sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Acordo Ortográfico e o mercado editorial

Capas das edições portuguesa e brasileira do mesmo livro de Luiz Ruffato

Uma das provas do total falhanço do Acordo Ortográfico (AO) e da sua demanda pela unificação impossível é o que se passa no mercado livreiro, onde as editoras continuam a publicar livros com duas ortografias em Portugal, com a ortografia anterior ao AO na África lusófona e a adaptar as edições para o Brasil, onde as diferenças não são apenas ortográficas, como é há muito sabido. A este propósito, um artigo a ler no "Público" de hoje afirma que o AO "não abriu o mercado brasileiro ao livro português".

Nunca a lusofonia precisou de um acordo para se entender, mas como conseguir que os nossos actuais políticos teimosos e irresponsáveis o entendam?

Escol


Há tempos vi um ‘cartoon’ que exemplifica bem o actual estado do sistema de ensino. A primeira imagem referia-se a um passado próximo onde, perante a má nota de um aluno, os pais exigiam satisfações ao filho pelo resultado do exame. Já na imagem seguinte, referente aos nossos dias, os pais, perante idêntica situação, dirigiam a sua indignação ao professor. É obviamente uma caricatura e por isso redutora, mas não deixa de ilustrar o que vivemos.

A massificação do ensino trouxe a tentação do nivelamento por baixo, de alunos e professores, com o consequente facilitismo generalizado e os seus desastrosos resultados.

Um bom exemplo deste estado de coisas está patente nos actuais manuais escolares, nomeadamente na sua simplificação. Vejam-se e comparem-se com os de outros tempos. Dirão alguns que desta forma se consegue chegar a mais alunos, nomeadamente aos que têm mais dificuldades. Mas é exactamente essa opção que tem baixado drasticamente o nível do ensino, prejudicando os melhores.

Na Prefação aos seus “Elementos de História de Portugal”, Alfredo Pimenta afirma que “os estudantes não são todos iguais. Oferecem-nos uma escala que vai dos melhores aos piores: dos mais inteligentes e mais ousados, até aos mais obtusos e mais lentos. Entendo que os livros devem ser feitos para os primeiros e não para os outros. Estes limitar-se-ão ao que podem, guiados pelos professores; aqueles aproveitarão tudo o que se lhes fornecer, e com isso a cultura portuguesa só terá a lucrar. Não devemos sacrificar as inteligências superiores às mediocridades inertes”.

A escola é naturalmente discriminatória. Destina-se a escolher os que se distinguem pela positiva e para tal há classificações. Sendo obrigatoriamente um local onde deve imperar uma igualdade de oportunidades – neste caso de demonstração do mérito –, não deve nunca cair no igualitarismo uniformizador.

Só pela exigência da excelência se conseguirá formar uma elite nova – um escol.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

O cadáver adiado do Acordo Ortográfico


O editorial do "Público" de hoje, sobre o Acordo Ortográfico, toca na ferida: "Aqui reside o erro: mesmo que no Brasil haja aplicação plena, já hoje, Portugal fica para sempre preso a uma grafia singular e individual porque se deu ao trabalho de a inventar. Se a ortografia era diferente nos dois países, continua a sê-lo. Mas agora com muitas “facultatividades” e erros de palmatória. O AO é, desde o seu início, uma enorme ilusão e um gigantesco erro. À falta de coragem para lhe pôr termo, estamos condenados a ver arrastar, penosamente, o seu cadáver adiado."

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Livros nos filmes (IV)


Marlon Brando, no papel de Walter E. Kurtz em "Apocalypse Now", a ler "The Hollow Men"  de T. S. Eliot.

Acordismo governamental


Leio nas notícias que o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, afirmou estar "firmemente empenhado" para que a aplicação do Acordo Ortográfico (AO) possa prosseguir com "naturalidade" e que "não se perspectiva a suspensão ou revisão do Acordo Ortográfico". Recorde-se que o AO estará amanhã em discussão na Assembleia da República e que o deputado social-democrata Mendes Bota fez um pedido para que o seu grupo parlamentar assumisse uma posição firme sobre esta matéria, nomeadamente apresentando um projecto de resolução para a suspensão do AO.

