sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O lado selvagem

Into the Wild, Sean Penn, 2007.

There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not man the less, but Nature more.

Lord Byron
in "Childe Harold's Pilgrimage"

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Perigoso despesismo

O Acordo Ortográfico é uma aberração técnica com consequências muito prejudiciais para a nossa língua, ao qual o nosso jornal sempre se opôs, continuando a recusá-lo e a denunciá-lo. Em busca de uma unificação impossível, com o objectivo de fortalecer a lusofonia, o (des)Acordo apenas conseguiu isolar Portugal no disparate.

Uma insistência incompreensível, que ganha contornos totalitários e persecutórios, que não conseguiu evitar o caos ortográfico. Ao mesmo tempo, é ainda mais estranho porque vem de um Governo cujas principais figuras se opuseram – e bem – a esta decisão política errada. É preciso recordar, para dar um exemplo paradigmático, a campanha feita por Paulo Portas no jornal “O Independente”?

Mas, nestes tempos em que a economia domina e a contenção financeira está na ordem do dia, há um aspecto importante que parece não preocupar os nossos governantes. É claro que há um pequeno grupo de pessoas que ganha com as alterações ortográficas, mas os gastos que a sua aplicação implica, nomeadamente na Administração Pública, chocam com a poupança a que o País está obrigado pelos credores internacionais. Ou seja, andamos a destruir um património de todos à custa do dinheiro dos contribuintes.

Para os que ainda acham que o Acordo Ortográfico é um assunto menor porque nos encontramos em plena crise económico-financeira, aqui está uma óptima razão para se parar o delírio.

Para além de um atentado à língua portuguesa, o Acordo Ortográfico é um perigoso despesismo. Como escreveu Pacheco Pereira, “passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos ‘swaps’ e muita da má despesa”.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Portugal no mundo

"Portugalliae que olim Lusitania, novissima & exactissima descriptio"
Fernando Álvares Seco (c. 1559-1561)

«A política de Portugal deriva da sua Geografia e da sua História que por sua vez determinaram a nossa existência independente no mundo.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

domingo, 26 de janeiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

O fogo esperava-nos


Como tesouro guardado
Esperava-nos o fogo
Onde ardia a lenha verde dos nossos anos tenros.
Depois da caminhada,
Maravilhados de mil descobertas,
Ébrios de telhados nobres e pedras antigas,
No fim do verde caminho,
O fogo esperava-nos
Brilhante como ouro.
Inflamava a nossa vida em feixes de centelhas
Que os olhos reflectiam...
Como estrelas na noite
O fogo esperava-nos
Quente. E vivo. E forte.
E as nossas mãos reviviam nestas mãos estendidas.
Nos nossos corações
Brilhava como chama a amizade.

O fogo esperava-nos
Guardado como um tesouro.

François Le Cap

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

E o povo, pá?

Há muito que as esquerdas, depois do sonho da construção do “homem novo”, se dedicam à construção da “nova família”. Isto significa a destruição do modelo familiar como o conhecemos e com o qual nos identificamos.

A primeira batalha foi a do casamento homossexual, mas era claro desde o início que não se ficaria por aí e adopção viria passo a passo. A actual questão da co-adopção é apenas mais um passo, exactamente com o mesmo objectivo. Basta vermos como o interesse das crianças tem sido secundarizado.

O PSD, apesar de tecnicamente ser considerado da direita parlamentar, esteve mal desde o princípio e a proposta de referendo aprovada no Parlamento devido à imposição da disciplina de voto mostra bem como “o que nasce torto tarde ou nunca se endireita”.

Mas é curioso ver como os bem-pensantes da esquerda, que tanto gostam de falar no povo e na democracia, mostram a sua verdadeira face ao recusarem que a questão seja decidida pelos portugueses nas urnas. É óbvio que temem a derrota e não é difícil imaginar que, caso esta aconteça, exijam novo referendo como sucedeu com o aborto. Isto porque, para os que se sentem detentores de uma superioridade moral, a vontade popular só interessa quando concorda com o que eles defendem.

Para além destes, há ainda uma dita direita “moderna” que, não querendo ficar para trás nesta corrida do “progresso social” e sempre com receio de ser considerada “retrógrada”, não hesita em mimetizar os seus adversários.

Por fim, a desculpa da crise não deve impedir-nos de contrariar mais este ataque à família. É nestas alturas, em que o foco mediático está voltado para a economia, que as questões sociais fracturantes passam quase por detrás do pano. Não nos deixemos iludir.

O que está em causa não é um pormenor, é uma visão do mundo. É por ela que nos devemos mobilizar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Legítima defesa


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Maurice Rollet (30/1/1933 - 21/1/2014)


Maurice Rollet partiu para a morada dos Deuses. Médico de profissão, militou desde os anos 60 na Federação de Estudantes Nacionalistas, esteve na fundação do GRECE e ligado à corrente a que se chamou Nova Direita, criou com Jean Mabire o movimento escutista Europe-Jeunesse, e animava a Domus Europa de Roquefavour, na Provença, ponto de encontro onde ao longo dos anos se realizaram festas, reuniões e universidades de Verão de diversas associações. Poeta pagão, passou ainda pelo cinema, como actor, e escreveu letras para as músicas de Docteur Merlin. Deixou-nos o homem, mas ficou o exemplo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Réfléchir & Agir n.º 45


Mais um número da autodenominada “revista autónoma de desintoxicação ideológica”, relativo ao Outono de 2013, que tem como tema central “Sairemos da abjecção?”, num ‘dossier’ que inclui artigos sobre a Europa acéfala, a arte contemporânea, o casamento ‘gay’, a teoria de género, entre outros, e uma entrevista com Pierre-Yves Rougeyron. Destaque ainda para a entrevista com Robert Ménard e para os artigos sobre Alexis Carrel, a revista “Europe Action”, os Wandervogel e a homenagem de Camille Galic a Dominique Venner, para além das habituais notas de leitura e das secções de cinema e música.

