sexta-feira, 20 de junho de 2014

A tirania do conforto

“Hoje, os insignificantes tornaram-se os senhores, todos pregam a resignação, a acomodação, e a prudência e a aplicação, e as considerações, e todo o extenso ‘et caetera’ das virtudes miúdas”
Friedrich Nietzsche


Muito se fala da falta de credibilidade da classe política actualmente no poder, daqueles que, saídos directamente dos viveiros partidários, enchem a boca de “interesse nacional” enquanto vendem a retalho um País corroído pelo crédito desenfreado, pela miséria mais ou menos escondida e pelo abandono. São os chantres do “equilíbrio” e da “estabilidade”. Os condutores de um automóvel parado que se julgam no comando das operações, quando na realidade estão a ser transportados num cargueiro de pavilhão estrangeiro.

Mas a ilusão destes “pulhíticos”, como tão bem lhes chamava o saudoso Rodrigo Emílio, submissos às grandes empresas que canibalizam o Estado, projecta-se também para baixo.

Não vivemos hoje na terra das pequenas invejas e dos ódios bacocos? Um país de memória curta, toldado pela superficialidade, que premeia a mediocridade e fomenta a hipocrisia e a corrupção? Está assim garantida a fertilidade do pântano do qual parece que não conseguimos sair.

Por isso, vinga por cá a política de baixos salários – em nome da competitividade, garantem os “especialistas” – que qualquer dia não se distinguirão dos cheques de rendimento mínimo garantido.
Papagueando o refrão da cantiga dos tudólogos televisivos de fim-de-semana no café da esquina, os ignorantes crêem-se participantes num debate, numa intervenção cívica, sem se aperceberem de como estão anestesiados.

Mas a crise, enquanto começo, pode despertar os que têm apego à vida e que se recusam a ser autómatos. A diferença é feita pelos que têm a coragem de se libertar da tirania do conforto aparente. Homens que no seio da sua comunidade cumprem o dever pátrio da defesa dos seus.

O futuro de Portugal será garantido pelos portugueses que não se esqueceram de onde vêm.

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

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