Como já escrevi, esta atitude do actual Executivo é "uma insistência incompreensível, que ganha contornos totalitários e persecutórios, que não conseguiu evitar o caos ortográfico. Ao mesmo tempo, é ainda mais estranho porque vem de um Governo cujas principais figuras se opuseram – e bem – a esta decisão política errada".

Mas demonstra bem que os "governantes" de hoje em dia pouco mais são que "funcionários de manutenção". Mais preocupados com a gestão dos números de forma a agradar aos credores internacionais, são incapazes de marcar a diferença, deixando passar uma oportunidade de ouro para uma decisão de afirmação política em prol de Portugal.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Totofactura


A transformação do Ministério das Finanças numa espécie de Santa Casa, que organiza o sorteio de vários prémios através das facturas pedidas pelos cidadãos, é já de si desrespeitosa da instituição e dos cidadãos. Mas a medida funcionou e muitos portugueses aderiram, enchendo os cofres das Finanças. Mas, como mais vale rir, podemos imaginar que uma das razões por detrás desta ideia foi evitar que se pedissem facturas com o número de contribuinte de governantes. Para o povo faz sentido tentar incomodar os políticos com esse pequeno protesto. Agora, dar-lhes a oportunidade de ganhar um automóvel... Isso é que não!

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Da palavra "urbanização"


«Há palavras que aparecem como vírus num meio propício, alastrando à maneira de epidemia, irritando ou estimulando pela novidade; criam noções sintéticas que influem na maneira de ver; – depois atenua-se a sua virulência e a pouco e pouco quási se destituem de sentido…

Lembro-me, por exemplo, da palavra vitamina que provocou uma pequena revolução nas noções da dietética, e que, impressa sobre qualquer lata de conservas, introduziu uma nota inesperada de mistério na alimentação da gente, dando lugar a série de crendices fantasiosas. – Recordo-me então de quando surgiu o aerodinamismo ao qual se sujeitou a forma de todos os objectos industrializados, desde o avião bombardeiro ao simples cabo de guarda-chuva ou à asa de qualquer cafeteira. – Tivemos o “sex-appeal” prestigioso, vocábulo estrangeiro destinado a provocar certas perturbações… magnéticas, de origem cine-astral, – vocábulo em breve desbancado por outros termos da última hora…

Enfim, creio que também a palavra urbanização participa destes efeitos de novidade mais ou menos excitantes. Urbanização, urbanismo, urbanologia, urbanista, etc. – a sua novidade está apenas no nome, que as respectivas funções existem desde que há civilização.»

Raul Lino
in “Quatro palavras sobre urbanização” (1945).

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Frase do dia


«Nunca como hoje houve uma tão larga indiferença pelo nosso destino colectivo, ou seja, pela história e pela cultura, que nos trouxeram onde trouxeram.»

Vasco Pulido Valente
in "Público"

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pintura


«If you want to find out something about painting you go to the National Gallery, or the Salon Carre, or the Brera, or the Prado, and LOOK at the pictures. For every reader of books of art, 1,000 people go to LOOK at the paintings. Thank heaven!»

Ezra Pound
in "ABC of Reading"

Combate pelo essencial

Enquanto no Parlamento se continua a discutir o referendo à co-adopção ‘gay’, as famílias portuguesas sentem na pele o aperto financeiro a que a desmesura do descalabro governativo do País obriga.

Muitos jovens casais encaram hoje um filho como um gasto elevado. Fazem as contas como se de a compra de um carro novo se tratasse. Se a despesa prevista é incomportável, a decisão vai sendo protelada. Será que ter filhos também é querer “viver acima das nossas possibilidades”?

Mas a questão não é apenas económica. Também socialmente há cada vez mais a tentação do conforto, da “independência” e de uma vida supostamente “livre”. Na prática, uma vida egoísta, solitária e estéril.

