sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Do carácter

Os ciclos eleitorais habituaram-nos a que os candidatos prometem o que não podem, ou não tencionam, cumprir. Como vale tudo para vencer e a seriedade deixou de ser uma qualidade para se tornar um argumento descartável, uma vez chegados ao poleiro, aqueles que garantiram tudo fazer pelo “interesse nacional” – outro chavão tão em voga no discurso político actual – justificam-se com a “alteração das circunstâncias” e cedem aos interesses próprios, seja do seu partido, seja dos grandes grupos económico-financeiros que os suportam.

Não é assim de estranhar que, em especial no “centrão”, em nome da seriedade, a mais recente jogada de ‘marketing’ é afirmar-se contra os “interesses”, nestes tempos em que a promiscuidade entre a política e os negócios é cada vez mais notória. Mas será hoje possível a quem ocupa altos cargos governativos um espírito altruísta e uma atitude desinteressada? Será o carácter compatível com os “interesses” que contaminam a política?

Como escreveu Jean Giono, no seu maravilhoso “O Homem que Plantava Árvores”: “Para que o carácter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter a sorte de poder observar os seus actos durante muitos anos. Se esses actos forem desprovidos de todo o egoísmo, se o ideal que os conduz resulta de uma generosidade sem par, se for absolutamente certo que não procuram recompensa alguma e se, além disso, ainda deixam no mundo marcas visíveis, estamos então, sem sombra de dúvida, perante um carácter inesquecível.”

De facto, nesta era da baixa política não há pessoas assim. É de homens com carácter que precisamos para conduzir os destinos da Nação.

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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