sábado, 18 de janeiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crónicas do caos ortográfico (II)


A discussão do referendo sobre a co-adopção por casais do mesmo sexo é reveladora do caos ortográfico instalado. Há quem escreva correctamente "co-adopção", há quem opte pela estapafúrdia grafia que nos querem impor e escreva "coadoção", mas, claro, há também quem prefira uma terceira versão: "co-adoção". De um "acordo" que se caracteriza pelo disparate e pelas facultatividades, outra coisa não se podia esperar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O bando de Argel


A propósito do julgamento que se iniciou ontem, em que está em causa uma alegada difamação de Manuel Alegre pelo general Paula Vicente, o tenente-coronel Brandão Ferreira, o anterior director de «O Diabo», José Esteves Pinto, e um jornalista do mesmo jornal, várias pessoas lembraram o livro de Patrícia McGowan, cuja primeira edição teve o título "O Bando de Argel" e a segunda "Misérias do Exílio". É uma obra que não é fácil de encontrar, mas o texto está disponível em linha, numa edição electrónica feita pela autora: "Misérias do Exílio - Os últimos meses de Humberto Delgado. Portugueses e Africanos na Argélia", por Patrícia McGowan Pinheiro.

Da crise da literatura


«Aos que falam da crise das humanidades e da crise da literatura, há também que saber dizer que sem crise (sem pensamento crítico) não existe qualquer futuro reflexivo, seja em que domínio do conhecimento for. A literatura é um dos mais densos lugares em que essa reflexão e essa compreensão se constroem. A literatura é algo que nos define como cidadãos reflexivos de uma cultura historicamente situada, com um património que hoje, cada vez mais, devemos aprender a valorizar, a praticar e a transformar. É nessa conjugação que reside a eminente dignidade da literatura.»

Vasco Graça Moura
in "Diário de Notícias"

40 anos de “Éléments”


Em Setembro de 1973, Alain de Benoist, Michel Marmin e Jean-Claude Valla lançavam o primeiro número da “Éléments”, revista que seria a voz do Groupement de recherche et d'études pour la civilisation européenne (GRECE), fundado por Alain de Benoist em 1964, e uma lufada de ar fresco num período dominado pela esquerda.

É um caso de longevidade impressionante para uma revista de ideias. Centena e meia de edições com “elementos para a civilização europeia”, num combate metapolítico, fazendo aquilo a que o GRECE chamou o “gramscianismo de direita”.

Na década de 70 do século passado, a corrente que ficou conhecida como “Nova Direita”, liderada por Alain de Benoist, tornou-se num importante contraponto à ditadura cultural de esquerda que tudo dominava. Era um movimento jovem, intelectual, inovador na estratégia e nos temas abordados, que conseguiu estremecer o ‘statu quo’ de então.

A influência do GRECE não se restringiu a França e rapidamente se alastrou a vários países europeus, incluindo Portugal. Apesar de Benoist afirmar, em entrevista a «O Diabo» em 2010, que “a Nova Direita nunca foi para ser uma internacional”, reconheceu que “houve manifestações noutros países” e que por isso “foi uma rede: política, cultural e nacional”. De facto, o livro de Alain de Benoist “Vu de droite. Anthologie critique des idées contemporaines”, publicado pela Copernic em 1977 e que ganhou o Grande Prémio do Ensaio da Academia francesa no ano seguinte, foi publicado no nosso país com o título “Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas" pelas Edições Afrodite” em 1981, com prefácio de José Miguel Júdice. Também a excelente revista de combate cultural “Futuro Presente”, onde encontramos nomes como Jaime Nogueira Pinto, António Marques Bessa, Nuno Rogeiro, Vítor Luís Rodrigues, Miguel Freitas da Costa, entre tantos outros.

Neste número especial de aniversário, com 96 páginas, o destaque vai naturalmente para o ‘dossier’ que revela os arquivos da revista, com vários textos escolhidos, incluindo a participação de figuras de relevo como: Eric Rohmer, Raoul Girardet, Mircea Eliade, Jean Cau, Peter Handke, Alexandre Zinoviev, Jean Anouilh, Henri Vincenot, Claude Imbert, Jean-Marie Domenach, ou Jean Raspail. Mas não há apenas um exercício de memória, pois no ‘dossier’ intitulado “Combate das ideias” encontramos vários artigos que reflectem sobre a actualidade, abordando os mais diversos temas.

Quarenta anos depois, esta continua uma revista aberta a todos os que reflectem sobre um renascimento da civilização europeia na era da mundialização.

Utopias


«Uma das características das utopias - de todas as utopias, mas ainda mais das utopias igualitárias e libertárias - é conduzirem ao contrário dos seus objectivos, quando acontece a desgraça de serem postas em prática.»

Jaime Nogueira Pinto
in «Sol»

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fascismo nunca mais


Um amigo assistiu ao concurso televisivo "Quem quer ser milionário?" e ficou chocado por a concorrente não saber a resposta à pergunta na imagem. Lembrei-me logo de uma resposta memorável dada no inacreditável programa "A Amiga Olga", da TVI, quando uma mulher disse que o primeiro nome de Hitler era heil.

Mas não é de estranhar. Depois de tantos anos a pregar o antifascismo, a ditadura do politicamente correcto apenas conseguiu a ignorância.