As discussões sobre as “novas famílias”, tão em voga para os chantres do “progresso social”, servem apenas para camuflar a ausência de uma política real de apoio às famílias. Às verdadeiras, àquelas que garantem os portugueses do futuro.

Dados recentes revelaram que o nosso país tem a segunda taxa de natalidade mais baixa da União Europeia, mas pelos vistos este ‘ranking’ não preocupa os nossos governantes, cegos pelos “mercados” e pela “retoma”. Portugal gasta apenas 1,5 por cento do PIB em apoios económicos às famílias. Tornamo-nos um país que desistiu dos seus. É incompreensível que não se tomem sérias e urgentes medidas para contrariar o défice demográfico e combater as consequências do envelhecimento da população.

Qualquer Governo, independentemente da sua cor política, deve zelar pelos seus – é a sua obrigação. Cabe-lhe ter uma política de Família, de incentivo à natalidade, de apoio às crianças e com especial atenção às famílias numerosas.

É uma questão de sobrevivência – essencial –, que deve ser uma prioridade nacional.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Livros nos filmes (III)


"Viagem ao Fim da Noite", de Céline, numa prateleira com livros, em "Por um Fio" (1999), de Martin Scorsese.

Enterre-se já!


«Convém que se enterre o AO90, para, duma vez por todas, deixarmos de ter "diretos" que passam a "direitos", "concepções" que soam a "concessões" e *excessões em vez de excepções porque passaram a exceções (sic).»

Francisco Miguel Valada
in "Público"

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sempre


Rodrigo Emílio
18 de Fevereiro de 1944 — 28 de Março de 2004

O sempre nosso Rodrigo faria hoje 70 anos, se ainda estivesse entre nós em corpo, porque em espírito nunca deixará de estar.

Dia d'O Diabo

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Suíça


Todo este alarido sobre o resultado do referendo na Suíça sobre a imigração maciça recordou-me uma entrada do "Diário de Paris" de Marcello Duarte Mathias, do dia 4 de Março de 2001:

«Com uma percentagem esmagadora, a Suíça acaba de votar Não ao referendo sobre a eventual adesão à Europa.
A imprensa pouco refere o assunto, a televisão menos ainda, pois não é notícia que mereça ser valorizada. Imagine-se, por um instante, o contrário. As parangonas nos jornais!»

sábado, 15 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Diálogos bibliófilos (V)


— Quando acho que tenho muitos livros lembro-me de um Amigo que tem mais de 40 mil volumes! — disse o bibliófilo à bibliófila.

— Agora sim, não resisto a Almada: “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido.” — respondeu ela.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Portugueses no mundo

Costuma dizer-se que não há sítio do mundo onde não se encontre um português. De facto, há comunidades lusas espalhadas por todo o globo e que normalmente não esquecem a Pátria que delas tantas vezes se esquece.

Este ano, nos Jogos Olímpicos Inverno, que se realizam em Sochi, na Rússia, o nosso país está representado graças a dois jovens esquiadores lusodescendentes. Nas entrevistas que deram à Imprensa, há duas frases a reter que dizem tudo. Arthur Hanse afirmou: “Tenho um grande orgulho nas minhas raízes.” Já Camille Dias disse que “representar Portugal é uma grande honra”.

No entanto, os responsáveis por tão nobre atitude, que devia encher de júbilo qualquer português, foram alvo de alguns críticos, por não dominarem o idioma pátrio. Devem ser os mesmos que celebram os jogadores de futebol naturalizados que vêem na nova nacionalidade um meio de chegar a clubes milionários...

Arhur e Camille são filhos de portugueses e têm orgulho nisso. São os nossos atletas – são dos nossos – e merecem todo o nosso apoio.

São um exemplo para todos os descendentes de emigrantes portugueses que sentem as suas origens e descobrem o amor pela Pátria-mãe. Representantes contemporâneos de um Portugal maior, que se estendeu aos quatro cantos do mundo.

