terça-feira, 30 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Já chega!
Alexandre Homem Cristo escreve hoje no «Observador» um texto interessante sobre a forma como o politicamente correcto tem alterado os heróis da nossa infância. Aqui fica um excerto: «Basta uma breve pesquisa pela internet para constatar que, ao longo dos anos, têm sido dezenas as alterações às histórias de banda desenhada e aos filmes infantis, variando consoante o país onde são publicadas. O Lucky Luke deixou de fumar, trocando o cigarro na boca por uma palha. Os irmãos Dalton, os seus eternos inimigos, nunca mais foram alvejados pelos tiros dos revólveres. Nas aventuras do Pato Donald no Oeste, as armas deixaram de ser apontadas a outras personagens, e só se apontam dedos em forma de pistolas. Nas suas aventuras na África negra, os indígenas trocaram os dentes afiados por um sorriso perfeito e, claro, deixaram de ser canibais. O Tio Patinhas viu a sua aventura na América banida porque os índios eram demasiado semelhantes entre si (o que foi visto como uma forma de racismo). E o Capitão Haddock, veterano marinheiro, alcoólico temperamental e parceiro de aventuras de Tintim, deixou de beber.» Já chega de politicamente correcto!
sábado, 27 de dezembro de 2014
Barulho por quase nada
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
A noite mais longa
Os europeus cedo viram neste momento a representação de uma morte que anunciava um renascimento. Considerando os tempos difíceis que temos vivido, é natural que façamos uma analogia política. Este paralelo, aliás, não é novo. Recorde-se, por exemplo, o início da peça “Ricardo III”, de Shakespeare, que começa por referir “o Inverno do nosso descontentamento” transformado em “Verão glorioso” pelo Sol.
Escreveu o saudoso Jean Mabire, profundo conhecedor das tradições europeias e ciente da sua actualidade: “O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno. A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo. Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.”
Nesta época de escuridão, guardemos a esperança no regresso da luz. Feliz Natal.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Da despolitização
Alexandre Franco de Sá
in "Metamorfose do Poder".
domingo, 21 de dezembro de 2014
Solstício de Inverno
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Café para hoje
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
O último refúgio do homem livre
Para os eternos crentes na técnica, o livro em papel tem os dias contados e em breve será substituído por suportes digitais cada vez mais avançados e em permanente alteração. Convém recordar que semelhante vaticínio nada tem de novo e que, historicamente, falhou pura e simplesmente. Dos vários exemplos a apontar, pensemos nos que garantiam que a fotografia iria matar a pintura, naqueles que viam no cinema o substituto do teatro, ou nos que previam com certeza o fim da rádio com o advento da “caixa que mudou mundo”. Recentemente, os mesmos também vêem na Internet o fim da televisão e não só. Obviamente que as formas de comunicação e expressão se adaptam, mas um novo meio não dita necessariamente o desaparecimento de outros.
Naturalmente que um livro não é bom só por si. Basta entrar numa livraria para se ver a quantidade de lixo que é publicado hoje. No entanto, a leitura de um livro, para além do contacto com o objecto, é um processo completo, que demora tempo e pode ser faseado. Algo que contrasta com este tempo em que a informação se quer instantânea e descartável.
A este propósito, numa entrevista recente, o filósofo francês Alain de Benoist afirmou que “o maior risco para o homem de hoje é adoptar um comportamento tecnomorfo que asfixia pouco a pouco aquilo que nele há de propriamente humano”. Assim, podemos questionar se, nesta era dita digital, o livro será o último refúgio do homem livre. Não será o único e muito provavelmente não será o último, mas é um óptimo refúgio, acessível e necessário.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
O fim da nossa Idade
Assim se fala mal português
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
O irmão de Salazar
Este título parece uma figura de estilo, mas não é. Segundo um jornal considerado “de referência” na nossa praça, é uma verdadeira descoberta. Na última edição da revista do semanário “Expresso”, há uma peça dedicada ao que comiam os ditadores. Por entre os apetites de Estaline, Kim il-Sung, Ceausescu, entre outros, a jornalista diz-nos que o Presidente do Conselho de Ministros português adorava sardinhas. Isto porque, segundo ela, era um “prato que lhe lembrava a sua infância pobre e os tempos em que tinha que partilhar uma única sardinha com o irmão”. É caso para dizer que o disparate não tem limites. A ignorância histórica está de tal forma generalizada que passa incólume em meios de comunicação social que deviam ter um cuidado mínimo com o que é publicado. Mas concedamos o benefício da dúvida, talvez o objectivo fosse tornar a história mais apetitosa...
sábado, 13 de dezembro de 2014
Sociedade da desinformação
Os tempos em que vivemos são amiúde considerados pelos bem-pensantes como a “era da informação”. Infelizmente, esta designação pomposa está longe de corresponder à realidade.
A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.
Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.
Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.
Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.
Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.
A Internet mudou consideravelmente o panorama, como a televisão o havia feito décadas atrás, mas este acesso generalizado a uma multiplicidade de conteúdos não significou necessariamente uma elevação cultural da população. Muito pelo contrário. A vaga digital trouxe muitas vantagens de comunicação, mas agravou o imediatismo. Não é por acaso que por tantas vezes ouçamos a expressão “vi na Internet”. De facto, o verbo utilizado está correcto, dado que se “viu” mas não se “leu”. Assim, há uma falha natural na compreensão à qual acresce a dificuldade inerente à velocidade estonteante a que tudo se passa. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma simplificação da linguagem. Não me refiro apenas à escrita abreviada, que dispensa acentuação e aceita erros ortográficos, mas a uma redução brutal do vocabulário utilizado.
Este processo de embrutecimento em curso é ainda mais chocante porque coincide com uma época onde, perante a extraordinária facilidade de acesso a tanta informação valiosa, a maioria continua a preferir – bem conduzia a tal, claro está – conteúdos em linha ou televisionados que representam o que de mais baixo há na sociedade.
Para além do prazer de surfar as ondas digitais da Internet está um oceano de conhecimento no qual é necessário mergulhar. Esta viagem às profundezas do saber constitui um crescimento interior, uma formação no sentido literal do termo.
Este é um caminho que apenas pode ser feito pela leitura de livros, pela sua selecção, pela construção de uma biblioteca pessoal que reflicta todo o trabalho estrutural de edificação interior.
Apenas pela leitura, pelo conhecimento e pela reflexão conseguiremos resistir à ditadura mediática e à imposição da mediocridade que nos torna prisioneiros da fraqueza. Sem livros nunca seremos livres.
Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
A praga dos caixotes de vidro...
Outono no Jardim das Amoreiras
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
Rainer Maria Rilke
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Jorge Luis Borges merecia uma homenagem digna
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Os escritores têm casos de consciência?
«Céline aparece à janela.
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguisses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»
in «Arts», 14/11/1956. (Trad. port. de Alberto Nunes Sampaio, in “O Cão de Deus”, Hiena Editora, 1995)
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguisses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»
in «Arts», 14/11/1956. (Trad. port. de Alberto Nunes Sampaio, in “O Cão de Deus”, Hiena Editora, 1995)
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