O ataque dos mortos-vivos


Há algum tempo que vejo notícias sobre a crescente preocupação, nomeadamente nos EUA (where else?), com um possível ataque de zombies. É claro que a temática dos mortos-vivos, ainda para mais para um apreciador do trabalho do realizador de cinema George A. Romero como eu, me captou a atenção e o assunto divertiu-me.

Mas atenção, o fenómeno ultrapassou os limites da mera brincadeira. Multiplicam-se as páginas na internet com as "melhores formas de se defender de um ataque de zombies", acesas discussões sobre o assunto, nas quais muitos crêem e garantem que que vai acontecer. Apesar de continuar a ser um divertimento para certas pessoas, no meio deste delírio há quem sustente a teoria, supostamente "séria e fundamentada", de que uma nova droga faz com que os seus consumidores fiquem com um aspecto e com comportamentos de um morto-vivo. Enfim, diz o povo que "há malucos para tudo"...

Acontece que há quem altere a sua casa, ou construa abrigos, como precaução em caso de este ataque se verificar e quem compre armas específicas para melhor se defender deste perigo imaginário. O cúmulo foi o lançamento de uma linha de munições chamada Zombie Max, por uma conhecida marca, para responder a esta procura crescente.

A verdade é que quem está tão preocupado com um ataque de zombies são aqueles cuja vida se resume a um total alheamento da realidade, dominado por videojogos, televisão, mundos virtuais e, especialmente, muita ignorância. Os verdadeiros mortos-vivos, portanto.

A nossa cidade

A notícia de que o icónico Cinema Londres, na Av. de Roma, em Lisboa, vai dar lugar a uma loja de produtos chineses provocou o protesto de moradores do bairro e alguma mobilização popular.

Impõe-se aqui dizer que é um local que me diz directamente respeito. Há um lado pessoal nesta transformação que me incomoda bastante. Recordo-me de, em criança, ir à Pastelaria Roma, mesmo ao lado do cinema. Era um ponto de encontro por excelência naquela zona, que nem pela sua dimensão perdia as virtudes de café de vizinhança. A Roma foi ocupada, há uns bons anos, por uma conhecida cadeia de ‘fast-food’ e a magia do local, naturalmente, desapareceu. Já o Londres resistiu por mais algum tempo, mas a crise e os novos hábitos têm vindo a condenar os cinemas clássicos da capital.

Este não é um exercício de lamechice nostálgica. É um exemplo que conheço, que vivi, que senti. Mas casos como este há por toda a cidade. Em vez de um café de bairro passámos a ter hambúrgueres a metro como em qualquer lugar do mundo e em vez de um cinema vamos ter agora um ponto de venda de produtos importados do outro lado do globo.

Dirão os bem-pensantes do costume que é a “mundialização”, o “mercado global”, como se tal fosse positivo. Não é. Trata-se de um processo de uniformização que descaracteriza o nosso ‘habitat’ – com que nos identificamos –, que o torna mais impessoal e corrói o sentimento particular de comunidade local.

Houve quem criticasse tais lamentos dizendo que quem chora hoje pelo Londres não lá foi no passado recente, quando mais necessitava de espectadores para sobreviver. Não é uma crítica sem sentido, mas não invalida a sua defesa actual.

Este é um exemplo do que acontece por todo o País diariamente. Infelizmente, só sentimos a nossa cidade quando a vemos desaparecer. Que nos sirva de lição! Se não queremos viver numa cidade dos outros, nivelada por modas estrangeiras, cabe-nos manter viva a nossa cidade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cadastro


"A Goldman Sachs aparenta ser um banco, mas o seu currículo mais parece um cadastro, devido às suas ligações com uma interminável série de irregularidades, que vão das bolhas imobiliárias e financeiras, à manipulação de mercados, à corrupção de governos, incluindo a maquilhagem das contas públicas gregas, que inaugurou a actual crise europeia."

Viriato Soromenho Marques
in "Diário de Notícias"

Direita?


A propósito da estafada discussão sobre a definição de esquerda e direita, lembro-me do saudoso Rodrigo Emílio. No seu manifesto "Por uma Direita Moderna... Muito Antiga", onde caracteriza o "animal de direita", escreve uma frase que recordo sempre quando oiço os actuais direitinhas de serviço e o seu discurso politicamente correcto: «continua a haver, na verdade, uma direita propriamente dita e uma direita impropriamente dita, sendo que a direita propriamente dita é, quanto a mim, a direita que não convém à esquerda: e é essa, e essa mesmo — essa e não outra —, a direita a que pertenço, de corpo e alma, e de alma e coração.»

A Europa dos funcionários


"Definir o conceito estratégico da União é o problema que exige atenção responsável e decisão, o que impedirá que a realidade seja colocada em suspenso pela questão de saber o que farão os empregados da troika, cujas deslocações, programas e opiniões directivas devem ser respeitosamente acatados pelos povos que os não escolheram, e pelos governos que foram eleitos para, nos Conselhos da União, defenderem um conceito estratégico sem o qual a crise apenas variará de definição, ou apenas de nome. Só por uma atitude criativa de governantes, não de funcionários, a Europa será uma realidade com voz no mundo."

Adriano Moreira
in "Diário de Notícias"

Humores


O comediante Ricardo Araújo Pereira - que, como qualquer humorista, não perde oportunidade para fazer política - fez uma piada na cerimónia de entrega dos Prémios Arco-Íris da ILGA contando uma história segundo a qual uma jornalista lhe teria perguntado se preferia que as filhas fossem lésbicas ou sportinguistas, ao que disse então que a resposta era fácil porque "ser lésbica não é defeito". O "Correio da Manhã" noticiou o sucedido com o título "Prefiro ter filhas lésbicas a serem do Sporting", numa dedução lógica.