Devem também ser um exemplo para os que continuam neste rectângulo a vociferar contra tudo e contra todos, descrentes num Portugal que continua bem vivo no coração de tantos. Um sinal de vitalidade que é uma garantia de esperança.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Livros nos filmes (I)


Neve Campbell, no papel de Suzie Marie Toller no filme "Ligações Selvagens" (1998), a ler "Morte a Crédito", de Céline.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Diálogos bibliófilos (IV)


— Um dia os livros expulsar-me-ão de casa... — disse o bibliófilo a um amigo.

— Esse é o destino do bibliófilo.

Viagem ao fundo da noite

Um Amigo anda a ler Céline e conversámos sobre a “Viagem ao fim da noite”. A propósito da tradução do título, lembrei-me de uma resposta de Luiz Pacheco em entrevista:

Guilherme Pereira: Há uns anos, lembro-me que andavas a ler vários livros do Céline. Gostas?
Luiz Pacheco: Eu escrevi um texto sobre o gajo, “Lendo e Relendo Céline”, que foi publicado em Portas do Sol, a página literária do Correio do Ribatejo, e depois foi incluído na Crítica de Circunstância. O Céline era cortado, sabotado, como o Giono... mas eu escrevi aquele texto, sobre a Viagem, porque só tinha esse livro em casa. Era o único, de bolso, no original, em francês. Já tinha lido partes da tradução e fiquei muito chateado. Viagem ao Fim da Noite? O fim da noite é o dia... Devia ser: Viagem ao Fundo da Noite. Mas nesse dia, como era o único livro que tinha à mão li-o do princípio ao fim. Fiquei espantadíssimo. É um livro de arromba. O título do meu texto devia ser: “Lendo, espantado, Céline”. Recebi 20$00 pelo artigo, em selos fiscais que rebatia na papelaria. Escrevi o texto em Setúbal. O Cesariny disse-me: “Já li o teu elogio da traição”. Bardamerda!



Ainda a esse respeito, disse-lhe que o livro da colecção “Apontamentos Europa-América Explicam” sobre Céline, tradução de Maria Belo de um original de Bernard Lalande, publicado em 1996, tem como título “Viagem ao fundo da noite”...

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os inimigos dos livros insistem...


A Librairie Facta, em Paris, foi de novo atacada pelos mesmos que, discordando de ideias, não hesitam em partir vidros e destruir livros. Esta livraria tornou-se um bastião de resistência cultural contra a intolerância.

Foibe



Recordemos as vítimas das «Foibe», mantendo viva a memória da feroz limpeza étnica que provocou 15 mil vítimas há sessenta anos e do êxodo forçado de centenas de milhares de italianos de Ístria, da Dalmácia e do Friuli. Porque a verdade não pode ser enterrada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Hopperiana


"Batman: Year One" (1987), desenhado por David Mazzucchelli e colorido por Richmond Lewis.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Homenagem a Jean-Claude Valla


Pascal Lassalle recebe hoje, às 11 horas portuguesas, no programa "Libre Jounal des Lycéens", transmitido pela Radio Courtoisie, Alain de Benoist, Michel Marmin e Pierre Vial, para homenagear Jean-Claude Valla, antigo secretário-geral do GRECE, antigo jornalista no "Figaro-magazine" e no "Magazine-Hebdo" e fundador dos "Cahiers libres d'Histoire", por ocasião da publicação recente das suas memórias póstumas "Engagements pour la civilisation européenne", pelas Éditions Alexipharmaque.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os homens da mala

Há uns tempos jantei com um antigo colega de curso que está agora num gabinete ministerial. Devo dizer que não tem filiação partidária e que foi escolhido pela competência demonstrada nas funções desempenhadas anteriormente. Não o faço em sua defesa, porque de tal não precisa, mas apenas para registar, com agrado, que nem todos os que chegam a lugares de topo são meros ‘boys’, que conseguiram um tacho devido ao cartão do partido.

