quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O livro que está a agitar a França

A mais recente obra do polemista Éric Zemmour é um fenómeno literário de vendas e está a agitar as águas da política francesa. À direita é vista como um alerta para o estado a que chegou o país. À esquerda é vista como um perigoso ensaio catastrofista que pode “alimentar a extrema-direita”. “O Suicídio Francês” promete não deixar ninguém indiferente.

Éric Zemmour é um nome que pode não dizer muito aos leitores portugueses, mas é uma figura de referência em França. Jornalista e escritor, de 56 anos, é principalmente um polemista. Define-se como um judeu de origem berbere e como fazendo parte da direita reaccionária. Não hesita a criticar o Maio de 68, a imigração, a islamização, entre outros temas incómodos, atitude que já lhe valeu vários processos judiciais. Os seus comentários políticos batem audiências, seja no seu programa matinal de rádio, seja nas emissões televisivas em que participa ou nas crónicas que escreve na Imprensa, nomeadamente no “Figaro Magazine”. Autor de vários livros, o seu último trabalho está a agitar a política francesa.

Sucesso de vendas
“Le Suicide français – les 40 années qui ont défait la France” (“O Suicídio Francês – os 40 anos que desfizeram a França”), publicado pela editora Albin Michel, do jornalista e polemista Éric Zemmour, foi lançado a 1 de Outubro e vende mais de cinco mil exemplares por dia. Um ensaio político que vende mais do que os livros do novo Nobel da Literatura, Patrick Modiano, e do que “Merci pour ce moment”, de Valérie Trierweiler, ex-companheira do Presidente Hollande. O livro de Zemmour tornou-se rapidamente um ‘best-seller’, um sucesso de vendas que demonstra a preocupação dos franceses com a situação política que o país enfrenta.

O declínio francês
Ao longo das mais de 500 páginas de “O Suicídio Francês”, Zemmour analisa por ano, a partir de 1970, os acontecimentos que levaram à perda de poder do Estado sobre o país, nomeadamente no que respeita ao controlo da imigração e da economia, o que levou a uma dissolução progressiva da França, que começou com os ideais do Maio de 68.
Afirma Zemmour que a partir dos anos 80 a contra-cultura dos anos 70 torna-se a “cultura oficial” e, com a chegada da esquerda ao poder, a “cultura de Estado”. Segundo ele, “a família e a prisão serão a partir daí vistas como objectos idênticos a detestar e a sua contestação tornar-se-á a verdade oficial. Toda a sociedade será duravelmente destabilizada. A delinquência sairá reforçada, desmultiplicada; e os defensores da ordem deslegitimados, fragilizados, desconsiderados”.
Mas, para Zemmour, a perda da soberania nacional deve-se principalmente ao Tratado de Maastricht e ao federalismo europeu. Para ele, a “Europa integrada tornou-se o laboratório de um governo mundial ainda no limbo”.
Sobre a selecção francesa de futebol, depois da vitória em 1998, afirma que “mudou as cores”, deixando os jogadores de representar os valores da França tradicional, quaisquer que fossem as suas origens, para cair na “obsessão racialista do anti-racismo dominante desde os anos 80”. Por fim, a crítica à progressiva islamização da França, incompatível com os valores republicanos.
São os pontos principais deste relato dos quarenta anos que, para Zemmour, “desfizeram a França”.

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