Como era de esperar, a coisa causou reboliço nas redes sociais, com adeptos revoltados e a atenta polícia da "homofobia" a caírem-lhe em cima. Não deixa de ser irónico, mas o politicamente correcto é mesmo assim... O caso até tem bastante graça, porque a piadola conveniente se virou contra o próprio.

Seja como for, Ricardo Araújo Pereira não tem muito com que se preocupar. Estivesse ele em França e o alvo da piada fosse outro e teria apelos à censura, vindos das mais altas figuras de Estado, para além de ameaças públicas à integridade física.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O poder das elites ideológicas


«Que podem fazer então as elites ideológicas? Influenciar os modos de pensamento, como entendeu Antonio Gramsci, e preparar o caminho de uma nova ideologia ou de uma nova fórmula política triunfante, mobilizadora, capaz de derrubar a fórmula da elite dirigente. Neste sentido, funcionariam em aliança com a contra-elite. Gramsci chamou a estes intelectuais afectos ao novo príncipe (novo poder) os intelectuais orgânicos, destinados a destruir as bases e fundamentos ideológicos de elites enraizadas, como seja a religiosa, a militar e a política. A sua função crítica é deletéria e é preciso que o seja nesta conjuntura. As sociedades burguesas encontram-se defendidas no plano intelectual por diversos mecanismos de justificação e o que é preciso e urgente é desmontá-los. Entre eles está o Direito, a Religião, o conceito de Família, de Escola, o Serviço Militar e assim por diante, como nos haveria de especificar o francês Althusser. O melhor será a infiltração e o uso dos meios de comunicação de massa para alterar a cultura. Se há uma teoria de mudança social e política muito coerente vinda dos marxistas reflexivos é sem dúvida esta: as trincheiras intelectuais das sociedades capitalistas têm de ser derrubadas pelos intelectuais orgânicos situados nos mais diversos meios de influência, nomeadamente os meios de comunicação de massa, os quartéis, as universidades, as igrejas.»

António Marques Bessa
in "Elites e Movimentos Sociais"

Chuva molha parvos


Nasceu um novo blog que merece ser seguido, o Chuva Molha Parvos. A recente vaga de frio nos EUA veio abalar os crentes na teoria das "alterações climáticas" e no "aquecimento global". Como se afirma na apresentação, "a Ciência não tem dogmas. O método científico baseia-se na observação de fenómenos e na formulação de hipóteses que os expliquem. Como tal, em ciência todas as teorias estão sujeitas a discussão e todas as teorias podem ser melhoradas ou rebatidas. As teorias do 'aquecimento global' ou, como se convencionou chamar, das 'alterações climáticas', não são excepção. Apesar das manchetes bombásticas e das profecias apocalípticas, não existe consenso científico sobre as teorias das 'alterações climáticas'. Pelo contrário, existem cada vez mais dúvidas a este respeito". Esta é a razão de ser deste novo espaço blogosférico "dedicado à divulgação em língua portuguesa da discussão sobre as teorias do 'aquecimento global' e das 'alterações climáticas'. Com a certeza de que o mundo não acaba amanhã".

sábado, 11 de janeiro de 2014

Um dever


«Já em 1908, e mesmo antes, pensava que a literatura de uma nação é importante. Palavras, meios de comunicação, literatura, a forma de comunicação mais condensada, comunicação dos factos mais básicos e essenciais. Ideias necessárias para conduzir a uma vida honrada e transmitida pelos melhores livros. O dever de qualquer homem, tão depressa se faz homem verdadeiro, é manter vivos esses livros e essa tradição.»

Ezra Pound

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A hora dos eurocépticos


As eleições para o Parlamento Europeu serão no dia 25 de Maio deste ano. A seis meses de distância são cada vez mais claros os indicadores que os partidos soberanistas terão uma votação expressiva. A capa da edição da semana passada da revista “The Economist” é a demonstração prática de que o crescimento previsto dos partidos eurocépticos nas eleições europeias é uma realidade à qual não podemos escapar. A revista faz um paralelo com a alteração provocada na política norte-americana com o chamado Tea Party, em 2010, apesar das claras diferenças ideológicas, e elege como protagonistas Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional (FN) francesa, Nigel Farage, do Partido Independentista do Reino Unido (UKIP), e Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV) holandês.

O País não se tem sabido governar desde 1974

Mais de mil portugueses residentes em 59 países participaram no estudo “O Sistema Político-Partidário em Portugal visto pela Diáspora Portuguesa”, conduzido por André Corrêa d’Almeida, professor adjunto da Universidade Columbia, nos Estados Unidos da América, e director executivo do The Earth Institute, realizado no âmbito da Sustainable Development Solutions Newtwok, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas que apoia soluções de desenvolvimento sustentável. Segundo este investigador a “iniciativa tem como fim contribuir para a modernização do sistema político-partidário em Portugal” e é um “contributo para uma reflexão 40 anos após o 25 de Abril”. Ora, nem de propósito, 91 por cento dos inquiridos consideraram que o País não se tem sabido governar desde 1974. Uma percentagem impressionante, mas que não é de estranhar.

Os nossos emigrantes vêem o País de fora, não dependem directamente do sistema político, e podem criticá-lo livremente. Também não sentem a pressão que subsiste de que qualquer discordância com o regime instituído pelo 25 de Abril é automaticamente vista como “fascismo”.

O mesmo estudo revela que os portugueses emigrados estão de acordo em várias medidas que por cá são normalmente consideradas como “populistas”, quando não “anti-democráticas”, pelos senhores que estão no poleiro. Por exemplo, a proibição dos deputados acumularem as funções com empregos no sector privado (91,3%), a necessidade de mudar o sistema de financiamento dos partidos (86,7%), a redução do número de deputados (85,4%), o agravamento das penas para más decisões políticas (85%) e a atribuição de mais poderes aos tribunais para investigarem e acusarem políticos (81,7%).

