quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O último refúgio do homem livre


A defesa dos livros e da leitura como forma de estruturar o nosso pensamento, tão necessária na era do imediatismo, é por muitos criticada com o falso argumento da inevitável mudança provocada pela tecnologia.

Para os eternos crentes na técnica, o livro em papel tem os dias contados e em breve será substituído por suportes digitais cada vez mais avançados e em permanente alteração. Convém recordar que semelhante vaticínio nada tem de novo e que, historicamente, falhou pura e simplesmente. Dos vários exemplos a apontar, pensemos nos que garantiam que a fotografia iria matar a pintura, naqueles que viam no cinema o substituto do teatro, ou nos que previam com certeza o fim da rádio com o advento da “caixa que mudou mundo”. Recentemente, os mesmos também vêem na Internet o fim da televisão e não só. Obviamente que as formas de comunicação e expressão se adaptam, mas um novo meio não dita necessariamente o desaparecimento de outros.

Naturalmente que um livro não é bom só por si. Basta entrar numa livraria para se ver a quantidade de lixo que é publicado hoje. No entanto, a leitura de um livro, para além do contacto com o objecto, é um processo completo, que demora tempo e pode ser faseado. Algo que contrasta com este tempo em que a informação se quer instantânea e descartável.

A este propósito, numa entrevista recente, o filósofo francês Alain de Benoist afirmou que “o maior risco para o homem de hoje é adoptar um comportamento tecnomorfo que asfixia pouco a pouco aquilo que nele há de propriamente humano”. Assim, podemos questionar se, nesta era dita digital, o livro será o último refúgio do homem livre. Não será o único e muito provavelmente não será o último, mas é um óptimo refúgio, acessível e necessário.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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