. Dúvidas restassem, o editorial deste número reconhece-o como “uma personagem lendária da literatura do século XX”. Mais, considera-o “um sismógrafo do seu tempo”, essencial, por isso, para melhor compreendermos o grande sismo europeu que foi a Primeira Guerra Mundial. Assim, os inéditos escolhidos têm como foco a guerra de 1914-1918 e abarcam vários registos, desde as notas pessoais ou o esboço para uma ficção, à poesia e à troca epistolar com os seus amigos Jean e André Boyer e uma carta a Jean Paulhan. Mas o destaque vai para o texto “A minha concepção metafísica da guerra”, onde Drieu concebe a guerra como um movimento, um choque de movimentos contrários” e “a paz perpétua como função da senilidade humana”.

Ainda nesta edição, podemos ler a grande entrevista com o Patriarca Bechara Boutros Raï sobre a noite que cai sobre os cristãos do Oriente, para além de outros artigos e das habituais críticas de cinema, música e discos, bem como as notas de leitura de vários livros recém-publicados.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O mau jornalismo habitual (XI)


"A França está esta noite em estado de choque." Assim começa a notícia do semanário «Expresso» sobre os primeiros resultados do Front National (FN) nas eleições municipais francesas. É apenas um exemplo, porque também ouvi tiradas como "franceses preocupados" ou "um golpe para a democracia".

Entendamo-nos: os franceses que votam livremente no FN não são franceses? Votar livremente no FN é atentar contra a democracia?

O mais curioso é que são "jornalistas" destes que se arrogam como os grandes defensores da "objectividade"...

domingo, 23 de março de 2014

Uma tara perdida


O Ribas morreu. Já ontem me tinham dito para esperar o pior, porque estava muito mal. Tinha talento e perseverança, mas também muita maluqueira. Conheci-o no tempo em que o Bairro de Alvalade - o nosso bairro - era um centro onde fervilhava a inovação musical. Um movimento extraordinário, no qual participei modestamente, mas onde ele se tornou uma figura incontornável. Tínhamos as nossas grandes diferenças e as habituais discussões, políticas e clubísticas, mas havia a música - sempre "o som". Mas muito mais do que isso, éramos de Alvalade.

Na última vez que falei com ele deu-me um exemplar da sua revista e disse que queria a minha opinião, "técnica e sincera". Nunca a cheguei a dar, foi essa a nossa despedida...

Adeus, Ribas. Nunca te conseguiram censurar, porque os mandavas sem hesitar para o cú de Judas. Não foste uma tara perdida.

sábado, 22 de março de 2014

Jerry Spring


Eurico de Barros escreveu no "Qi", o suplemento cultural do "Diário de Notícias, sobre Jijé (Joseph Gillain), um mestre da banda desenhada franco-belga que, nos anos 30 e 40 do século XX, "era um muito sério rival de Hergé". Este ano assinala-se o centenário do nascimento de Jijé, que também se dedicou à pintura, à escultura e à ilustração.

Para além de ter "dado" a Spirou o seu amigo e companheiro de aventuras Fantasio, conta o Eurico que Jijé criou Jerry Spring, "a primeira grande série western realista da BD europeia".

Não me lembrava de Jerry Spring, por isso fui consultar os exemplares do "Cavaleiro Andante" que tenho na minha colecção. No número especial de Natal de 1958 encontrei uma aventura completa, "O homem da cicatriz", ainda assinada como Gillain. Pelos vistos, o cowboy andava cá por casa e eu nem sabia...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Os homens e as crises

É nos períodos mais conturbados que se destacam os mais capazes. Os líderes são exactamente aqueles que se elevam de entre os demais e se tornam um exemplo. Há também aqueles que se mantêm agarrados aos destroços flutuantes do navio, ao sabor das correntes, convencidos que o estão a comandar.

Infelizmente, estes últimos são sempre em maior número e o seu discurso, ainda que estafado, vai convencendo os que preferem a ilusão da mentira ao choque da realidade.

Vemos diariamente uma classe política medíocre, refém de interesses exteriores, que delapida o que é de todos e sobrecarrega uma população empobrecida, que não tem um projecto nacional. Governantes que apenas olham para o presente sem apontar para o futuro, aprendendo com o passado.

