sexta-feira, 25 de abril de 2014

Recordar


O livro “O Ataque aos Milionários”, do jornalista e historiador Pedro Jorge Castro, que tive a oportunidade de entrevistar para o semanário “O Diabo”, é uma investigação sobre as perseguições durante o PREC às principais famílias que controlavam a Economia portuguesa, como os Espírito Santo, Mello e Champalimaud.

Não é uma obra panfletária, é um trabalho sério e isento. No entanto, ao contrário de tantas teses académicas que se acumulam nos arquivos das Universidades, esta tem o mérito de gerar o debate. Mais, de fazer com que se recordem publicamente os excessos do PREC, que muitos continuam a louvar como um passo para a “liberdade”.

Um exemplo desse mérito do livro foi dado na sessão de lançamento que decorreu no Porto e que contou com a presença e intervenção do actual Presidente da Câmara. Rui Moreira recordou como o seu pai, empresário fundador da Molaflex, foi vítima desses excessos revolucionários por “ser rico”.

Em 1975 foi preso por Eurico Corvacho, comandante da Região Militar do Norte, e por civis armados. A seguir, foi submetido a interrogatórios de 16 horas, metido em celas com detidos de delito comum e torturado com simulações de fuzilamento de outras pessoas, durante meses. Passou por vários estabelecimentos prisionais, sem acusação formada e sem que a família tivesse notícias dele. Durante este período terrível de insegurança e incerteza esteve em isolamento e ficou com problemas de saúde dos quais nunca recuperou.

Esta é uma memória familiar que deve ser a de todos nós. Passados 40 anos do 25 de Abril, a recordação de abusos destes permite-nos a compreensão plena de um passado ainda recente, que infelizmente continua toldado por uma mitologia “revolucionária” que urge desconstruir.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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