quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Julgamentos

A detenção de um antigo primeiro-ministro suspeito da prática de vários crimes é inédita no nosso país. Não adianta recordar como o desgoverno de José Sócrates tanto contribuiu para afundar ainda mais Portugal. Foi um político que não deixou saudades, mas que insistia em estar sempre presente na vida política nacional, ainda que à distância. Um auto-proclamado gigante da moralidade que, pelos vistos, pode ter pés de barro...

Muitos alegram-se de o ver sujeito a um longo interrogatório, como se as suspeitas confirmassem a prática dos crimes. Para estes, ver Sócrates nesta situação é a sentença final do julgamento popular que há muito haviam feito. Não é. A procissão ainda vai no adro, como se costuma dizer, e devemos aguardar atenta e pacientemente.

Por muito benéfica que a queda do “menino de ouro do PS” – como o classificou a sua biógrafa – seja para os outros partidos, é impossível ver este caso como isolado.

Da mesma forma que o desmoronar do Grupo Espírito Santo não foi um mero problema de gestão bancária, os actos ilícitos de Sócrates – a confirmarem-se – não são uma questão pessoal ou pontual. Fazem parte de um sistema que está podre. São mais uma pedra que cai deste regime que está a ruir. Um problema estrutural que leva atrás de si o País e prejudica gravemente a vida dos portugueses.

São exactamente os culpados pelo estado deplorável a que chegámos, à total descredibilização das instituições políticas que hipotecaram Portugal, que importa julgar.

Esse, sim, deve ser um julgamento popular. Uma tomada de posição de um povo que está farto de ser vilipendiado e que tenha a coragem e a força de recuperar uma nação milenar. Portugueses decididos a não trocar o mesmo pelo mesmo, ou pelo semelhante. O fim da escolha do “menos mau”.

Nessa mudança tão necessária, mas que continua adiada (por quanto tempo?), a única sentença é retomar Portugal.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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