Mas este estado de coisas está longe de ser uma novidade – é aliás característico dos períodos de interregno. Neste fim de ciclo é de notar a actualidade das palavras de João Ameal sobre as crises e os homens: “Muitos dos grandes responsáveis dos tempos que correm, estonteados e desconcertados pelo ambiente da crise, de incerteza, de apreensão, mostram-se, de facto, incapazes de definir um pensamento claro e de manter uma linha de firmeza e de coerência. Fraquejam diante da tormenta que os cerca. Dia a dia, hora a hora, vemo-los oscilar, contradizer-se, desmentir-se. Não têm a coragem necessária para escapar à tirania de velhos mitos desacreditados, nem para traçar, entre os problemas e ameaças do momento o seu caminho. O drama europeu e universal a que assistimos resulta, sobretudo, dessa inferioridade dos grandes responsáveis: — competia-lhes impor-se aos acontecimentos e deixam-se afinal arrastar e dominar por eles...”

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 17 de março de 2014

Beleza

Pormenor de "O Nascimento de Vénus" de Botticelli

"A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas."

Bernardo Soares
in "Livro do Desassossego"

sábado, 15 de março de 2014

Um gato enroscado ao sol

Raul Lino descrevia a Casa do Cipreste, em Sintra, como “a casa como um gato enroscado ao sol” e, se olharmos para a planta, assim parece. Mas depois de a sentirmos, no seu calor e aconchego, percebemos que a descrição não se referia apenas ao desenho. Apreciador da obra do arquitecto da Casa Portuguesa, foi com grande satisfação que a visitei, muito bem guiado e acompanhado.


O primeiro desenho do conjunto data de 1907 e a construção da casa teve início em 1912. A propriedade, numa das vertentes do Castelo dos Mouros, era designada por “Pedreira”, em memória de uma anterior actividade extractiva no local. Esta particularidade, alertaram-me, faz desta habitação “a casa menos húmida de Sintra”. Martinho Pimentel, o bisneto de Raul Lino, recebeu-nos com grande hospitalidade, depois de tocarmos o sino à porta da rua. É bom saber que a casa continua na família.

Depois de apreciarmos alguns pormenores no pátio da entrada, vimos o local de trabalho do genial arquitecto, onde desenhou vários dos seus projectos. De seguida entrámos na casa de habitação e falámos sobre a importância da porta, algo que Raul Lino salientava. Uma vez no interior do lar, fizemos um percurso completo, tentando reparar em todos os pormenores cuidados. Há uma curiosidade interessante, o chão de cada divisão é diferente, marcando claramente a passagem de um espaço para o outro.


Ao fundo de um corredor, somos parados pela vista extraordinária daquela terra mágica. À esquerda, a sala octogonal, onde Raul Lino se reunia com as importantes figuras intelectuais do seu tempo e onde agora, quase um século depois, eu, o Rodrigo Sobral Cunha, o Pedro Sinde, o Manuel Gandra e o Martinho Pimentel, descendente do arquitecto, nos sentámos para uma conversa sobre a casa e a obra de Raul Lino, onde não faltaram o chá e os ‘scones’. À direita, uma sala de refeições com uma acústica impressionante, cujos efeitos em nós são indescritíveis.


Descemos até à parte traseira e olhámos a forma harmoniosa como a casa se funde com a vertente rochosa. Passeámos pelo jardim e espreitámos o poço que dá para o reservatório de água. Mas já se fazia tarde, como sempre, e tivemos que partir – que desenroscar-nos. Ficou tanto por ver, ficou tanto por contar. Ficou a promessa de regressarmos a uma casa onde nos sentimos em casa.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Leituras fundamentais

Na era dos consumidores e dos “clientes”, cada vez mais os pais deixam os filhos na escola como se deixassem o carro na oficina para uma revisão. Reconhecendo a importância dos estabelecimentos de ensino na formação das crianças, não podemos – não devemos – esquecer que os valores fundamentais se transmitem em casa, no seio da família.