Ao falarmos, inevitavelmente, sobre a situação política do País, nomeadamente sobre a vinda da ‘troika’ e dos seus ditames, contou-me que nas ocasiões em que esteve reunido na presença desses “homens da mala”, como lhes chamou, ficou profundamente incomodado. Disse-me que eram indivíduos cinzentos, técnicos frios com uma postura distante, nos quais notou algum desprezo pelos responsáveis nacionais, a quem não reconheciam qualquer autoridade.

Se há algo que partilho com este amigo é o amor por Portugal e, por isso, compreendi naturalmente o que sentia e a razão por que decidiu contar-me tais experiências.

Para além das justificações de ordem económica, financeira, mas também política, há aqui uma intolerável submissão a emissários estrangeiros, que reflecte bem o estatuto de protectorado a que nos entregámos.

Temos seguramente muitas culpas no cartório no que respeita à actual situação do País, mas que esta humilhação sirva para despertar o orgulho em ser português, pelo menos naqueles em que ainda corre sangue nas veias.

Pode ser que assim deixemos de ter gestores de uma empresa em processo de recuperação e passemos a ter homens de Estado, cuja prioridade seja o interesse nacional e não a “retoma” ou os “mercados”. Verdadeiros líderes que mandem os “homens da mala” embora, de vez.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Visita ao cemitério


«Quem hoje procurar onde estão os escritores da direita e não os encontrar, deve ir visitar o cemitério. E faça o mesmo quem nos perguntar onde estão os nossos mestres... Não me parece que seja honesto nem proveitoso dissimular que Robert Brasillach foi um homem político. Os seus romances de encanto — no sentido mais sortílego do termo — envolvem uma penetrante compreensão das épocas e das cidades, dos costumes e das éticas. Ele era eminentemente do seu tempo, procurando, com que simpatia apaixonada, tirar daí uma mitologia que trouxesse ainda alguma doçura de viver. Em troca, queria um estilo. No fundo, a sua política foi a de um alquimista que deseja dar ao crepúsculo as cores da aurora.»

Antoine Blondin

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nos 500 anos de 'O príncipe'

«Il Principe é um tratado sobre o Estado e a conquista do Estado. Um livro que, tal como o seu autor, teve a graça e a desgraça da popularidade, de ser citado e recitado por toda a gente a partir de referências em segunda mão e de fragmentos de divulgação jornalística. O longo estudo-prefácio de Pedullà tem o mérito de situar a obra no contexto e de retomar algumas das questões do 'enigma de Maquiavel': para que escreveu ele O Príncipe? Para conquistar as boas graças dos Médicis, de novo senhores de Florença? Por ter querido, como técnico ou tecnocrata da arte política, elaborar um 'espelho de príncipes' nos antípodas dos escritos pelos moralistas tardo-medievais e renascentistas; ou um panfleto patriótico, um apelo nacionalista, um discurso para libertar a Itália dos bárbaros? Entrando na polémica repúblicas-principados, terá Maquiavel pretendido defender os novos príncipes, os novos reinos unidos e centralizados pela razão de Estado, como forma de modernidade na nova Europa?

Há argumentos e contra-argumentos para todas estas interpretações. Em cinco séculos, O Príncipe, o seu autor e conjunto da sua obra deram lugar a intermináveis estudos, comentários, interpretações, rejeições. O que não deixa de ser natural, se aceitarmos que foi o 'inventor da Política'. Ou, pelo menos, da política moderna, como arte e razão do Estado, uma Política não subordinada à Religião, ou à Moral, ou ao Direito.

Com ele entramos numa terra estranha e incógnita, talvez não no 'Reino do Mal' de que fala Prezollini, mas num mundo e num submundo onde há alturas e abismos. Como tudo o que é humano, demasiado humano.

O Príncipe, na sua pedagogia asséptica e assustadora, escancara alguns desses abismos. É e será sempre, uma leitura necessária.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»