Mas este sentimento de esgotamento do actual sistema político não é exclusivo de quem partiu, também se sente cada vez mais por cá.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O gesto da discórdia

O ambiente político que se vive em França é de insatisfação geral com as medidas do socialista François Hollande. Nesta contestação, há um gesto que está a ser usado como símbolo de protesto, mas há quem assegure que se trata de uma forma de anti-semitismo. Na origem da polémica está o comediante Dieudonné, que enfrenta ameaças de novos processos judiciais e arrisca o encerramento do seu teatro. O humor tem limites?

Dieudonné
Dieudonné M’bala M’bala, comediante de origem franco-camaronesa, notabilizou-se no início dos anos 90 do século passado ao fazer humor com os estereótipos raciais, em conjunto com o comediante judeu Élie Semoun. Também se envolveu na política, concorrendo em Dreux contra a Frente Nacional francesa, partido que à época considerava racista. Tornou-se gradualmente um artista conhecido, fazendo vários espectáculos, aparições televisivas e sendo actor em filmes, como em “Astérix e Obélix: Missão Cleópatra”, de 2002.

No entanto, considerando que a sátira não tem limites, fez uma paródia sobre um “colono israelita nazi”, no final de 2003. Foi o início do ostracismo. Vários críticos consideraram que ele tinha passado os limites, mas Dieudonné nunca se desculpou. Pelo contrário, afirmou que tal como ridicularizava o extremismo islâmico, podia fazer o mesmo com o sionismo e com o que lhe apetecesse. Mas a comparação de pouco lhe serviu e começaram os processos judiciais, o cancelamento de espectáculos e o afastamento dos principais meios de comunicação social.

A partir dessa altura, Dieudonné começa a aproximar-se de várias figuras da extrema-direita francesa, incluindo Jean-Marie Le Pen, então presidente da FN, historiadores revisionistas, defensores da causa palestinas, entre outros. Os seus críticos dizem que se tornou “obcecado com os judeus”, mas Dieudonné sempre afirmou que não é anti-semita, mas anti-sionista.

Aliás, foi sob essa premissa que se candidatou à presidência francesa em 2007 e, depois, com a “Lista Anti-Sionista”, ao Parlamento Europeu, em 2009, ficando muito longe de ser eleito.

Impossibilitado de actuar na maior parte das salas de espectáculos francesas, Dieudonné arrendou o Theâtre de la main d’or, em Paris, que está normalmente esgotado. Também a ‘internet’ é um meio onde este comediante se tornou bastante popular. Conseguindo quebrar a censura, ainda que banido dos ‘media’, Dieudonné transformou-se para muitos franceses um símbolo de resistência anti-sistema e de denúncia da actual classe política.

Meter uma ‘quenelle’
Uma ‘quenelle’ é um prato francês que tem uma forma que lembra um grande supositório. Por isso, existe a expressão “meter uma ‘quenelle’ em alguém”, normalmente acompanhada de um gesto, cujo mais semelhante em Portugal será o manguito. Aliás, o significado de protesto é o mesmo.

Dieudonné popularizou o gesto, fazendo-o com o braço esticado para baixo. Por isso, foi acusado de fazer uma “saudação nazi invertida”. Mas o comediante sempre recusou que o fosse. Pelo contrário, afirmou que se trata de um gesto anti-sistema e que a ‘quenelle’ tinha “ganho vida própria”.

Estudantes fazem a 'quenelle' junto ao ministro do Interior, Manuel Valls
De facto, o fenómeno tornou-se viral nas redes sociais. Começaram a multiplicar-se as fotografias de pessoas a fazerem o gesto nos mais variados sítios. O caso que suscitou mais polémica foi o dos estudantes que fizeram a ‘quenelle’ junto ao ministro do Interior, Manuel Valls. Mas houve outros casos badalados, como fotografias de militares, bombeiros, celebridades, ou o do Astérix e Obélix que o fizeram junto a uns visitantes do Parc Astérix. Recentemente, o jogador francês de futebol Nicolas Anelka fez a ‘quenelle’ durante um jogo para celebrar um golo.

A moda pegou e quanto mais as autoridades tentam reprimir, mais o gesto se torna comum. Como um desafio ao governo com o qual não estão de acordo. A reacção das autoridades tem sido a de perseguição, com a ameaça do ministro Manuel Valls de impedir, por todas as vias legais, os espectáculos ou demonstrações públicas de Dieudonné que considere “ofensivas para a memória das vítimas do Holocausto”.

Ainda que para alguns tenha uma carga anti-semita, a ‘quenelle’ ultrapassou esse significado tornando-se um gesto da discórdia em França e uma grande dor de cabeça para Hollande e o seu Executivo socialista. A polémica está para durar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os homens tinham deixado de lutar...


"Era bom lutar, pensava. Era como limpar sentinas. Era óptimo para a circulação do sangue e dos sucos gástricos colocar nos punhos toda a angústia, o mau humor, a desesperança que lastravam a alma. Era quase terapêutico que a acção desses tréguas por algum tempo ao pensamento, e os impulsos atávicos, que faziam o ser humano escolher entre a morte ou a sobrevivência, reclamassem a sua parte no fogo da vida. Talvez por isso o mundo estivesse agora como estava, reflectiu. Os homens tinham deixado de lutar, porque era mal visto e isso estava a enlouquecê-los."