Mantenho um hábito que infelizmente se tem vindo a perder, leio aos meus filhos antes de eles adormecerem. Ao contrário do que possa parecer, em especial aos anestesiados pela (des)cultura do ‘zapping’, não são momentos enfadonhos. Pelo contrário, os meus filhos preferem-nos à televisão, o que é já o primeiro indício de que é possível escapar à ditadura mediática.

Não só a leitura é importante, como mais importante é o que se lê. Agora estamos a ler a “Ilíada”, na versão da Sá da Costa, “contada às crianças e ao povo”. A minha filha prefere naturalmente Helena e os seus curiosos olhos azuis reluzem quando se fala na “mais bonita, a mais elegante, a mais graciosa e, ainda, a mais rica das mulheres gregas”. Já a preferência do meu filho, mais velho, vai para Aquiles, “o glorioso Aquiles, detentor de vitórias e de troféus inumeráveis”. A beleza e a nobreza, o espírito trágico e a coragem, assim se começam a passar valores fundamentais que as teorias uniformizadoras pretendem apagar.

Por vezes eles lêem partes, outras vezes leio-lhes passagens da versão original, explicando que ali estão as nossas raízes profundas. Como afirma Frederico Lourenço na introdução da sua tradução, “Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultural ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo”.

Mas já está escolhida a próxima leitura fundamental, são “Os Lusíadas” adaptados por António Manuel Couto Viana e ilustrados por Lima de Freitas para a colecção “Clássicos Juvenis Verbo”.

O amor pela leitura e pelos clássicos, um testemunho essencial que devemos passar às gerações futuras.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 12 de março de 2014

Heidegger, o Nacional Socialismo e o Anti-Semitismo: Um “não-caso” que se reabre

A julgar pelo recente “caso Heidegger” que aparenta vislumbrar-se no horizonte, o princípio ne bis in idem – ninguém pode ser julgado duas vezes pelo mesmo crime – encontra alguns obstáculos à sua transmigração do direito penal para o debate filosófico. Os réus são neste caso os “Cadernos Negros”. Isso mesmo, “Schwarzen Hefte”.

Trata-se de uma colectânea de escritos datados de um período compreendido entre 1931 e 1946, num total de 1200 páginas que, de acordo com os rigorosos prazos editoriais que regulam o destino da publicação heideggeriana, serão dados a conhecer ao público ainda durante o mês de Março. Peter Trawny, Professor da Universidade de Wuppertal, é um dos especialistas responsáveis pela revisão destes inéditos.
Depois de ler os “Schwarzen Hefte” este investigador preparou uma acusação filosófica que aguarda publicação a qualquer momento, mas que já fez estremecer a coluna vertebral aos heideggerianos de todo o continente. Trata-se de um ensaio com aproximadamente sessenta páginas intitulado “Heidegger: Os Cadernos Negros e o Anti-Semitismo Histórico”.

Este estudo debruça-se sobre a quinzena de vezes que o filósofo se referiu abertamente ao judaísmo, criticando a sua “faculdade de cálculo”, o seu “acentuado dom para a contabilidade”, a sua “capacidade tenaz para calcular”, o “desenraizamento do Ser” que nasce do “judaísmo internacional”, a “falta de terra” do povo hebraico, etc. Encontra-se também presente neste estudo “um esclarecimento destinado aos burros: estas notas nada têm a ver com anti-semitismo que é, por si só, algo de abjecto e desprovido de sentido...”

Existe matéria suficiente para reabrir o processo, mas não para o concluir. Este meritório debate arrisca-se a ser mais cansativo do que a investigação etimológica levada a cabo pelo próprio Heidegger, capaz de alongar-se em várias páginas apenas com o intento de traduzir um simples adjectivo.

Mas esta é a história de todo o caso Heidegger. A começar pela sua autodefesa, já em 1945 com “O Reitorado 1933-1934”, numa tentativa de esclarecimento acerca das acções tomadas em Freiburg durante os meses que se seguiram à tomada do poder por Hitler e cujos conteúdos foram posteriormente enfatizados na sua célebre entrevista póstuma dada ao “Spiegel”. Aqui poderemos encontrar algumas tentativas de “contextualização” dessas acções, mas nenhum arrependimento. Escrevendo nesse o mesmo período a Marcuse, Heidegger argumentou ter visto em Hitler “uma saída para o Dasein ocidental face aos perigos do comunismo”, atacando aqueles que “julgam o início do movimento nacional-socialista apesar dos seus êxitos”, apelando à memória das violências sofridas pelos alemães de Leste logo após a ocupação soviética.

