segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“Portugal não acabou. Tenho a certeza”

Jaime Nogueira Pinto é doutorado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, foi director do jornal “O Século”, administrador da Bertrand e actualmente é accionista e administrador de empresas na área da consultoria estratégica e da segurança privada. Autor de uma extensa obra, publicou recentemente “Novembro”, o seu primeiro romance, “Ideologia e Razão de Estado – Uma História do Poder”, a sua tese, uma reedição do seu “Portugal – Os Anos do Fim” e o ensaio “Portugal – Ascensão e Queda”. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para a edição do semanário «O Diabo» de 19 de Agosto de 2014.

No seu livro “Portugal - Ascensão e queda”, considera o nosso país como uma “nação singular”. Porquê?
É uma nação que tem, na sua História, o mais alto e o mais baixo. É ao mesmo tempo messiânica e comercial: fizemos fortuna com as especiarias da Índia, no século XVI, o açúcar do Brasil, no séc. XVII, o ouro e os diamantes também do Brasil, no século XVIII, e o café de Angola, no século XX. Destas quatro fortunas não nos ficou praticamente nada. Fomos um imperialismo original, “imperial”, mas pouco imperialista.

Porquê pouco “imperialista”?
Para os teóricos do imperialismo, o inglês Hobson e depois Lenine, o imperialismo era uma forma em que o poder político-militar e a dominação que garantia serviam para assegurar a exploração económica de outros povos. A dominação servia ao povo dominante para extrair as mais-valias do trabalho e dos recursos da terra, dos dominados, dos colonizados.
Com certeza que não fomos uns anjos do céu ou umas Madres Teresas de Calcutá. Tivemos de tudo, do mais repressivo ao mais generoso. Mas deixámos lá quase tudo: ficámos no Brasil para sempre e, em África, ajudámos a criar sociedades destribalizadas, miscigenadas, como em Angola e Cabo Verde.
Isto é menos sabido e repetido porque fomos vítimas de várias lendas negras: desde já, apanhámos por tabela com a “lenda negra” anti-espanhola que os ingleses, mestres na matéria, foram difundindo sobre as trevas do “papismo” dos países católicos. Isto apesar de tudo o que os povos peninsulares contribuíram para a Geografia, para a Cosmografia, para as ciências naturais e matemáticas dos séculos XV a XVII. Depois, fomos vítimas dos próprios espanhóis que com a “Monarquia Dual” nos trouxeram a inimizade dos seus inimigos e privilegiaram a defesa do que era deles e só deles.
Modernamente retomaram-se os clichés sobre a suposta inferioridade do Sul católico em relação ao Norte reformado. Ainda há pouco via isso num livro, aliás bem escrito, sobre o 27 de Maio em Angola de uma inglesa progressista. E temos, o que é pior, o autoflagelo dos nossos próprios intelectuais que acham chique repetir e exagerar os clichés anti-portugueses.

Qual foi o ponto alto da grandeza de Portugal?
O nosso século de grandeza vai de 1415 a 1515, da conquista de Ceuta à morte de Afonso de Albuquerque. É um tempo de excelência nacional, de uma dinastia luso-britânica em que uma sociedade nova, saída da guerra da independência, aproveita a circunstância peninsular e as crises de unificação da Espanha para ganhar massa crítica ultramarina e assim ficar pronta a enfrentar o futuro.
A sociedade portuguesa tem então liderança, apesar do choque de lideranças, como na crise que terminou em Alfarrobeira; tem um projecto e uma estratégia, que continuam com D. João I, o Infante D. Henrique, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel. Isso resultou de uma convergência muito interessante de poderes e saberes políticos e religiosos, de uma mistura de interesses privados, curiosidade científica e sentido e razão de Estado.
O século sintetiza-se nos quatro heróis portugueses de Oliveira Salazar – o Condestável S. Nuno, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Um refunda e defende o Reino, o outro concebe a Cruzada e a Descoberta, o terceiro faz a Viagem, o último faz a Conquista do Índico e do seu comércio.
Vem depois um meio século de aguentar – com uma interessante política de equilíbrio na Europa e os princípios da colonização do Brasil. A seguir é Alcácer-Quibir e a queda, em 1580.
Depois da glória, vem esse tempo ainda misto até ao desastre de Alcácer-Quibir e à ocupação filipina: aquilo a que, em termos dinasticamente correctos, se chamou Monarquia Dual.
Os grandes poetas e visionários como Camões e o Padre António Vieira tiveram a noção disto. O povo e a parte corajosa e marginal das elites – como D. João de Castro – viveram-no e, para sobreviver, valeram-se do mito Sebástico, uma forma de resistência e de activismo patriótico.
Fernando Pessoa recontou e reformulou esta História no século XX, com os seus mitos fundacionais, os seus heróis e protagonistas. E Eduardo Lourenço vem acompanhando, de modo crítico, o que deles ainda vive, vale e interessa.

