quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“Só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens”


Pedro Massano é um autor de Banda Desenhada com uma extensa obra publicada que abrange vários temas. No campo da História destacam-se os dois primeiros tomos da trilogia “A Conquista de Lisboa” e, para a editora francesa Glénat e com argumento de Patrick Lizé, os dois primeiros tomos de uma trilogia inacabada, “Le Deuil Impossible”, que refere a vida de D. Sebastião. Recentemente publicou “A Batalha”, um álbum magnífico dedicado à Batalha de Aljubarrota. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia deste álbum?
Foi uma ideia da Fundação Batalha de Aljubarrota, que me abordou para o efeito.

Como foi a parceria com a Fundação Batalha de Aljubarrota?
Creio que foi exemplar. A Fundação percebeu que o que o álbum envolvia não era apenas ilustrar “a direito” as crónicas existentes. Num trabalho deste tipo, há sempre a necessidade – anterior aos primeiros esboços – de compreender, de forma crítica, tudo o que podemos encontrar sobre o assunto. Este é um primeiro aspecto. O outro é saber ler a iconografia das fontes coevas, quando existe, e adaptá-la ao que queremos contar. Um exemplo disto é, se considerarmos que o primeiro livro de armas digno desse nome é o do Infante D. Pedro – muito posterior aos factos relatados – a necessidade de percorrer o país, à procura de brasões gravados na pedra, anteriores ao sucedido. Outro, é a necessidade de saber pelo que optar de entre o material narrativo que existe, e filtrá-lo de acordo com o objectivo em vista. Por exemplo, em Fernão Lopes, há uma imensidade de “anedotas” que fazem todo o sentido na sua descrição. Se tivesse optado por incluí-las todas estaria, ainda, a desenhar. Ainda outro, porventura o mais importante. Numa história de que sabemos o fim e o princípio, como desenvolvê-la de modo a não maçar o leitor, respeitando escrupulosamente a cronologia?


Considera que há um interesse crescente na História de Portugal?
Gostaria de crer que sim. Acredito que só podemos saber para onde vamos se estivermos o mais informados possível sobre as nossas origens.

Esta é uma boa forma de fazê-la chegar aos mais jovens?
Confesso que nunca fiz, durante o meu percurso, uma grande distinção entre os mais e menos jovens. A minha principal preocupação quando inicio qualquer trabalho de Banda Desenhada, particularmente no que se refere a temas históricos, é perguntar a mim próprio “o que é que eu gostaria de saber sobre o assunto em questão”. É a partir daí que oriento toda a pesquisa e o desenvolvimento posterior. Só posso desejar que o leitor, mais ou menos jovem, não se sinta defraudado quando chegar à última página.

Mesmo assim, nota-se em “A Batalha” uma preocupação com as fontes e com as notas explicativas. Há nesta banda desenhada um preocupação com o rigor...
Isso tem a ver com o que deixei atrás. Quem, como eu, cresceu com o Estado Novo, levou com a respectiva ‘overdose’ de História de Portugal e da sua banalização. Do meu ponto de vista só há uma forma de combater isso: o rigor. E, num livro deste teor, feito para uma Fundação que tem como objectivo perpetuar uma das jornadas mais peculiares do nosso viver colectivo, a minha obrigação como autor é, dentro dos parâmetros do meu trabalho, fornecer toda a informação do modo mais correcto que me for possível. Por exemplo, ler as fontes castelhanas e o Froissart na língua e grafia originais.


Essa preocupação significa que há um público mais exigente?
Acredito que sim. Tenho tido a surpresa, ao longo da minha vida profissional, de ser abordado por pessoas com responsabilidades docentes e de investigação a nível histórico, e outros, que têm expressado a sua concordância e adesão ao meu trabalho. Só tenho, naturalmente, que lhes agradecer.

Foi autor dos desenhos de álbuns publicados no estrangeiro. Está pensada alguma tradução deste álbum?
Essa é uma pergunta que deverá dirigir à Fundação e ao Editor. É a eles que compete gerir o futuro do livro.

Tem algum projecto na área da História de Portugal em vista?
Espero ter agora oportunidade de acabar o terceiro tomo da “Conquista de Lisboa” de acordo com a crónica de Osberno e depois se verá.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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