Saindo da filosofia através da porta alemã, Heidegger reentra na mesma através da janela francesa, sendo idolatrado pelos jovens filósofos do outro lado do Reno que, assegurava ele, sempre que queriam verdadeiramente pensar, eram obrigados a fazê-lo em alemão, ou seja, através da linguagem heideggeriana. Em Itália foi Gianni Vattimo a propor a existência de uma potência emancipatória inerente à obra “Ser e Tempo”. Se o Ser não “é”, mas “se dá”, quem pretender falar em nome próprio equivale-se àqueles indivíduos que procuram resolver as zaragatas em discotecas gabando-se das suas associações à máfia local. Uma espécie de “bullying” metafísico. Quem afirma ser um amigo do Ser é apenas o fanfarrão que, na realidade, não conhece ninguém, restando-lhe apenas um diálogo estabelecido em pé de igualdade (que não é exactamente o que acontece nas lutas na discoteca). Generoso, Vattimo reconhece a existência de pelo menos duas leituras políticas do pensamento heideggeriano e explica – na introdução à obra “Escrita e Diferença” de Derrida – que “podemos falar, recuperando-se, não tudo arbitrariamente, a terminologia aplicada à escola de Hegel, de uma direita e de uma esquerda heideggeriana”: de um lado a mística da Floresta Negra, do outro a superação da metafísica. Ora, isto é uma mentira. Na realidade, só existe um Heidegger de “direita” e um “fascista”, o outro, de esquerda, não passa de uma invenção.

A leitura progressista de Heidegger passa por um período de choque no final da década de 1980 quando Victor Farías, um ex-aluno chileno do filósofo, atira uma pedra contra a vitrina do pretenso heideggerismo redimido. Em “Heidegger e o Nacional Socialismo” ele investiga a fundo a relação entre o filósofo e o regime. Além de lembrar-nos que Heidegger, até 1945, pagava regularmente a sua quota anual no NSDAP, Farias reconduz o filósofo ao panteão do “Nacional-Socialismo de esquerda”, o das SA, explicando o seu isolamento durante os anos 1930, como um efeito colateral da “Noite das Facas Longas”.

A intelligentsia iniciou de imediato os seus reparos. Um dos frutos mais delirantes do conselho de defesa permanente do filósofo é a colectânea “Escritos Políticos”, editada por François Fedier, na qual “A auto-afirmação da Universidade Alemã” – o famoso discurso do reitorado –, torna-se “A Universidade Alemã firme em si mesma apesar de tudo”, enquanto a frase “que as regras do seu ser não são nem fórmulas doutrinárias nem “ideias”. O próprio Führer, só ele, é a realidade alemã de hoje” torna-se a prova de que o filósofo “se voltou para Hitler, mas não para o programa ou visão nacional-socialista do mundo”. O “Sieg Heil” tantas vezes pronunciado por Heidegger vem de resto explicado como um convite à paz, partindo do pressuposto que os actuais esquiadores ainda hoje se cumprimentam com um “Ski Heil”.

Uma contra-resposta surge por parte de Emmanuel Faye que, estudando os seminários inéditos de 1933 e de 1935, chega à conclusão de que Heidegger é apenas “A introdução do Nacional-Socialismo na Filosofia”, tornando o “filósofo” (que Faye coloca entre aspas o “philosophe” Heidegger e a “philosophie” heideggeriana...) ainda mais um pensador nacional-socialista, mas um nacional-socialista ‘tout court’ que deve ser expurgado da história da disciplina de Platão e Kant. A pesquisa é meticulosa, no entanto viciada por um excesso de zelo. A esquematização dos eixos poéticos d’O Reno de Hölderlin torna-se assim numa cripto-suástica, enquanto um verso do poeta romântico que fala do fogo e que era mencionado no curso de 1942 é julgado como sendo “tragicamente perturbador”, porque, nesse ano “o fogo que crepita e ascende é o dos campos de extermínio: Belzec, Sobibor...”