Mas hoje estamos num "limbo virtual", uma "espécie de purgatório pós-moderno", como afirma. Porquê?
Estamos sim. Fomos o primeiro Império ultramarino da modernidade e fomos também o último. Passámos também, caso raro num país europeu, por um curto ciclo revolucionário em que repetimos as ilusões trágico-cómicas da utopia comunista – isto nas vésperas do Comunismo real desaparecer como modelo político-económico e social.
A esquerda doméstica, criada no ódio vesgo a Salazar, que a afastou por quase meio século do poder, acabou por ser a grande sobrevivente do salazarismo. Com os seus mitos resistencialistas, com a sua dramatização heróica de um tempo em que não teve protagonismo, com a sua caricatura negra dos “Quarenta e Oito Anos de longa noite fascista”. Talvez estivesse no seu direito de vingança e compensação. Mas também não conseguiu ocultar, fora do ideológico, a modernização que aconteceu em Portugal nos últimos quinze anos do Estado Novo.
A radicalidade do PREC foi vencida graças à aliança objectiva entre a Intelligence norte-americana, a pressão europeia, o peso de Yalta e a resistência, às vezes brutal, do povo do Norte e Centro-Norte.
Em Novembro de 1975 (por isso chamei Novembro ao romance que escrevi e publiquei em 2012), acabaram os dois “projectos globais” portugueses – o da Direita, que era o Império ultramarino, e o da Esquerda, a Revolução socialista. Céus e Infernos trocados.
Fomos então para o purgatório, para esta espécie de liberal-social-democracia, mais ou menos de mercado, mais ou menos social, na faixa pobre da Europa. Por isso lhe chamo purgatório, pois saímos do Inferno ou da sua visão (do comunismo pêcêpista e dos esquerdismos maoístas), mas estamos longe do Céu – da nação independente, livre e desenvolvida, que nos foi sendo prometida.
Na classe política oriunda do velho Reviralho, os “antifascistas de sempre” converteram-se ao esquerdismo utópico e politicamente correcto. Renunciaram a todo e qualquer realismo político. São utópicos porque acham que lhes fica bem.
Agora que o liberalismo passou de moda (tantos foram os seus efeitos perversos), a direita sistémica refugia-se num catecismo eurocrático, mais ou menos funcional e asséptico. Ideias, nem vê-las, quanto mais tê-las.
Não há, em Portugal, um partido nacionalista – como há em França, na Grã-Bretanha e em muitos países da Europa Central e de Leste. Restaurar no léxico político-ideológico a nação como valor político corrente, seria um bom princípio.

Como pode o nosso país recuperar a sua soberania e, como refere, restaurar a "a ideia do primado da Nação como valor político"?
Como? Talvez comece a ser possível, esgotado que começa a estar o discurso do individualismo enumerador de direitos, garantias e liberdades sem fim nem conta e de “direitos sociais” extraordinários mas nunca aplicados.

Se a União Europeia não sabe para onde vai, qual a solução? Outro modelo europeu?
A Europa tem que se repensar como espaço económico, e até financeiro, mas no respeito das suas nações, das suas pátrias. Isto vai acontecer naturalmente, à medida que as nações se libertam do conformismo e do imobilismo e se desfazem os slogans que pretendem reduzir o nacionalismo à agressão e à guerra, agora tão repetidos por ocasião do centenário de 1914.

O actual conflito na Ucrânia anuncia um confronto maior?
Pode degradar-se. Se não tivermos cuidado em reduzi-lo, isolá-lo e resolvê-lo, num diálogo aberto e franco com Moscovo, e reconhecendo que a NATO, com os seus entusiasmos pós-Guerra Fria e o seu apostolado democrático, perturbou o equilíbrio europeu às portas da Rússia, pode mesmo degradar-se. Não perceber que Putin não podia perder a Crimeia, é não perceber nada de História nem de Cultura da Europa e da Rússia.

Há quem fale numa nova Guerra Fria. Concorda?
Não. Na Guerra Fria, a União Soviética e os seus satélites queriam impor um modelo político-social ao resto do mundo e contavam com os partidos comunistas. Hoje não existe nada disso.

