sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Miopia política

É hoje regra aceite pelos nossos políticos que o que interessa é o imediato. Em nome de um pragmatismo de conveniência, sempre justificado com a pretensa salvação da Pátria, esquece-se um desígnio nacional.

Desta forma, a política portuguesa é vista ao microscópio. Não porque se pretenda maior precisão, mas porque tudo é decidido quase dia-a-dia e a pequenez dos seus intervenientes assim o exige. Os resultados são desastrosos. Veja-se, enquanto exemplo paradigmático, a forma como se foi hipotecando a soberania de uma nação multi-secular a troco de esmolas que permitem apenas a continuação da ilusão do conforto.

Das vergonhosas genuflexões aos enviados da ‘troika’ às tricas partidárias, que atingem um nível tão baixo que até custa a acreditar, os supostos representantes do povo atolam-se cada vez mais no pântano em que transformaram a governação.

Urge tirar a esta gente os óculos de vistas curtas, ou melhor, não deixar que gente que sem eles nada vê decida do nosso futuro. A responsabilidade não é apenas dos que agora lá estão, mas também dos que os deixam lá estar.

É claro que nem tudo cabe na definição de um projecto comum que nos mobilize, mas é necessário que a nau tenha um destino antes de nos preocuparmos com o estado do cordame. Uma nação de valorosos navegadores não pode andar ao sabor aleatório dos ventos, antes deve demonstrar a fibra e a tenacidade de outros tempos.

Nos dias que correm, fazem ainda mais sentido as palavras que o Embaixador Marcello Duarte Mathias escreveu no seu “Diário de Paris”, há mais de uma década: “O curto prazo é a única medida de tempo que determina hoje os políticos. Os nossos e os outros. Não os motiva um qualquer sentido de urgência, sofrem apenas de miopia. Hoje, governar é agir sem prever.”

Editorial publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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