Nova investida, nova ofensiva filo-heideggeriana. O habitual Fedier procurou rebater estes argumentos com um panfleto: “Heidegger, à plus forte raison”. Também Vattimo regressa a este confronto, defendendo que “Heidegger, com sua adesão ao Nacional-Socialismo fez uma acção corajosa. [...] Desceu ao campo, realizando a sua ideia pessoal de intelectual engagé. Que essa fosse uma ideia errada, isso é uma outra história. Mas sujou as mãos.” Raciocínio que é a base para a entrada de Slavoj Žižek que argumenta: “Heidegger é grande não apesar disso, mas graças ao seu compromisso com os nazis.”

Resumidamente, não há saída. Esta versão “travagliesca” da filosofia, embrenhada nesta morbidez de revista cor-de-rosa, instiga a uma busca de “evidências” e “conspirações”, conduzindo a algo totalmente falacioso. A divisão entre bons e maus funciona mal quando se trata de decifrar a história, e muito mal se quisermos compreender qualquer coisa de filosofia que, de resto, vê a parte dos maus multiplicar-se em vários nomes, tendo Popper a encabeçar o topo dessa lista. Podemos também agarrar-nos aos vestígios de uma moral de polícia para dar-se um certo tom à vida, contudo, convém saber-se de antemão que a realidade funciona de uma maneira completamente diferente.

Por outras palavras: “Heidegger é certamente um grande filósofo que foi, ao mesmo tempo, um nazi entre tantos. Apenas isso. A filosofia pode contentar-se!” (Alain Badiou).

Adriano Scianca
Licenciado em Filosofia pela Universidade La Sapienza (Roma), jornalista e responsável nacional pelo departamento cultural da CasaPound, é autor dos livros “Riprendersi Tutto” e “Ezra fa Surf”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 9 de março de 2014

Proporção


«Quais são os elementos primordiais de que o arquitecto dispõe para o seu trabalho? Se existisse um evangelho da arquitectura, começaria por certo assim: "No princípio era a Proporção..." E realmente é a proporção base de toda a arquitectura.»

Raul Lino
in "Casas Portuguesas"

sábado, 8 de março de 2014

Felicidade e realização


«Aquele "Princípio de Peter", segundo o qual o homem tende a atingir, na profissão, o seu mais alto grau de incompetência, é, apesar do seu tom divertido ou paradoxal, um princípio certo e sério. Agora, pelo contrário, faço aquilo para que me preparei, num tirocínio de vinte anos - um longo curso. E, se não acredito na felicidade - a felicidade é, como a liberdade, coisa que se invoca sem saber em que consiste, e se invoca tanto mais quanto é ideal que não pode atingir-se -, acredito, sim, que o homem pode realizar-se melhor nesta do que naquela tarefa. Agora, começo a ver os frutos do meu trabalho - frutos modestos, mas visíveis e palpáveis.»

João Bigotte Chorão
in "O Reino Dividido"

quinta-feira, 6 de março de 2014

Persistir no erro

A oposição ao famigerado Acordo Ortográfico tem sido transversal na sociedade portuguesa. Uma causa que mobiliza cidadãos das mais variadas sensibilidades políticas, que conseguiram levar o assunto à Assembleia da República na semana passada. Mais, conseguiram chegar a diversos deputados que também são contra este crime lesa-língua e que o procuraram denunciar nos seus grupos parlamentares.

No entanto, a barreira entre a vontade popular e aqueles que a devem representar existe. Há, de facto, um bloco central que segura um Estado estático.

Os partidos da coligação governamental podiam não só ter apoiado os seus deputados que tão bem alertaram para a situação de caos que o (des)Acordo tem criado, como conseguir um entendimento com outros deputados e outros grupos parlamentares, esquecendo diferenças de cor política pela preservação de um património que é de todos nós. Mas não, preferiram persistir no erro, ignorando todas as razões apresentadas e devidamente fundamentadas.