O papel dos EUA e da NATO como “polícias do mundo” está hoje fragilizado? Considera que a administração Obama mudou o paradigma norte-americano de actuação internacional?
Obama é, acima de tudo, um retórico que cultiva a forma. Tem uma oratória sedutora, mas, na maioria das vezes, ou até de conteúdos contraditórios, desprovida de conteúdo. Depois do apostolado democrático de George W. Bush, com as guerras do Iraque e do Afeganistão, perturbadoras, perdidas mas consequentes, Obama não quer nenhum tipo de intervenção.
Nessa medida, o caso da “linha vermelha” na Síria foi paradigmático e preocupante. O governo de Damasco trespassou-a e Washington aproveitou a intervenção russa para não cumprir o prometido. Há um modelo de “melhor governo”, a democracia liberal que os Estados Unidos conhecem e querem exportar, mas, ao mesmo tempo, há a preocupação de não correr o risco de ter guerras e de ter baixas. Como toda a contradição, numa grande potência, esta é preocupante.

Qual deve ser a posição de Portugal na força geopolítica que é a lusofonia?
Portugal está na posição, nem sempre fácil, de ser o pai ou a mãe que os outros, para se afirmarem, têm de matar ou, pelo menos, de tratar mal. Tem também, por força da História e da Geografia, condicionamentos constitucionais e políticos que os outros não têm.
Precisa, por um lado, de manter uma respeitabilidade de velho senhor, mas não pode dar-se ao luxo de, ao querer impô-la a todos, desencadear a crise e a ruptura.
E depois há o Brasil, muito grande para a CPLP, e que tem dificuldade em aceitar a igualdade de desiguais que ela pressupõe.

A importância das relações de Portugal com os países lusófonos deve sobrepor-se às relações europeias?
Fomos sempre – desde o século XV que o somos – europeus, marítimos e luso-africanos. Temos que equilibrar estas faces históricas, políticas e culturais da nossa realidade. A cegueira europeísta dos dirigentes da “jovem democracia” dos anos oitenta causou-nos muitos problemas. Hoje, na Europa, tem que se coexistir inteligentemente com outras faces e realidades do nosso modo de ser e estar no mundo. Equilíbrios estratégicos, coerentes e guiados por uma inteligente razão de Estado.

Como vê o papel da CPLP? É preciso outro modelo?
Os modelos são o menos. Este serve para fazer coisas boas, coisas más e coisas assim-assim. Até pode servir para não fazer coisa nenhuma. O importante é o espírito e a substância da política.

Há muitos países não-lusófonos que têm interesse na CPLP. A entrada da Guiné Equatorial pode anunciar uma nova fase desta organização?
A entrada da Guiné Equatorial foi polémica, como não podia deixar de ser. É bom ter capacidade e plasticidade para explorar novos caminhos, mas tem sempre que haver um certo decoro, um princípio director, algumas regras elementares. Dito isto, pode haver uma geometria variável de estatutos de participação a negociar e desenvolver, mantendo um mínimo ético de referência.


Voltando ao seu “Portugal – Ascensão e queda”, há um fio condutor que nos faz crer numa nova ascensão. Acredita que os defensores da “inviabilidade de Portugal” estão errados e que no futuro possamos afirmar-nos de novo como Nação?
Citando um português que muito admirei pelo seu patriotismo e pelo modo coerente e corajoso como viveu e defendeu as suas ideias, Alberto Franco Nogueira, não posso nem quero admitir um princípio de suicídio colectivo, a inviabilidade nacional.
Contra mim falo, ou contra o que fui em certo momento trágico da vida do país, no desfazer do Império, quando disse “Portugal acabou”. Penso que não acabou. Tenho a certeza. O que é interessante na modernidade é a prolixidade com que vemos reformularem-se e reformarem-se eternas categorias como o Bem e o Mal, o Útil e do Inútil, a Verdade e a Mentira e as possibilidades de recriação e renascimento quase das cinzas que se oferecem às comunidades. Vimos, há vinte e cinco anos, comunidades e nações da Europa Oriental submetidas e escravizadas pelo comunismo soviético, levantarem-se bruscamente, outra vez livres.
Com a lucidez de quem viu e viveu muitos desastres e tragédias, colectivas e pessoais, posso dizer que a esperança fica sempre, como aquela centelha esquecida no rescaldo da água e das cinzas, que animada, volta a pegar e a propagar o fogo. Caímos tão fundo, que as leis da física hão-de levar-nos para cima.

Sem comentários:

Enviar um comentário