Arturo Pérez-Reverte
in "O Cemitério dos Barcos Sem Nome"

Acca Larenzia


Corria o ano de 1978 e em Itália as posições políticas radicalizaram-se até níveis insuportáveis: viviam-se os célebres anos de chumbo. Em Roma, a 7 de Janeiro, um grupo de jovens militantes do Fronte della Gioventù preparava uma distribuição de folhetos quando, à saída de uma reunião na secção de Acca Larenzia do Movimento Sociale Italiano (MSI), foi surpreendido por diversas rajadas de metralhadora. Franco Bigonzetti e Francesco Ciavatta (de 20 e 18 anos, respectivamente) morreram imediatamente. Vicenzo Segneri, alvejado no braço, conseguiu voltar e fechar novamente a porta blindada. À medida que a notícia se espalhou, acorreram à secção numerosos militantes e simpatizantes, assim como polícias e jornalistas. O clima era de consternação e a tensão estava à flor da pele. Por distracção, um jornalista da RAI lançou uma beata no charco de sangue de um dos jovens assassinados. A reacção dos militantes não se fez esperar e a polícia foi forçada a intervir. No meio da confusão, Stefano Recchioni foi atingido na cabeça pelo disparo de um carabiniere e morreu dois dias depois, no hospital. O massacre foi reivindicado pelos Núcleos Armados de Contra-Poder Territorial, em nome do "antifascismo militante", e foram detidas algumas pessoas, mas pouco tempo depois os presumíveis membros do comando responsável acabaram por ser absolvidos por falta de provas.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Metafísica da memória

"Memória" é uma palavra que sofreu usos excessivos. Mas, sob o pretexto de que a palavra "amor" é usada gratuitamente, deveríamos não mais a utilizar no seu sentido pleno? O mesmo vale para a "memória". É pelo vigor da sua memória, transmitida no seio das famílias, que uma comunidade pode atravessar os tempos, apesar das ameaças que tendem a dissolvê-la. É à sua muito longa memória que os chineses, os japoneses, os judeus e tantos outros povos devem o facto de terem superado perigos e perseguições sem jamais terem desaparecido. Para sua infelicidade, por causa de uma história rompida, os europeus estão dela privados.

Pensava nesta carência da memória europeia quando alguns estudantes me convidaram para falar do futuro da Europa e do "Século de 1914". A partir do momento em que a palavra Europa é pronunciada surgem os equívocos. Alguns pensam na União Europeia para a aprovar ou criticar, lamentando, por exemplo, que ela não seja uma "potência". Para dissipar toda a confusão, gosto de precisar sempre que deixo de lado a parte política. Reportando-me ao princípio de Epicteto, "o que depende de nós e o que não depende", sei que depende de mim fundar a minha vida sobre os valores originais dos Europeus, enquanto mudar a política não depende de mim. Também sei que, sem uma ideia que a anime não há acção coerente.

Essa ideia enraíza-se na consciência de Europa-civilização que anula a oposição entre região, nação, Europa. Podemos ser ao mesmo tempo Bretão ou Provençal, Francês e Europeu, filho de uma mesma civilização que atravessou os tempos depois da primeira cristalização perfeita que foram os poemas homéricos. "Uma civilização – dizia excelentemente Fernand Braudel – é uma continuidade que, quando muda, mesmo se tão profundamente que possa implicar uma nova religião, incorpora valores ancestrais que sobrevivem através dela e permanecem a sua substância". Nesta continuidade, devemos de ser o que somos.

Na sua diversidade, os homens não existem senão pelo que os distingue: clãs, povos, nações, culturas, civilizações, e não pela sua animalidade, que é universal. A sexualidade é comum a toda a humanidade, tanto quanto a necessidade de comer. Em contrapartida, o amor, como a gastronomia, são próprios de uma civilização, isto é, de um esforço consciente sobre o longo prazo. E o amor como o concebem os europeus está já presente nos poemas homéricos pelas personagens contrastantes de Helena, Nausícaa, Heitor, Andrómaca, Ulisses ou Penélope. O que se revela através das personagens é totalmente diferente do que mostram as grandes civilizações da Ásia, cujo refinamento e beleza não estão em causa.

A ideia que fazemos do amor não é menos importante do que o sentimento trágico da história e do destino que caracteriza o espírito europeu. Define uma civilização, a sua espiritualidade imanente e o sentido da vida de cada um, como a ideia que fazemos do trabalho. Este tem por único fim "fazer dinheiro", como se pensa do outro lado do Atlântico, ou tem por fim, ainda que assegurando uma justa retribuição, a realização pessoal visando a excelência, mesmo em tarefas na aparência tão triviais como os cuidados da casa? Esta percepção conduziu os nossos antepassados a criar sempre mais beleza nas tarefas mais humildes como nas mais altas. Ter consciência disso significa dar um sentido metafísico à "memória".

Cultivar a nossa "memória", transmiti-la viva aos nossos filhos, meditar também sobre as provas que a história nos impôs, esse é o prelúdio de todo o renascimento. Face aos desafios inéditos que nos foram impostos pelas catástrofes do "século de 1914" e a sua mortal desmoralização, encontraremos na reconquista da nossa "memória" étnica respostas que eram desconhecidas daqueles que viveram num mundo estável, forte e protegido.

Dominique Venner
in «La Nouvelle Revue d’Histoire» n.° 40, Janeiro-Fevereiro 2009.

Crónicas do caos ortográfico


Assisto a um seminário de apresentação de um projecto universitário europeu. No texto projectado na tela coexistem "afectar" e "selecionar", entre muitos outros exemplos. A ortografia é semi-acordizada, uma variante que ganha cada vez mais adeptos, ainda que por ignorância. Bem-vindos ao admirável mundo novo do Acordo Ortográfico!