O que aconteceu demonstra bem que os “governantes” de hoje em dia pouco mais são que “funcionários de manutenção”. Mais preocupados com a gestão dos números de forma a agradar aos credores internacionais, são incapazes de marcar a diferença, deixando passar uma oportunidade de ouro para uma decisão de afirmação política em prol de Portugal.

Perder uma batalha não significa perder a guerra. A luta contra o Acordo Ortográfico continua e nunca podemos baixar os braços.

Por fim, aos ignorantes ou desonestos que usam Fernando Pessoa em defesa deste Acordo, recorde-se uma afirmação do nosso poeta sobre a reforma de 1911: “A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 5 de março de 2014

“O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas”

Riccardo Marchi é um historiador italiano radicado em Portugal que se tem dedicado ao estudo das direitas radicais na democracia portuguesa. Desde 2008 que é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em 2010 organizou o colóquio “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas”, onde participaram Rui Ramos, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo, Ernesto Castro Leal, José Pedro Zúquete, entre outros. As comunicações desse colóquio foram agora reunidas num livro essencial para compreender o estado e o futuro das direitas no nosso país. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição de «O Diabo» de 18 de Fevereiro de 2013.

Riccardo Marchi, Fátima Bonifácio e Rui Ramos
no colóquio "As raízes profundas não gelam?", em 2010

Qual foi o objectivo do colóquio que deu origem a este livro?
Quando em 2005 iniciei as minhas investigações de doutoramento acerca das direitas radicais no fim do Estado Novo – tese publicada nos dois livros “Folhas Ultras” (ICS, 2009) e “Império Nação Revolução” (Leya, 2009) –, senti a falta, na minha revisão bibliográfica, de obras de conjunto sobre o tema das direitas em Portugal que pudessem servir-me para enquadrar o meu objecto de estudo. Este género de bibliografia já está presente, há anos, nos outros países da Europa Ocidental: não falo apenas de trabalhos seminais como “La Droite en France”, de René Remond (1954), mas de uma grande variedade de análises historiográficas e politológicas de conjuntos que foram publicadas ao longo dos anos nos diferentes países sobre os percursos das direitas autóctones, sobre as suas diferentes matrizes doutrinárias, as suas evoluções, as estratégias, as convergências, as divergências, os legados que deixaram nos actores políticos que ocupam actualmente este espaço político.

Em Portugal não havia tais trabalhos?
Em Portugal havia muito e bom trabalho já feito sobre a primeira metade do século XX, inclusive o Estado Novo, menos sobre a segunda metade do século passado. Mas sobretudo faltava – e falta – uma reflexão diacrónica sobre as direitas portuguesas na contemporaneidade. Uma obra deste género é assaz complexa a fruto de muitos anos de investigação e reflexão madura, razão pela qual, quando em 2010 iniciei este projecto editorial, o meu intuito era mais limitado: reunir alguns colegas com trabalho sólido sobre diferentes experiências das direitas portuguesas desde o miguelismo até aos nosso dias para propor uma série de reflexões que contribuam à análise de longo período das direitas em Portugal. Como é óbvio e como é costume dizer-se nestas circunstâncias, não se trata de por uma palavra fim à investigação sobre este tema, mas de participar ao debate historiográfico – segundo Rui Ramos ainda incipiente – sobre as direitas em Portugal.

Ao falar de direitas significa que não há uma direita?Sem dúvida. A existência de direitas plurais, muito diferentes entre elas é um dado empírico. Há umas direitas contra-revolucionárias e umas direitas herdeiras das revoluções dos século XVIII e XIX, umas direitas monárquicas e umas direitas republicanas, há umas direitas profundamente influenciadas pelas revoluções nacionais dos anos 20 e 30 do século XX e umas direitas que se opuseram determinantemente aos fascismos; há umas direitas católicas anti-conciliares e uma direitas laicas que pouco se interessam com a dimensão religiosa; há umas direitas que, face à crise de Europa, procuraram soluções no tempo (indo às raízes mais profundas do Velho Continente) e há umas direitas que procuraram estas soluções no espaço (olhando além-Atlântico). Face a esta diversidade – aqui só sumariamente esboçada – utilizar o termo Direita no singular vicia a análise logo a partida, pressupondo que há uma tradição única a partir da qual é possível traçar um ‘fil rouge’ determinístico. O livro quis evitar este determinismo e apostar muito mais na diversidade que resulta sempre mais fecunda quando se pretende realçar as características profundas de determinados fenómenos para avaliar quanto e como estas características permaneceram ao longo do tempo.




