quinta-feira, 10 de abril de 2014

Saudade do futuro

A Saudade é um sentimento próprio; sabemo-lo porque a sentimos enquanto portugueses. Uma palavra intraduzível porque reflecte a alma pátria e própria, conciliando comunidade e indivíduo.

Portugueses e galegos, afirmou António Braz Teixeira, encontraram “na saudade a memória da origem e um outro sentido do tempo, bem como a garantia da suprema unidade do homem e da natureza e da redenção final pelo amor”. Com a Língua, a Saudade também se projectou para outras paragens metamorfoseando-se.

Depois da ânsia de ir dos Descobrimentos será a Saudade a ânsia de voltar, como escreveu Ortega y Gasset? Mas se o filósofo espanhol via nesta re-patriação permanente uma radical recusa da aventura, não podemos considerar a Saudade uma estagnação, um passadismo, um imobilismo nostálgico, como a consideraram tantos derrotistas.

A Saudade deve ser entendida como um movimento cíclico nacional, a seiva que liga as raízes às folhas mais altas que despontam – a religação entre o passado e o amanhã eterno.

O que nos deve mover é a Saudade do futuro, que, como descreveu António Quadros, “é uma paixão que animou toda a nossa história, como inspira toda a nossa cultura, fautora de acertos ou de erros, mas sempre omnipresente. O hoje é uma passagem evanescente entre um ontem que remonta às origens e um amanhã que é para nós mais, bem mais do que um mundo simplesmente melhor do que este, é um reino da primazia do espírito e dos seus valores, para o qual, consciente ou inconscientemente, trabalha tudo o que em cada um de nós é altruísta, dadivoso, generoso, visionário.”

A nossa Saudade é do futuro – a vontade de regressarmos a nós próprios para o devir nacional.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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