Ironias


Os mesmos das esquerdas que outrora classificavam Eusébio e Amália como símbolos da "ditadura" celebram-nos hoje como figuras nacionais. Uma ironia a ter em conta no ano do quadragésimo aniversário do 25 de Abril...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Portugal: uma nação com futuro


É habitual fazer-se no final do ano uma revista dos principais acontecimentos, um exercício que nos deve levar a reflectir sobre o futuro. É também esta a época propícia a promessas para um novo tempo, a decisões de mudança. É o tempo de acreditarmos que nem tudo está perdido e que podemos alterar o curso da nossa vida. Por isso, Janeiro, o primeiro mês do ano, deve o seu nome a Jano, o deus dos inícios e fins para os romanos. Impõe-se, assim, uma análise do passado recente de Portugal. Não para entrar no coro catastrofista que parece ter tomado conta do País, nem no clube das esperanças vãs de promessas eleitoralistas, mas que descubra na atitude recente dos portugueses o espírito de um povo que outrora venceu ventos e tempestades e descobriu o mundo. As estações do ano fazem também parte da vida, por isso sabemos que a seguir ao Inverno chega a Primavera. Portugal tem futuro.


O nosso país é filho da Reconquista. Essa força motriz fundacional preservou a nossa independência ao longo dos séculos. É importante que a tenhamos presente nos tempos difíceis que atravessamos. É a esperança que nos trouxe, enquanto nação, ao século XXI e que nos assegurará o futuro. Sabemos que podemos mudar de direcção e evitar o declínio do nosso país, da nossa gente. Mas, como diz o povo, “as coisas não caem do céu”...

Crise
A crise económico-financeira abateu-se sobre Portugal, tendo-se vindo a alastrar a cada vez mais países, pondo em causa um modelo de desenvolvimento e afectando directamente as famílias, que sentiram na pele os efeitos das chamadas medidas de austeridade e contenção. Saindo do economês, essa novilíngua tão em voga nos dias que correm, os portugueses sofreram cortes nos salários e nas pensões, ao mesmo tempo que foram confrontados com um aumento generalizado dos preços. As falências multiplicaram-se, o desemprego subiu em flecha, a emigração voltou a ser a solução para cada vez mais pessoas e o nível de vida baixou.
No entanto, esta crise, contrariamente ao que certos “iluminados” nos querem fazer crer, não é apenas económica. É, sobretudo, política.
Escreveu Camões que “o fraco rei faz fraca a forte gente”. E como o temos visto na História recente de Portugal. Um país que se hipotecou ao estrangeiro a troco de uns cobres, que engordaram uma classe política subserviente, sem qualquer sentido nacional.

Soberania
A soberania nacional voltou ao debate público. Se bem que a soberania política pouco mais seja que uma ficção, hoje em dia, quando estamos sujeitos à União Europeia e, pior, aos desmandos dos ditos “mercados internacionais”, sob as fiscalizações periódicas dos técnicos da ‘troika’ que nos comanda, a soberania não se resume a esse aspecto.
A cultura é um dos pilares da soberania e talvez por isso tem sido paulatinamente delapidada. Um valor fundamental é a língua portuguesa e a sua afirmação no mundo. Ora, neste caso, com o disparate do famigerado Acordo Ortográfico, tudo indica que se repita o que aconteceu no passado, ficando Portugal a falar – ou melhor, a escrever – sozinho, depois de uma cedência incompreensível.
O poder da lusofonia e a área de influência geopolítica de Portugal não dependem de um acordo ortográfico, que ainda por cima se revelou bastante prejudicial.
Também a nível interno o caos ortográfico apenas veio agravar o mau estado da educação no nosso país, comprometendo a formação dos mais jovens.
Outro aspecto, muito importante e a não descurar, é o descontentamento que se vive nas forças de segurança. Estas são um pilar do Estado e quando assistimos à manifestação das polícias em frente à Assembleia da República e ao mal estar nas Forças Armadas não podemos ficar descansados.
Ainda assim, o facto de a soberania voltar a ser um assunto discutido na praça pública demonstra um reconhecimento da sua importância. Não é a primeira vez na História que nos vimos privados da nossa soberania. Não devemos, por isso, aceitar passivamente a actual situação como uma finalidade. Devemos, pelo contrário, entendê-la como uma motivação para uma restauração.

Partir
A emigração atingiu níveis preocupantes, com números impressionantes que ultrapassam os dos anos 60 do século passado. É no estrangeiro que principalmente a geração mais nova procura e encontra trabalho. São jovens com formação que saem todos os dias em busca do que o actual sistema não lhes proporciona. E não é só a crise que lhes abre a porta, ouvimos o primeiro-ministro afirmar que a emigração é uma oportunidade.
Parece a solução fácil e imediata para os preocupantes números do desemprego que comprometem os governantes, mas é uma atitude derrotista de quem faltou aos seus.
No entanto, vemos que os portugueses que partem vingam lá fora. É um sinal de que conseguimos quando queremos, pressionados pelas circunstâncias, e que o mesmo fenómeno se pode passar dentro de portas.

Bloqueados
No que respeita ao sistema político, é evidente que este se encontra bloqueado. Os partidos pouco mudaram desde o 25 de Abril de 1974. Foram deixando pelo caminho as convicções ideológicas e perdendo militância. Os cidadão foram-se sentido cada vez menos representados e por isso aumentam os protestos de rua e a abstenção eleitoral. As tentativas de criação de novas forças políticas não passam de aventuras românticas que normalmente morrem na praia.
Portugal é o país do extremo-centro, onde os políticos são criados nos viveiros das juventudes partidárias e governar passou a ser como gerir uma grande empresa. Há muitos que não governam, antes se governam, numa estranha cumplicidade entre a política e o mundo dos negócios e das negociatas, dos conhecidos e dos conhecimentos, dos interesses, quase sempre próprios.
Para piorar, há um sentimento generalizado de que os políticos beneficiam de um estatuto de impunidade e que nunca são penalizados, mesmo quando infringem a lei, apesar de algumas condenações. É o reflexo de uma Justiça que também se afastou do cidadão comum e que parece apenas ser para quem tem possibilidade para pagar elevadas custas judiciais e aos advogados mais conhecidos da praça.