A associação das direitas ao Estado Novo ainda subsiste?
Não há dúvida que afirmar-se de direita em Portugal leva o próprio interlocutor a associar imediatamente esta posição com conceitos como salazarista, autoritário, de duvidoso ‘pedigree’ democrático. É um reflexo natural vista a relativa proximidade histórica do regime autoritário. Contudo, diria que, nos últimos anos, o fenómeno mais interessante é a associação constante das direitas não tanto ao Estado Novo mas sim ao neoliberalismo. O salazarismo está a perder pontos para o neoliberalismo na associação às direitas. Os dois conceitos tornaram-se praticamente sinónimos: direita é neoliberalismo.

Isso faz algum sentido?
Estes géneros de associações mais que “fazer ou não fazer sentido”, são pouco úteis para a análise científica porque os conceitos, usados e abusados na polémica política, acabam por perder a sua capacidade heurística. O termo “neoliberal” sofreu esta degradação. Na área governamental da democracia portuguesa, as direitas são acusadas de ter traído as respectivas matrizes social-democrata e democrata-cristã para se tornarem neoliberais; as esquerdas são acusadas de ter traído a matriz socialista para actuar políticas neoliberais e de estar prestes a traí-la novamente para fazer mais do mesmo; as esquerdas radicais tentadas de aproximações aos socialistas são acusadas de desvios neoliberais; o FMI é neoliberal, a União Europeia é neoliberal. Mário Soares, que fez entrar o FMI em Portugal em 1977 e Portugal na CEE em 1986, é o paladino do anti-neoliberalismo. Quando com um rótulo se pretende explicar tudo, arrisca-se a não explicar nada.

O que também aconteceu com a associação ao Estado Novo...
A associação entre Direitas e Estado Novo sofreu do mesmo limite: de instrumento útil para perceber parte da cultura política das direitas na democracia portuguesa, tornou-se muitas vezes uma perspectiva incapacitante, inadequada para se compreender em profundidade outras matrizes ideológicas, outros percursos, outras estratégias presentes nas direitas a partir de 1974 e que determinaram a sua evolução muito mais que o legado estadonovista.

Não acha que a associação das direitas aos “fascismos” é um ataque fácil das esquerdas?
Associar as direitas actuais aos fascismos dos anos 30 é um ataque tão fácil como associar as esquerdas actuais aos regimes comunistas pré-1989.  É tão fácil que até se tornou banal, pouco útil, sem sentido de tal forma que, mesmo na polémica política mais simplista, já não é tão comum que um actor político das direitas seja apelidado de “fascista”, exactamente porque sendo genuinamente outra coisa, quer em termos de doutrina, quer em termos de ‘praxis’, nada resulta mais fácil para o visado que refutar esta acusação com as mais veementes atestações de antifascismo. Eu não falaria de um “ataque fácil” das esquerdas às direitas através do rótulo de “fascista”, mas destacaria, pelo contrário, um fenómeno diferente: as esquerdas à esquerda dos socialistas perceberam há muito a inutilidade da acusação de fascismo dirigida à direita e escolheram outros rótulos como o já referido “neoliberal”, apesar de a carga simbólica ser claramente menos pesada. A partir dos socialistas para a direita, pelo contrário, não me parece que haja uma corrida à atribuição de rótulos difamantes para levar ataques fáceis. Parece-me, ao invés, que há uma proliferação de atribuições mútuas de patentes democráticas, para sublinhar a legitimidade na alternância ao poder face aos perigos provenientes dos sectores julgados alheios ao arco democrático: assim, na esquerda temos uma distinção entre a “esquerda democrática” e as outras (radicais, comunistas); na direita temos uma distinção entre a “direita democrática” e a outras (extremas, populistas). Os “democráticos” de direita e de esquerda legitimam-se mutuamente face aos “outros”: esta evidência portuguesa está perfeitamente integrada no panorama da política europeia. Permita-me concluir com uma nota: não deixa de ser interessante a preocupação subjacente à sua pergunta acerca do “ataque fácil” sofrido pela direita actual através do rótulo de “fascista”. Nos anos 30, o ataque fácil – e insuportável – para um fascista era o ser acusado de não passar de “um homem de direita”.

