sábado, 3 de maio de 2014

“Em cem anos a sociedade portuguesa mudou em quase tudo”

Ricardo Marques é jornalista e autor de vários livros, como “Moçambique: o Regresso dos Soldados”, “Assim Matam os Portugueses” e “Os Fantasmas do Rovuma”. Publicou recentemente “1914 – Portugal no ano da Grande Guerra”, um retrato abrangente da sociedade portuguesa de então, ilustrado com os factos, as curiosidades e s estatísticas da vida social, da ciência, das artes, da política, do desporto e até do crime. Aqui fica a entrevista que fiz para a edição de «O Diabo» do passado dia 15 de Abril.

Neste ano do centenário da Primeira Guerra Mundial tem-se notado um especial interesse à vida particular das pessoas e da forma como a guerra as afectou. É um lado que falta estudar para além do conflito militar?
É, acima de tudo, uma dimensão inesgotável. Quando falamos de algo tão impressionante como a Primeira Guerra Mundial, a todos os níveis, tendemos por vezes a esquecer as pequenas coisas. Claro que a história se faz e se alimenta do confronto, da visão dos vencedores e dos vencidos. É natural. Mas é preciso não esquecer que por cada batalha, por cada grande deslocação de tropas, há vidas que tentam prosseguir o melhor que podem e consegues. Há gente que acorda todos os dias de manhã para trabalhar, para estar com a família, com os amigos, para ler um livro ou outra coisa qualquer. E isso, normalmente, não cabe na lente com que olhamos os grandes acontecimentos. No entanto, com um pouco de esforço, podemos encontrar mundos fascinantes.

O que o levou a esta descoberta da sociedade portuguesa no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial?
Houve dois caminhos que, a dado momento, se cruzaram. Desde logo, o livro que tinha escrito sobre a Primeira Guerra Mundial em África. Há algo curioso na forma como começou a nossa guerra África em 1914. Assim que estalou o conflito na Europa, a primeira preocupação do Governo de Portugal, da República que tinha apenas quatro anos, foi enviar tropas para Angola e Moçambique de modo a salvaguardar a integridade das então colónias. Mais interessante é que antes de entrarmos efectivamente no conflito – a declaração de guerra da Alemanha a Portugal é de 1916 – já tínhamos enviado milhares de homens para África e já tínhamos entrado em combate. Esse foi um dos caminhos. O outro foi o fascínio que me ficou de tentar perceber o que ia na cabeça dos portugueses nos primeiros meses do ano, na véspera de um conflito tão brutal como a Primeira Guerra Mundial. É estranho olharmos para trás, conscientes de que algo vai acontecer, e conhecermos pessoas que não fazem a mais pequena ideia.

Em que se baseou para chegar ao dia-a-dia dos portugueses de então?
A melhor forma é ler os jornais. E havia muitos jornais. Tantos que, infelizmente, é impossível lê-los todos. Li todos os que consegui. Li livros editados nesse ano, livros sobre esse ano, voltei a olhar para o material que já tinha do livro anterior. De algum modo, durante quase um ano vivi em 1914. E optei, quando escrevi, em ficar lá. Ou seja, todo o livro está escrito como se o mundo tivesse acabado nesse ano. Vou dar-lhe um exemplo: a Federação Portuguesa de Futebol foi criada em 1914, embora com outro nome. Outro ainda: a maquete da estátua do Marquês de Pombal ganhou o concurso nesse ano, mas só foi construída algum tempo depois. Optei por não explorar o futuro que começava ali. Caso contrário, acho que ainda hoje estaria a escrever…

Quais foram as grandes diferenças que encontrou em relação aos nossos dias?
Quase tudo é diferente. Tão diferente que hoje damos por adquiridas algumas coisas com que na altura só se sonhava. Estamos a falar de um país que era quase analfabeto, em que a doença ceifava milhares de vidas todos os anos, em que a vida valia muito pouco. Em cem anos mudámos quase tudo.

