quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A força da máquina

Há uns anos, ouvi um estrangeiro afirmar que Portugal era “o país à mesa”, numa tentativa de caricaturar a forma como os portugueses escolhem as refeições para ter reuniões de trabalho ou encontros importantes. Como seria de esperar, o indivíduo apenas conseguiu o que pretendia num almoço e, rendido ao nosso hábito e também à nossa gastronomia, voltou para casa a saber que o seu estúpido preconceito não passava disso mesmo. Recordo-me sempre deste episódio cada vez que, à mesa, por mais banal ou informal que seja a conversa, obtenho informações importantes.

Vem isto a propósito de um jantar onde falei com uma pessoa que recentemente decidiu tornar-se militante de um dos maiores partidos portugueses. Conhecedor de algumas das suas posições, incompatíveis com o actual regime, questionei-o sobre as razões da sua decisão. Disse-me que o sistema partidário português está viciado e que só é possível “fazer política” dentro de um dos “grandes”. Era um entrismo individual, com objectivos políticos e que chocavam com a passividade que encontrou no seio dos que o acolheram.

Devido à sua formação e experiência, integrou rapidamente um grupo de trabalho com antigos militantes, mas a experiência não correu bem. Trabalhou bastante, elaborando várias propostas de lei, mas cedo se apercebeu de que era o único a fazê-lo. O resultado foi a estranheza e a consequente hostilização dos seus novos “companheiros de luta”. O argumento mais utilizado por estes nem era a discordância com o que ele apresentava, mas o mero facto de serem militantes há mais tempo. Esta antiguidade de posto, por si só, devia garantir-lhes a sucessão natural de cargos até ao almejado lugar elegível numa lista eleitoral.

Perante tal cenário, limitei-me a comentar que tais “militantes” passivos encaravam a vida partidária como uma escada rolante que os leva até ao topo e na qual é não preciso qualquer esforço, porque esse cabe à força da máquina.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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