Qual o futuro das direitas em Portugal?
Quanto mais estudamos a polimorfia das direitas na História portuguesa, mais nos damos conta do processo de homogeneização e conformismo ao pensamento dominante que sofreram nos últimos anos. Nada leva a crer que este processo seja destinado a reverter no curto prazo, o que não implica entraves para a gestão do Poder. Muito pelo contrário.

terça-feira, 4 de março de 2014

Frase do dia


«Não houve maior disparate em Portugal nos últimos tempos do que a recuperação do Acordo Ortográfico, a que ninguém ligava nenhuma desde 1990.»

Luís Menezes Leitão
in «i»

O renascimento do Ocidente


«Le Figaro Histoire» tem vindo a afirmar-se como uma das revistas francesas de divulgação histórica à qual não se pode ficar indiferente. O mais recente número tem como tema central Carlos Magno, o Imperador que se fez coroar pelo Papa, mas que não se contentou em restaurar o Império Romano do Ocidente, lançando as fundações da Europa. A propósito do centenário da Primeira Guerra Mundial, um interessante artigo dá conta das obras publicadas e das exposições realizadas sobre o tema, com especial ênfase nas recordações familiares guardadas pelos franceses sobre esse período. Na secção “O Espírito dos lugares”, destaque para dois artigos. O primeiro dedicado a Basílica de Santa Sofia, em Istambul, um templo entre a cruz e o crescente; o segundo sobre a nova exposição das maravilhosas tapeçarias medievais conhecidas como “A Dama e o Unicórnio” no Museu de Cluny, em Paris, numa nova sala com uma concepção diferente da anterior.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 3 de março de 2014

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 70


Há muito que «La Nouvelle Revue d’Histoire» é uma das revistas de referência no panorama francês das publicações de divulgação histórica e a direcção de Philippe Conrad, que substituiu Dominique Venner após o suicídio ritual deste na Catedral de Notre-Dame, em Paris, em nada alterou a sua qualidade. Neste número, o dossier é dedicado ao “paiol dos Balcãs”, uma região europeia marcada pela guerra e pela oposição ao Islão. Um tema que, para além de ser de grande interesse histórico, não deixa de ser bastante actual. Destaque para a entrevista com o General Bach, a propósito do centenário da Primeira Guerra Mundial, para os artigos sobre a aventura francesa no Saara e sobre o mandato que a França exerceu na Síria de 1020 a 1945. De referir, ainda, os artigos sobre Nostradamus, o astrólogo e profeta que foi também “um médico das almas” e sobre a chegada de Valéry Giscard d’Estaing à presidência da República, há 40 anos.

domingo, 2 de março de 2014

'Selfie'


Agora que anda tudo com a moda das 'selfies', é bom recordar que Robert Cornelius fez uma em 1839...

sábado, 1 de março de 2014

O mistério da poesia


"O mistério da poesia é a poesia de um mistério - a poesia do indescrítivel. Não haverá, nestes tempos, uma irremediável contradição? Talvez. Mas talvez o poeta não use as palavras senão porque não saiba dizer de ouro modo o que por palavras não disse. O poema autêntico é a invocação de um mistério."

Eudoro de Sousa

Há três anos...

O dia 1 de Março de 2011 foi o meu primeiro dia como director do semanário «O Diabo». Não parece, mas já lá vão três anos!...

Local do MAS destruído


Esta é uma notícia perturbante, mas que não deve intimidar-nos. O local do Mouvement d'Action Sociale em Paris, onde funcionava o estúdio do programa de rádio Méridien Zéro, foi totalmente destruído após um incêndio cujas causas ainda estão por apurar. Como diz o Arnaud de Robert, porta-voz do Mouvement d'Action Sociale, "o que não nos mata torna-nos mais fortes e o formigueiro, como uma fénix, renascerá das cinzas".