quarta-feira, 18 de junho de 2014

Uma profissão em vias de extinção?

A crise da Imprensa não é novidade, mas a notícia da vaga de despedimentos na Controlinveste impressionou-me. Pior, incomodou-me. O jornal mais afectado deste grupo foi o “Diário de Notícias”, uma publicação histórica onde tenho vários amigos.

Falei com dois deles. Um foi despedido e o outro ficou, mas as preocupações de ambos coincidem. Discutimos o futuro dos jornais em Portugal e nenhum de nós acredita que seja positivo. Será um pessimismo inflamado pela actual situação? Seguramente, mas a questão é muito mais profunda.

A Imprensa também sofre com um regime onde os “gestores” ascenderam a uma posição de casta superior. Estes especialistas em “investimentos” com dinheiro alheio, para quem vender jornais é o mesmo que vender batatas, vêem a vida em números. E vão mais longe, quando vêem vidas como números. O meu amigo que perdeu o emprego, em tom de desabafo, confidenciou-me que já lhe tinham chamado muita coisa, mas nunca o haviam tratado como “massa salarial excessiva”. Os excessos, como mandam as dietas estivais da moda, são para eliminar. Os cortes são sempre justificados e a lógica implacável da linha de montagem (como se o princípio de Henry Ford se aplicasse à produção intelectual...) nivela as empresas, segundo uma cartilha escrita em inglês e decorada nos MBA.

Não é assim de estranhar que uma das áreas mais desprezadas seja a cultura, nestes novos jornais que se querem económicos, tanto no custo de produção como nos temas tratados.

A esse propósito, que acontecerá ao Arquivo do “DN”, que alberga 150 anos de História de Portugal? E ao belo edifício de Pardal Monteiro? Bem sei que está classificado, mas o Éden de Cassiano Branco também e veja-se o que lhe fizeram...

Dois amigos enfrentam o futuro incerto da Imprensa. O que foi despedido disse-me: “jornalista é uma profissão em vias de extinção”. Não quero acreditar, apesar da progressiva desvalorização a que temos assistido. O que ficou, convencido de que lhe cabe a ingrata tarefa de “fechar a porta”, reconheceu que nunca tinha considerado a possibilidade do fim do “DN”, mas agora cada vez mais o vê como uma certeza. Uma Imprensa livre é fundamental para uma sociedade informada e crítica. Exijamo-la.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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