quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eternas saudades do futuro

Música, 2014.
Impressão a jacto de tinta sobre papel fotográfico | 70 x 86 cm | Edição: 3

Há dois anos, o regresso de João Marchante, com a excelente exposição “Foto-Síntese”, confirmou-o como um dos grandes talentos da fotografia contemporânea em Portugal. Agora, com “Educação Sentimental”, volta a surpreender numa viagem fotográfica por um passado que se torna futuro.

As doze peças que se adaptam perfeitamente ao espaço onde estão expostas são um tesouro revelado. Como se de uma adega particular se tratasse, João Marchante guardou vários trabalhos em Polaroid, que correspondem a várias épocas da vida e a diversas fases artísticas, para uma ocasião especial. A data das fotografias – 2014 – é, assim, a de quando atingiram a sua forma final e deleitam a vista, estimulando o nosso imaginário, como um vinho antigo, depois de abrir, aveluda as nossas papilas gustativas e aquece o espírito.

Não há neste conjunto uma colagem de imagens avulsas, mas uma unidade que se constrói num movimento que termina num recomeço anunciado. Há uma descida às profundidades do nosso íntimo – uma reviravolta interior. Da arquitectura nos planos elevados, passamos para o mar, para a terra e depois para a intimidade da casa, da mente, e, por fim, da imaginação do cinema, onde podemos sempre partir para mais um ‘take’.

O elo de ligação é o feminino, a mulher distante de quem nos aproximamos e pensamos conseguir domar. Uma ilusão tão bem expressa em “Pintura”, fotografia de tons lynchianos que nos transporta para um labiríntico jogo de espelhos. Nesta “educação” há uma sensação permanente do intangível, de que não é possível atingir o fim – ou, melhor, os fins.

Mesmo que haja nesta “Educação Sentimental” um ruir de ilusões românticas, como no romance homónimo de Flaubert, há a confortante promessa de um retorno, o que provoca umas eternas saudades do futuro.

A exposição, que inaugurou no passado dia 3 de Julho e estará patente até ao dia 27 de Julho, pode ser visitada na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, de terça a sexta-feira, das 10 horas às 17 horas, e aos sábados e domingos, das 11 horas às 18 horas, encerrando à segunda-feira e nos feriados.

3 comentários:

  1. Pois, eu conto ir ver a Exposição e agradeço a lembrança, mas não deixo de registar com alguma admiração, para não dizer decepção, o facto de o João Marchante não responder aos vários pedidos que lhe fiz há já algum tempo no J. do Restelo, para que me facilitasse o acesso ao seu "Aforismos", uma vez que, segundo se lê neste mal clicamos, só a ele tem acesso quem tiver autorização(?!) ou for convidado(?!)... O mesmo acontece com o contacto por email. Mas será este o melhor método de tratar os leitores que lhe têm sido sempre fiéis? Na minha modesta maneira de ver, acho que não.

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  2. Veja a exposição porque vale mesmo a pena. O "Aforismos" foi suspenso porque o João teve uma proposta para o editar em livro.

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  3. Se ele era bom na fotografia, então, certamente, ainda será melhor a pintar os sentimentos.Promete!

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