sexta-feira, 9 de maio de 2014

A defesa da nossa Civilização

A partida de Vasco Graça Moura, figura ímpar da cultura nacional, tocou-me especialmente. Li-o e citei-o, concordei e discordei dele, mas aprendi sempre muito. Foi até ao fim um lutador incansável. Bateu-se pela Língua, pela Cultura, pelos valores da Civilização Europeia.

Em 2011 entrevistei-o para o nosso jornal sobre o famigerado Acordo Ortográfico. Um combate comum, do qual nunca desistiu, mesmo contra aqueles com quem havia ladeado politicamente.

Defensor acérrimo da Língua portuguesa, criticou ferozmente “o ‘eduquês’ de serviço”, que segundo ele “ao longo de décadas e de vários espaços ideológicos deu cabo da escola em Portugal”. Recordou por isso “o prazer da leitura dos grandes escritores da língua portuguesa”, que “deveria ir sendo progressivamente construído no pleno escolar” para contrariar a crescente ignorância nacional. Nesta “promoção a sério de uma série de disciplinas e de conteúdos identitários”, Vasco Graça Moura salientava que “não deveria esquecer-se uma relação, diacrónica e sincrónica, com a Europa. Sem algumas noções elementares a este respeito, nada compreenderemos de nós mesmos, da nossa identidade e dos nossos problemas”.

Mas não se veja aqui uma mera preocupação intelectual. Homem de elevada erudição, denunciava as várias ameaças à nossa Civilização, tomando posições hoje consideradas “politicamente incorrectas”, como a oposição à adesão da Turquia à União Europeia. Alertou também para “o risco de a imigração ultrapassar completamente a vida e a mentalidade dos europeus” na defesa de “aquilo que é essencial”, ou seja, a “civilização e cultura a que pertencemos e em que crescemos, que contêm um conjunto de valores que deve ser preservado a todo o custo”.

O combate pelo essencial foi a melhor lição deste homem da cultura, que nos mostrou que a beleza das letras e das artes é inseparável do nosso maior objectivo político – a defesa da nossa Civilização.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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