Indecisão
Vivemos tempos de indecisão e de insegurança. Quando as instituições falham, é difícil acreditar no País.
As manifestações de rua, as greves e demais protestos, mostraram um descontentamento generalizado. Claro está que muitos apenas querem que tudo fique como antes e muitas destas acções são orquestradas pelas esquerdas, sempre ansiosas por manipular o povo. Mas cada vez mais pessoas descrêem no actual sistema partidário e nas promessas de milagres daqueles que nunca ocuparam o poder, nem fizeram nada para melhorar o estado do País.
Por outro lado, vimos como na adversidade muitos souberam “dar a volta”. Não esperaram por subsídios ou por “ajudas externas”, como fez o Governo. É uma faísca para atear a chama da mudança. Uma chama viva que nos ilumine um novo caminho.
Porque é preciso estar entre a espada e a parede para tomar decisões arriscadas, mas que nos podem salvar a vida.

Triste fado?
Há sempre quem assegure que o declínio é o triste fado nacional e que regurgite recorrentemente o discurso da inviabilidade de Portugal. Há mesmo quem declare a morte da Pátria e a apresente como solução! Também aqui não há novidade e, se olharmos para trás, temos vários exemplos desta trágica profecia que, felizmente, nunca se concretizou.
Na conclusão do seu último livro, intitulado “Portugal: Ascensão e Queda”, Jaime Nogueira Pinto afirma: “Num mundo globalizado e com uma cultura cosmopolita de movimento e mudança, os portugueses têm seculares vantagens competitivas: do cosmopolitismo, identificado por Pessoa como característica nacional, à capacidade de resposta aos grandes desafios identificada por Jorge Dias. Subimos sempre que os acontecimentos, a necessidade e os ideais nos chamam para aventuras e empresas ousadas, afundamo-nos quando ‘fracos reis’ nos condenam a papéis medíocres de imitadores e espectadores servis de modas e glórias alheias”.
É a hora de sermos portugueses!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

Um desastre


«François Hollande – Um desastre em França e na Europa, o sr. Hollande resolveu que preferia ser um guerreiro africano para restaurar a “grandeza gaullista”. O socialismo leva a tudo.»

Vasco Pulido Valente
in «Público»

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Frase do dia

«Estas greves à portuguesa são pura encenação.»

João Miguel Tavares
in «Público»

Alma portuguesa


«Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos de nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade; de mais longe ainda, da confusão de povos heterogéneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria. Houve um momento em que, no meio dessa confusão rumorosa e guerreira, se destacou uma voz proclamando um Povo, gritando a Alma duma Raça: foi a voz de Viriato; foi o Verbo criador que encarnou em Afonso Henriques e se tornou Acção e Vitória. Depois fez-se Verbo novamente, exaltou-se num sonho de imortalidade, e foi o Canto eterno d'Os Lusíadas! Depois, cansado das longas terras, dos longos mares, como que adormeceu num sono de tristeza, de olhos postos no Passado (...).

E por isto tudo, Portugal não morrerá; nem uma Pátria morre, no instante em que encontra o seu espírito. Portugal não morrerá, e criará a sua nova Civilização, porque vê que a sua alma é inconfundível, que encerra em si um novo sentido da Vida, um novo Canto, um novo Verbo, e, portanto, uma nova Acção.»

Teixeira de Pascoaes

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Já não há heróis?

Na sociedade desvirilizada do actual mundo Ocidental, falar em heróis é quase um tabu. Algo reservado aos romances de aventuras e que não faz sentido nestes tempos imediatos e instantâneos de paz aparente.

Mas se há ensinamento que a História nos trouxe é que o futuro é sempre desconhecido e que a mudança pode precipitar-se quando menos esperamos. Em períodos de crise revelam-se homens superiores, que se destacam pela coragem, pelo exemplo, pela dedicação a uma causa comum.

Para alguns a guerra é uma coisa do passado ou, na melhor das hipóteses, uma realidade televisionada que se passa num lugar distante, mas como portugueses sabemos que há não muito tempo uma geração lutou pela Pátria.

A esse propósito, recordei-me automaticamente de um herói inultrapassável da Guerra de África: Alpoim Calvão. Como escreveu Rui de Azevedo Teixeira, na última edição da revista “Tabu”, Alpoim Calvão foi “o homem que, com Chenier de Giordano, pode afirmar ‘Con la mia voce, ho cantato la Patria’; o homem que, se não ganhou – nem perdeu – a Guerra da Guiné, ganhou a guerra dos mitos e das lendas; o homem que, se falhou nalguma coisa, foi no século; esse homem, um Grande de Portugal que quer as cinzas enterradas na água, lá onde o ‘suave e brando Tejo’ morre, segue o seu caminho de cara ao sol que agoniza no Mar Português.”

Os grandes de Portugal nunca deixaram de marcar a diferença no nosso percurso nacional quando foi necessário. Mas todos os que, como nós, acreditam em Portugal perpetuam uma Nação antiga. Sejamos heróis de Portugal nessa crença. Acreditemos num amanhã melhor, mas pelo qual combatemos, diariamente, com amor pela geração futura, que herdará a lusitana antiga liberdade.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».