Descobriu algo que não estava à espera, ou sobre o qual tinha uma ideia errada?
O mais surpreendente foi perceber que havia duelos, algo muito engraçado. Havia todo um ritual, que envolvia testemunhas e trocas de correspondências. Depois, escolhiam-se as armas, marcava-se uma hora e lá iam todos, quase sempre para a estrada da Ameixoeira. Os médicos interrompiam os combates sempre que alguém se aleijava e a coisa só parava quando o ofendido se sentia retratado. Era muito engraçado. E muitas vezes começava tudo com um artigo num jornal.

Também encontrou semelhanças com os dias de hoje. Como por exemplo?
Penso que, cem anos depois, há coisas em que somos praticamente iguais. O fascínio por tudo o que vem de fora, do estrangeiro, quase sempre em detrimento do que se faz e pensa por cá é algo que ainda hoje mantemos. Apesar de estarmos a assistir, curiosamente, a um interesse crescente e renovado pelo que é português. É um fenómeno interessante. Creio também que mudou muito pouco a forma como encaramos o Estado, essa entidade que tudo tem de resolver.


Há coisas que nem a guerra muda?
Essa é uma pergunta complicada. Se pensarmos bem, quando é que foi a última guerra que se travou em território português? Nos últimos cem anos, apesar de o mundo ter vivido duas guerras mundiais, e de termos combatido em África durante 13 anos, a verdade é que não se disparou um tiro em Portugal. Não significa que isso que tenhamos passado incólumes – milhares de famílias perderam pais, filhos, irmãos, maridos. Mas era sempre algo que acontecia longe, era sempre uma notícia que chegava. Para esses, como para os que voltaram e que vivem como se ainda estivessem por lá, a guerra mudou tudo. Somos o que sempre fomos, mas somos diferentes. Não sei se faz sentido…

Mesmo assim, concorda que a Primeira Guerra Mundial representou o fim de um mundo?
Sim, claro. Mas acho que mais do que o fim de um mundo, foi sobretudo o início de um outro, o início do mundo em que vivemos. Vinte anos houve nova guerra, uma ainda mais horrível, que mostrou ao mundo o lado mais negro da humanidade. O mundo dividiu-se a seguir, depois um dos lados desmoronou-se e hoje ainda não sabemos ao certo em que mundo estamos a viver. Se é que é possível falar de um mundo. Se calhar sempre houve vários mundos.

Entrevistou a bisneta do arquiduque Francisco Fernando, como foi essa experiência?
Muito interessante. É mais uma daquelas histórias que se perdem na grande história. E a dela começa com o assassinato dos bisavós em Sarajevo. Francisco Fernando e Sofia tinham três filhos à espera em casa, num castelo que está hoje na República Checa. Esse castelo, 100 anos depois, é um museu. A bisneta do arquiduque luta há vários anos para que o castelo seja devolvido à família. Ela tem um argumento interessante. Quando Francisco Fernando e Sofia se casaram – e como ela não tinha o estatuto necessário para se tornar uma Habsburgo – ambos assinaram uma declaração comprometendo-se a que ela e os filhos jamais seriam membros da família imperial. Ou seja, jamais seria Habsburgos. Ora, alega a bisneta, o castelo não era uma propriedade dos Habsburgo. Mas foi confiscado como se fosse. Ela sabe que é uma guerra perdida. Mas é a guerra dela.

Ela considerou que a sociedade de hoje é mais egoísta, concorda?
Não sei. Talvez tenhamos formas diferentes de sermos mais egoístas. Creio que é um mundo construído cada vez mais para o indivíduo e a consequência talvez seja termos menos uma sociedade, como ainda a concebemos, e mais uma “socioindividualidade”.

O que podemos aprender hoje com o estudo da catástrofe que a Primeira Guerra Mundial representou para a Europa?
Há duas lições importantes, creio. A primeira é que sobrevivemos. Não só à primeira, como à segunda e a tudo o que veio depois. Estamos cá, vivos para recordar e pensar sobre as coisas. Podemos olhar para trás e aprender. A segunda lição é que, apesar de tudo, isso pode não valer de nada. O futuro tende sempre a surpreender-nos. Que o digam as pessoas que foram ao teatro à noite na véspera de começar a guerra.

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