quarta-feira, 30 de abril de 2014

Morte de Portugal

No passado dia 26 de Abril assinalou-se o 450.º aniversário do nascimento de William Shakespeare, baseado na data do seu baptismo. Abril seria também o mês da sua morte, 52 anos depois, no dia 23. O “bardo de Avon” tornou-se o escritor de língua inglesa mais conhecido no mundo. Poeta, dramaturgo, actor, a sua obra é um tesouro literário, marco da cultura europeia, que continua a influenciar gerações.

A propósito da celebração recente do 25 de Abril, reli “O discurso de Marco António”, escrito por Manuel Maria Múrias no primeiro número do efémero jornal “Bandarra”. Um texto baseado na tragédia shakespeariana “Júlio César”, que começava assim: “Amigos, Portugueses, compatriotas: Trago-vos Portugal nos braços. Venho para os seus funerais – e não para o louvar. O mal das pátrias sustenta-se além da morte. O bem enterra-se com elas.” Sob a aparência de um elogio fúnebre, era de facto um apelo à sublevação, tal como no original.

Múrias, dirigindo-se aos novos detentores do poder e antecipando o seu futuro próximo, escreveu: “prender-me-ão quando quiserem sem ninguém protestar; calar-me-ão”. Acabou por ser condenado a prisão efectiva pelo crime de abuso de liberdade de imprensa no regime democrático, mas nunca foi silenciado.

O discurso da “morte de Portugal” foi durante muito tempo entendido como uma fatalidade, dos saudosistas estáticos que baixaram os braços aos derrotistas instalados que acham que o nosso destino comum cabe a outros. Mas este foi e será um discurso inspirador para todos os que guardam em si a força interior de lutar.

Por muito que custe aos que querem enterrar Portugal, haverá sempre portugueses dispostos a erguê-lo. Que a “morte de Portugal” seja sempre um apelo à vontade de manter bem viva a nossa nação!

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

2 comentários:

  1. Depois de ter escrito «O Discurso de Marco António» foi preso no dia28 de Setembro de 1974, mas não foi condenado por nada. Esteve preso 14 meses sem culpa formada . Foi com a «Aliança Democratica» no poder condenado a 14 meses de cadeia por abuso de liberdade de imprensa

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  2. Obrigado pela clarificação. De facto, o que escrevi pode induzir em erro, o que não era obviamente a minha intenção.

    É a segunda vez que refiro Manuel Maria Múrias em editorial e na anterior pormenorizei: "Outro caso, entretanto tão convenientemente “esquecido”, é o de Manuel Maria Múrias. A seguir ao golpe de Abril, é preso sem culpa formada devido a um artigo publicado no semanário “Bandarra”, dirigido por Miguel Freitas da Costa. Uma vez solto, funda “A Rua”, jornal que o vai novamente levar à prisão, já nos anos 80. Acusado de “abuso de liberdade de imprensa” devido a um artigo sobre Mário Soares, é condenado e cumpre pena efectiva. Nessa altura, Raul Rego exigiu a sua prisão, na “República”, como “salvaguarda da liberdade e da democracia”!
"

    http://penaeespada.blogspot.pt/2011/08/liberdade-de-imprensa.html

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